stand up

Sem entender a televisão, ninguém pode entender a cultura popular americana. Nem a política americana. É ela quem elege os nossos presidentes. (Camille Paglia, escritora estadunidense)

Violência stand up
por Aline Menezes

Casos de Família, apresentado por Christina Rocha e exibido de segunda a sexta-feira pelo SBT, é uma daquelas produções televisivas que nos fazem parecer idiotas, e talvez sejamos mesmo. Tive a infelicidade de assistir ao programa do último dia 17; foram necessários menos de cinco minutos para que eu ficasse perplexa diante do que vi. Não é algo novo o fato de as pessoas serem nacionalmente expostas ao ridículo, nem muito menos que assuntos sérios sejam tratados de modo irresponsável pelas emissoras de TV. (A propósito, estamos nos referindo a concessões públicas).

A edição dessa data, pelo que entendi, era sobre a agressividade de alguns homens contra as suas esposas. Uma das participantes, diversas vezes, afirmou: “ele bate sempre em mim”; “ele me bate com chutes, com socos”; “ele me bate, por exemplo, quando eu não pego a toalha pra ele”. A aparente naturalidade com a qual a mulher revela tais agressões me impressiona. A plateia ri. Ri porque tudo é apresentado de maneira divertida, espetacular, na acepção mais verdadeira da palavra. Ri na conivência de quem não reflete sobre a gravidade do que se passa, daquilo que está diante dos olhos. O máximo que a plateia consegue gritar é um: “folgadooooo!! folgadoooo!!!!”.

Para tornar tudo ainda mais animado, a apresentadora pergunta: “você gosta dele?”, ao que a participante responde: “sim, eu gosto dele”. Mais uma vez, a plateia se manifesta com risos e um “sussurro” do tipo: “ah, então ela apanha porque gosta” [risos]. No “fundo”, é exatamente isso que o senso comum reproduz. Pior: é exatamente isso que o programa reproduz. Fora isso, a entrada do marido dessa participante é quase triunfal… ele desce a escadaria, que compõe o cenário do programa, com um leve sorriso no rosto, enquanto a plateia (ah, a plateia!!!) dá vaias, que não o constrangem, mas o fazem apenas centro das atenções.

“Por que você bate nela?”, Christina pergunta. “Porque eu chego cansado do trabalho”, ele responde, dando a entender que ele tem certeza de que a sua atitude é legítima, afinal, o cansaço por um dia terrível de trabalho, por provavelmente ter suportado o trânsito infernal da cidade grande e por todas as outras razões do dia a dia… isso o faz quase ter o direito de bater na mulher. Afinal de contas, para todo cansaço, é justo que haja um momento ou ocasião para que se extravase. Por que não na mulher?!

Talvez se aquele homem tivesse a oportunidade de articular melhor a linguagem, utilizar melhor os conectores, ele dissesse aquela frase em outras palavras: “Eu chego cansado em casa, depois de um dia infernal de trabalho, portanto, bastante estressado. Vivo esse ritmo há anos. Não tenho o direito sequer de chegar em casa e ter uma toalha à minha disposição. É claro que eu não gostaria de bater na minha mulher, mas eu me descontrolo e acabo despejando minhas frustrações de maneira agressiva contra ela”. Mas ele é prático, sucinto, não demora com palavras (afinal, ele é homem, e são as mulheres que falam em demasia; estou aqui confirmando a regra): “[bato na minha mulher] porque eu chego cansado do trabalho”.

O homem recebe o título de “folgado”, quando na verdade ele é violento; a mulher recebe a inscrição subliminar “apanho porque gosto”, quando na verdade ela é mais uma dentre milhões de mulheres em relacionamentos agressivos, machistas, brutalizados… Mulheres que acabam aceitando a ideia de que elas são culpadas pela violência da qual são vítimas; mulheres que se sentem incapazes de viver sem eles, muitos dos quais são os mantenedores, aqueles que levam o pão e o leite para os seus filhos; mulheres que também se tornam agressivas, especialmente com elas mesmas; mulheres que aprenderam a lógica perversa dos relacionamentos: “se ele me bate, é porque mereço; caso contrário, como ele me ama, sei que ele não faria isso”.

Nada do que eu escrevi até aqui é novo, aliás, faço-me repetitiva e simples nos argumentos; da mesma forma, nada do que escrevi até aqui está no passado, visto que ainda é frequente, comum. Esta é a minha edição dos fatos, apresentados no programa que vi. Admito que não narrei a parte em que o homem é repreendido pela apresentadora porque ele ameaçara bater na mulher exatamente ali, diante das câmeras… Que Casos de Família já tenha sido acusado de armação, sobre isso já ouvimos falar… e disso não duvido. Mas, ao que me parece, não importa se tudo não passou de armação (quer dizer, sim, importa, e muito! Porém, não discutirei isso agora), é válido que tudo foi dado como real, como “casos de família”, conflitos diários, problemas do cotidiano.

Violência é crime. Por incrível que pareça, violência contra a mulher também é crime. O assunto não é Stand Up Comedy, portanto, exige reflexões muito mais sofisticadas do que as vaias de pessoas igualmente dispostas a incorporarem o espetáculo televisivo e nocivo, ao qual, lamentavelmente, estamos acostumados a assistir e do qual também, de um jeito ou de outro, participamos. É inaceitável que situações tão graves, como a violência doméstica, sejam apresentadas de modo tão patético, disseminando a ignorância e a estupidez, ridicularizando mulheres e homens, transformando a gravidade do tema num simples adjetivo masculino singular: folgado. Ironicamente a palavra folgado significa também abusado, e não abusador.

One Reply to “stand up”

  1. Querida Aline, concordo com você em gênero, número e grau! O gênero feminino adoeceu sim em tantos séculos de relações agressivas, se tornando agressivas consigo mesmas e com seus filhos, pois imagine em quem elas descontam as suas próprias frustrações? E acho que essa consequência renderia outra enorme e infinita discussão. Também é incrível o número de pessoas que ainda assistem espetáculos de horror dessa espécie e riem, quando deveriam chamar a polícia. Por fim, há um grau de imbecilidade que beira o retardo mental, e é inspirado nessa bestialidade que são produzidos este tipo de programa. Por isso passo longe de TV, ler meus livros só me traz benefícios!

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