women

Não pode ser seu amigo quem exige o seu silêncio. (Alice Walker, escritora e ativista feminista)

Da expressão “mulher de respeito”
Por Aline Menezes

O título escolhido para abrir esta publicação exigiria a produção de artigo, ensaio, capítulo de livro ou livro, mas nunca texto relativamente curto e superficial como este que me proponho a escrever. No entanto, como faço parte do grupo de mulheres e homens que lutam pelo fim de toda e qualquer forma de violência contra a mulher, senti-me impelida a levantar aqui breves reflexões sobre o assunto, postura que já tenho adotado efetivamente há, pelo menos, dez anos.

No mundo, inúmeras meninas e mulheres são diariamente agredidas, estupradas, violentadas e assassinadas por seus maridos ou ex-maridos, namorados ou ex-namorados, companheiros ou ex-companheiros, conhecidos ou desconhecidos. Os agressores são homens das mais diversas nacionalidades, culturas, posições sociais, graus de instrução ou religiões. E todos eles mantêm algo em comum: assumiram para si concepções machistas e patriarcais e as reproduziram no mais alto grau de violência.

O fenômeno da violência de gênero tem especificidades muito bem definidas. Não se trata, portanto, de aceitarmos o contra-argumento daquele discurso generalizante e pueril de que homens também são assassinados todos os dias. A grande diferença é que a violência contra a mulher tem como origem “o que se construiu historicamente com a ideia de ser mulher”. Portanto, é um problema estruturante, está na base do pensamento formador das sociedades machistas e patriarcais. Tem como origem, entre outras referências, modos de perceber o outro (nesse caso, o outro é mulher) como alguém de quem se deve esperar obediência, submissão e condescendência. E mais: modos de perceber esse “outra” como alguém que não dispõe de vontades, desejos e direitos, muito menos direitos humanos.

A violência que se pratica contra homens tem outras origens, diversas, que não estão no fato de eles serem homens, mas de serem pessoas, sujeitas às mais diversas crueldades do mundo, e violência que também deve ser combatida. Porém, o problema da violência contra a mulher está numa outra esfera, que exige combate específico. Por isso, ao utilizar a frase de que “mulheres precisam se dar ao respeito para serem respeitadas”, a cantora Anitta, no programa Altas Horas, exibido no último sábado (6/12), embarcou numa das armadilhas do machismo: acreditar que a culpa pelo desrespeito sofrido pelas mulheres é das mulheres. E que nós, mulheres, se quisermos ser respeitadas, devemos seguir a cartilha de boas maneiras.

Não, Anitta, a culpa é dos agressores. A culpa é de qualquer coisa, menos da vítima. Porque se não combatermos essa mentalidade violenta, estúpida, imbecil e machista, continuaremos achando que mulheres de minissaia merecem ser estupradas. Que meninas de 10 anos que têm corpos bonitinhos têm que satisfazer aos desejos “dos homens”. E que os homens têm o direito de agredir e violentar uma prostituta porque ela não é uma “mulher de respeito”, afinal, faz sexo. E pago!

Sendo assim, dentro dos problemas estruturantes, estão as expressões carregadas de agressão e de apelo ao controle da liberdade feminina. Uma dessas expressões é “mulher de respeito”, tão ridícula quanto a sua própria tentativa de explicação. Nesse sentido, lembro-me agora do artigo em espanhol da professora e pesquisadora Rita Laura Segato, da UnB, que fala especificamente sobre um outro tipo de violência, não a física, mas igualmente ou mais devastadora: a violência moral. Abaixo, faço uma tradução livre e talvez arbitrária:

“A violência moral é tudo aquilo que envolve agressão emocional, ainda que não seja consciente nem deliberada. Entram aqui a ridicularização, a coerção moral, a suspeita, a intimidação, a condenação da sexualidade, a desvalorização cotidiana da mulher como pessoa, de sua personalidade e traços psicológicos, de seu corpo, de suas capacidades intelectuais, de seu trabalho, de seu valor moral. E é importante enfatizar que esse tipo de violência pode muitas vezes ocorrer sem agressão verbal, manifestando-se exclusivamente com gestos, atitudes, olhadas. A conduta opressiva é perpetrada em geral por maridos, pais, irmãos, médicos, professores, chefes ou colegas de trabalho.”

Assim, homens, sejam vocês pessoas de respeito: homens e mulheres que respeitam o direito à vida. Seja essa vida de Madre Teresa de Calcutá ou da pecadora Maria Madalena!

2 Replies to “women”

  1. Muito bem Aline.Concordo com você.
    Adorei o texto.

  2. Aline, esse tema que você aborda é muito importante porque está na cena diária, fortemente! Parabéns por trazê-lo à tona e pela forma com que o apresenta.

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