shadowland

A morte existe e, seja lá o que for, ela importa. Tudo o que acontece traz consequências, e tanto a morte como as consequências são irrevogáveis e irreversíveis. Você pode, do mesmo modo, dizer que o nascimento não importa. Ao olhar para o céu noturno, pergunto-me se há algo mais certo do que isto… (Lewis, p. 39)

Rápida e indigesta: assim defino esta sociedade fast food, que não tem tempo sequer para as experiências abstratas. Que não mais assimila a solidez dos amores perdidos (ou presentes). Que nos faz adquirir coisas e sensações estúpidas, a exemplo dos meus medos de raios e cigarras. Não são as lágrimas piegas que procuro, mas o encantamento da vida que pulsa em profusão.

Busco o desespero em suaves doses de melancolia. O sentido exato de nossas perplexidades, as contradições internas e em simetrias. Valores meus, só meus. Sem donos nem rostos nem definições, assim: temporariamente sem vírgulas. Minha fé não está em abandono. Ela é concreta – mesmo quando não a sinto tão perto. Tão grande. Tão convicta de ser quem ela é.

É possível que Jack esteja certo quando conversa com Joy: “sofrer não torna nada mais real, nem mais significativo”. Mas, para ela, experiência pessoal é tudo. Eu, porém, tenho aqui a ilusão de estar limpando a alma, que se suja todos os dias, todas as tardes, todas as noites.

Deduzo nada extraordinário, tão óbvio quanto o que escrevo para mim: a cada nascer do sol, ficamos mais próximos da morte. E, quando anoitece, a esperança do amanhã pode ser terrivelmente enganosa. Mas, ainda assim, tê-la é a mais prudente das incertezas.

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LEWIS, C. S. A anatomia de uma dor: um luto em observação. Tradução Alípio Franca. São Paulo: Editora Vida, p. 39, 2007.

5 Replies to “shadowland”

  1. Quando passamos muito rápido por uma estrada… Vemos apenas borrões de paisagem, mas nunca paisagem de verdade.

    E hoje, mais do que nunca, nosso andar está cada vez mais acelerado….

  2. Lineeee, saudade do seu canto, cada vez mais cantado!
    Ótimo texto, ótimo layout.

    Lineee, você pensa demais garota! E pensa bem. Eu gostei muito do texto, batida frontal no que tenho pensado e vivido ultimamente.
    Mas eu estou preguiçosa, no pensar, de pensar, só de pensar…vou ficando cheia sem ter por onde escoar tudo em mim…
    É bom ler o pensado de fora, no momento prefiro sentir de fora do que de dentro.

    Bjins.

  3. Oieeeeeeeeeeee, gostei muito do texto, principalmente da frase que fala sobre as experiências abstratas. Tenho tanto medo de entra nesse mundo fast food e não conseguir sair mais. Deus nos livre!

  4. “Por duas vezes nesta vida foi-me dada a escolha
    Quando garoto e quando homem
    O garoto escolheu a segurança
    O homem escolheu o sofrimento
    A dor de agora é parte da felicidade de então
    Esse é o trato”

  5. Concordo com Jack em que sofrer não torna nada mais real, nem mais significativo. A questão é que a intensidade de seu sofrimento vai ser proporcional à medida de seu comprometimento. Ninguém sofre por aquilo que não significa nada. E ninguém deixa de sofrer por aquilo que significa algo.
    A escolha é demonstrar e se entregar ao sofrimento, ou manter algum resquício de esperança e lutar contra a dor quando ela se faz presente.

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