SE O CÉU NUMA TORRENTE CHORA

[…] Em nosso pequeno mundo caseiro
brotam pelos divãs
poetas de melenas fartas.
Que esperar desses líricos bichanos?
Eu, no entanto,
aprendi a amar no cárcere.
(MAIAKOVSKI, p. 106)

Aquela dor que inibe o estancar do sangue, da cólera dos amores literários, do movimento curvilíneo da vida, que nem sempre nos previne das feridas que nos levam ao chão. O levantar dos olhos não é tão simples como nos ensinam os livros imaturos, como se tivéssemos a força criadora de dizer que nada mais dói. Que tudo passou. Quem nos ensinou a vida?

Se tivéssemos lido todos os livros, os clássicos, os finais felizes, as tragédias gregas, toda a história primitiva; se tivéssemos observado todos os museus, a arquitetura, os pergaminhos dos deuses; se tivéssemos descoberto que a admirável pintura de hoje ou a exposição do dia seguinte, em geral, foi o tormento arrasador do artista; se tivéssemos. Ainda assim estaríamos aqui, escrevendo estas mesmas linhas, sentindo a mesma dor, porque a vida não nos parece querer antecipar respostas.

Impossível andar e seguir adiante sem nunca precisar olhar para trás. Impossível. E não nos enganem dizendo o contrário. Como se ainda fôssemos tolos, ingênuos, puros. Sejamos honestos com a falta de inocência que nos acomete a alma, quando deitamos perdidos dentro de nossa dor e agonia particulares. Tão em nós, que sequer podemos dividi-los. Deixe-nos aqui calados. Sentindo. Apreendendo. E não por acaso sempre haverá exposição de arte. Porque nunca faltará inquietação na alma. Ela precisará sangrar, sangrar muito, para que se crie a beleza semelhante à do Louvre.

A vida (sim, ela mesma) necessita – de algum modo sombrio – nos ensinar. Ela não se apressa, nem muito menos a dor se apressa para acabar. A dor pára. Porque é nesse instante que observamos além do cárcere. Até a mais alegre e comovente das pinturas só nos parece possível por causa de uma alma atormentada. Se não fosse assim, quem perderia seu tempo, se o céu numa torrente chora…

__________
MAIAKOVSKI, Vladimir. Trecho do poema “Adolescente”. In: Vida e poesia. São Paulo: Martin Claret, verão de 2007.

6 Replies to “SE O CÉU NUMA TORRENTE CHORA”

  1. “…para que se crie beleza semelhante à do Louvre”.
    Enfim! Um poeta modernista (afinal, Maiakóvski é dessa época, da geração dos outros modernos que acreditavam q ser ‘moderno’ era esnobar o passado, argh) que reconhece que não se cria Arte a partir do nada – que criamos com referenciais, aqui, no caso, o Louvre.

    😛 Não é possível criar arte a partir do nada. A propósito, pode o nada gerar alguma coisa? O “nada” não cria coisa alguma. ahahaha Até porque… o que é o nada? Ele existe? 😛 Adorei sua visita. E ainda mais por ter comentado. beijos, Aline

  2. Eis aí uma parte importante a ser ressaltada, as mais belas obras de arte, em sua grande maioria (para não dizer em sua totalidade) surgiram de momentos de dor ou loucura.
    E essas obras que nasceram da dor intensa são as mais admiradas, porque as pessoas identificam-se com a dor – pois já a sentiram ou sentem. A dor é algo que nos iguala a todos como mortais, pois mesmo de forma e de perspectivas diferentes todos sentimos dor.
    E nós, infeliz ou felizmente, dificilmente aprendemos (e apreendemos) algo com a dor alheia. Precisamos sentir a nossa dor para termos a oportunidade de percerber que há vida após ela.

    Beijos!

    Sim, Rebeca, tb creio que as mais belas obras de arte, em sua grande maioria (para não dizer em sua totalidade) surgiram de momentos de dor ou loucura. Aliás, essa observação tb foi feita por meu amigo Edison, num tempo desses aí… Eis a beleza da arte! beijos e obrigada por estar sempre aqui. Aline

  3. Pois é, Aline; é que alguns artistas parecem achar que eles brotaram do chão… rsrs… quando protestam contra o passado, soam (às vezes)tão irados como se alguém pudesse criar sem nenhuma raiz.

    É verdade, Claire. “Parecem”… beijos, Aline

  4. Parece que a vida não gosta de antecipar respostas. Nós seres humanos é que gostamos tanto delas que tentamos de vários modos antecipá-las. Somos seres históricos, precisamos olhar para trás pra poder seguir em frente com alguma segurança, e precisamos tanto disso que às vezes inventamos as nossas necessárias histórias. Gostei daqui, Aline. Grande abraço!

    Olá, Cristina! Seja bem-vinda e obrigada pela visita! Sim, às vezes, inventamos as nossas necessárias histórias. E é nesse “inventar” que podemos sair doídos, arrasados… Bom, a vida é assim, né? bjs, Aline

  5. michel de oliveira says: Responder

    O que seria do homem sem a dor? Se com ela matamos nossos semelhantes, fingimos, dissimulamos, imagine se fôssemos imunes a ela? Seria um horror. Mas há pessoas que fazem brotar lírios em meio ao deserto, não do nada, mas de um esforço quase que sobrehumano de gerar o belo, e transformam sua dor em arte, que eh a forma mais bela de revolta, talvez eu acredite no que Adorno dizia, que só a arte seria capaz de revolucionar de verdade. Bjos fique na paz e na graça, afinal Deus é bem mais belo que tudo, abraços.

    Olha quem está por aqui novamente!!!! Tem razão, Michel, a dor – quando enxergada sob essa perspectiva – é graciosa. Ela pode nos moldar, extrair de nós muita beleza. E beleza no sentido mais diverso possível. Pela graça de Deus, tenho conseguido superar certas dores e apreender a beleza de cada uma delas! beijão, Aline

  6. Estou começando a gostar de Maiakóvski. Excelente visão da dor e da vida.

    Maiakovski tem me inspirado bastante… Não por acaso escrevi esse texto. beijos, Aline

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.