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O opressor não seria tão forte, se não tivesse cúmplices entre os próprios oprimidos. (Simone de Beauvoir)

O filho que eu não gostaria de ter
por Aline Menezes

Para a pergunta comum e equivocada sobre se eu gostaria de ter um filho gay: em primeiro lugar, não entendo a homossexualidade como desvio de conduta, safadeza, vergonha, anormalidade ou condição desprezível de existência… Entendo-a da mesma maneira que percebo a heterossexualidade. Portanto, não encontro na questão nenhuma razão para que eu “tivesse medo” de ter um filho ou uma filha que se manifestasse sexualmente diferente de mim.

Discordo de todos aqueles que tentam marginalizar a expressão sexual alheia porque ela não está ajustada ao comportamento heteronormativo. Até porque o que me interessa nas pessoas não é a sexualidade delas, mas o seu caráter, a sua inteligência e a sua capacidade de respeitar a vida do outro e de intervir no mundo de maneira lúcida, honesta, justa e benéfica.

Mas que não seja “um respeito por obrigação” ou por ser politicamente correto, mas que seja verdadeiro, que nasça da compreensão genuína de que quem é solidário com a vida humana, respeita a diversidade sexual de quem quer que seja, respeita a natureza diversa dos seres. E respeitar é muito mais que dizer: “eu respeito, só não concordo”.

Eu não gostaria de ter um filho criminoso, eu não gostaria de ter um filho mau-caráter, eu não gostaria de ter um filho que batesse em mulher, eu não gostaria de ter um filho policial corrupto, um filho político corrupto, um filho motorista de ônibus corrupto, eu não gostaria de ter um filho que oprimisse as pessoas e que as condenasse pela sexualidade que elas expressam.

Essas, sim, na minha opinião, seriam condições para que eu possivelmente gritasse “não gostaria de ter um filho assim”. Porque, para mim, são formas de existir que violam direitos e violentam pessoas, portanto, são contrárias à perspectiva de mundo que acolho e que busco na minha experiência diária.

Se o meu filho ou filha for gay, lésbica, bissexual, transsexual, transgênero ou qualquer outro nome que tenta estereotipar ou definir o que os humanos são em sua intimidade sexual, seja nas relações homoafetivas ou heterossexuais, eu gostaria apenas de contribuir para que ele ou ela entendesse que a hipocrisia, a estupidez e a imbecilidade humanas devem ser combatidas todos os dias.

Se essa luta significa expor-se diante de uma sociedade abusiva, violenta, hipócrita, que nega de várias maneiras a liberdade sexual de homens e mulheres, continuarei me expondo, continuarei me recusando a fazer parte de grupos religiosos fundamentalistas, de grupos políticos abusivos, de gente mesquinha e tacanha, que se orgulha de ser hétero, mas não se envergonha de ser tão religiosamente imoral.

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