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Não se nasce mulher: torna-se. (Simone de Beauvoir)

Madame Bovary não sou eu. E se fosse?!
por Aline Menezes


Grande parte da sociedade ainda pensa que a violência contra a mulher não acontece sem que a mulher tenha feito algo para “merecer”. Ou seja, de um modo ou de outro, determinadas concepções – submetidas à lógica machista – vão sempre buscar justificativas para as ações agressivas, violentas e brutais contra o sexo feminino. Um exemplo disso é a tentativa de culpar as vítimas de estupro pelo tamanho de suas roupas. Ainda é lamentável constatar a ignorância de muitas pessoas em relação ao que seja violência.

Para os mais estúpidos, o significado do termo restringe-se às agressões físicas, numa negação das várias outras formas e dimensões da violência doméstica e familiar. Pressão psicológica, calúnia, difamação, ofensas, agressões verbais, tudo isso é igualmente violento e brutal. Tudo isso afeta profundamente a vida de quem sofre esse tipo de violação e provoca sentimentos devastadores, quando não a morte.

Muitos homens, de maneira cínica e perversa, criam uma atmosfera de medo e horror para que mulheres permaneçam sujeitas a tratamento agressivo. Acuadas e quase sempre desprotegidas, muitas delas tornam-se vítimas de sua própria impotência. Ainda hoje silenciam a violência porque sentem que, embora tenham havido mudanças em relação aos nossos direitos, há questões culturais e sociais que continuam favorecendo os homens, mesmo quando eles são os agressores.

O respeito à mulher ainda está longe de ser algo natural numa sociedade como a nossa, que mantém para a figura masculina quase todos os tipos de concessões. O respeito à liberdade sexual feminina, por exemplo, não existe. A compreensão de que mulheres têm o direito de fazer suas próprias escolhas é quase sempre uma “compreensão” disfarçada e falaciosa. E quase sempre discutida sob o ponto de vista dos machos alfa, numa tentativa de rebaixar, desmoralizar e não dar legitimidade às nossas causas.

Lembro-me agora de Simone de Beauvoir: “Querer-se livre é também querer livres os outros”.

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Texto divulgado, pela primeira vez, em 9.8.2014.

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