Quando o amor não estiver sendo servido (por Aline Menezes)

Nos relacionamentos heterossexuais, nós, mulheres, enfrentamos inúmeros desafios decorrentes das desigualdades de gênero que estruturam as relações sociais, sobretudo quando temos a consciência feminista, que nos faz ter a certeza do lugar que desejamos ocupar no mundo e de como devemos ser tratadas pelos nossos parceiros sexuais e/ou românticos. Uma vez que adotamos, na vida, uma postura feminista, não admitimos mais sermos intimidadas ou desrespeitadas. Entre sutilezas e evidências nas atitudes, nas expressões verbais e nos comportamentos machistas, observamos a dificuldade de os homens – historicamente educados para enxergarem a mulher como inferior a eles, objetificando-a, e, portanto, eternamente à sua disposição – compreenderem o quão violento é o sistema patriarcal, que os favorece e os mantém como se eles fossem naturalmente detentores de direitos irrestritos. Ainda existem gerações de homens completamente ignorantes acerca desse debate. Daí porque considero excelente o aforismo do meu amigo, poeta, escritor, professor e doutor em Estudos Literários pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Marcos Fabrício Lopes da Silva, segundo o qual ele diz: “Macho não é gente. Movido a pênis, demente”, que resume bem, dentre outras questões, o falocentrismo e o comportamento patético de boa parte dos homens que “atuam” como predadores sexuais.

Na atualidade, existem diversas possibilidades de relacionamentos afetivos, muitos dos quais baseados na incerteza de como devem ser chamados, já que se evita assumir compromissos, na ilusão de que ser livre é poder se conectar com o outro sem o mínimo de responsabilidade e cuidado. Não por acaso, nós ficamos emocionalmente machucadas quando nos submetemos a relacionamentos cuja dinâmica é de assimetria, isto é, quando a mulher apresenta-se de modo mais amável, afetuoso, tolerante, carinhoso, atencioso e se entrega verdadeiramente ao seu par romântico, pois, na condição de pessoa desejante desse laço humano, ela acredita que, a qualquer momento, será amada na mesma medida. No entanto, do lado oposto, temos o homem que age com frieza, oferece pouco ou quase nada de afeto, não expressa o que realmente sente, exceto ao admitir que não quer um relacionamento sério, mas não abre mão de receber os benefícios ofertados, seja por vaidade, por conveniência, por egoísmo ou por algum tipo de carência. Lembro-me agora do livro Teoria Feminista e as Filosofias do Homem (Editora Rosa dos Tempos, 1999), de Andrea Nye, quando ela menciona na parte introdutória da obra “uma ética sexual que estabelece padrões diferentes para homens e mulheres” (p. 14). O contexto específico do trecho a seguir é outro, mas me ajuda a refletir agora:

Filosofia é um luxo para intelectuais em torres de marfim. Em outras oportunidades, porém — quando seus esforços e os de outras mulheres falharem, quando se sentir rejeitada em relacionamentos destrutivos, quando o tribunal recusar isonomia salarial, quando sua amante for despedida do emprego de professora por se confessar lésbica, quando forem retiradas as verbas da delegacia especial de proteção à mulher —, ela vai à biblioteca consultar os livros de novo. Ela precisa entender, dirá para si mesma, como enfrentar uma burocracia governamental que desdenha as necessidades humanas, um sistema educacional que nega conhecimento, uma constituição que permite discriminação, uma ética sexual que estabelece padrões diferentes para homens e mulheres.

Quando somos tolerantes demais, corremos o risco de atrair pessoas que vão tirar proveito disso. Não necessariamente, o comportamento aproveitador seja de um homem mau-caráter ou de má índole. Às vezes, pessoas boas também fazem coisas ruins. É importante termos mais consciência de integridade para dispensar as vantagens que são concedidas às custas do amor solitário, do sofrimento alheio, do sofrimento de quem ama e não é correspondido ou de quem ama e não é correspondido do jeito que merece. Possivelmente, alguém poderá me interpelar, dizendo que as relações humanas, sobretudo as amorosas, não podem ser mensuradas por meio de fita métrica, daí porque o uso do termo “assimetria” parecer inadequado, já que não seria possível determinarmos o percentual de afeto de cada pessoa. Isso é verdade. Mas a assimetria aqui refere-se tão somente aos desequilíbrios, aos descompassos e ao fato de que, em uma relação entre duas pessoas, por exemplo, se não houver liberdade para sermos quem somos, honestidade nos sentimentos compartilhados e reciprocidade nos gestos e afetos, a assimetria impera. E fere.

Nos relacionamentos heterossexuais, especialmente aqueles sem definição, em que não sabemos se podemos chamá-los de namoro, amizade, curtição, enrolação ou seja lá o que for, é bastante comum o homem querer impor, de modo velado ou explícito, as regras desse envolvimento. Os machos mais ressentidos vão apontar que existem mulheres ardilosas, vão querer me ensinar que nem sempre os homens são os vilões dos relacionamentos amorosos. E isso é verdadeiro! Mas vou insistir em afirmar que, na dinâmica das relações heterossexuais, fundadas no patriarcado e, consequentemente, no machismo, os homens utilizam muitas artimanhas perigosas. Uma delas é fazer a mulher sentir-se culpada por um comportamento que eles mesmos provocam, é chamar de histérica ou nervosa a mulher que se rebela, é tachá-la de chorona porque a mulher, ferida, manifesta sua dor.

Se, diferentemente do que desejamos no momento, o outro dá sinais de que não pretende amadurecer a relação conosco, então devemos avaliar o porquê de nos mantermos nisso. Dentre tantas infelicidades, o que pode acontecer quando insistimos em relacionamentos desequilibrados, portanto, assimétricos, é a sensação de insuficiência, que, aos poucos, vai drenando nossa autoconfiança, nossa autoestima, nosso apreço por nós mesmas, como se nós, a parte em privação, não fôssemos interessantes o bastante. Se nos doamos demais para o outro, ele não precisará esforçar-se para conquistar absolutamente nada. Não estou sugerindo que devemos evitar nossas manifestações de afeto, ou que não devamos demonstrar os nossos desejos e quereres, tampouco faço parte do grupo de quem se empenha em tratar os relacionamentos como se eles fossem jogos de tabuleiro, cujo movimento de cada peça precisa ser pensado com o fim maior de vencer o adversário. Os encontros amorosos não podem ser assimilados como disputas; eles são, sobretudo, conexões humanas. Mas, certamente, ser a única parte que oferta é um erro.

O que pode acontecer quando insistimos em alguém que não nos quer é, também, uma ferida emocional, que vai se abrindo, à medida que teimamos. Por exemplo, por que algumas de nós, mulheres, aceitamos ir para a cama com um homem, repetir esse ritual por várias semanas ou meses, mesmo não recebendo dele nenhum tipo de carícia, de toque ou de gozo? Uma das respostas possíveis para esse tipo de concessão morbidamente altruísta é a crença ou a esperança de que, um dia, esse homem acordará e saberá o quanto a mulher ao seu lado é incrível e, então, mudará seu comportamento frio e egoísta. Nesse caso, a esperança gerada por esse tipo de idealismo romântico do século XIX é demasiadamente arriscada e maléfica. Até porque, por mais incríveis que sejamos, as pessoas (homens e mulheres) alimentam fantasias distintas e mantêm interesses sociais, econômicos, pessoais e sexuais motivados, por exemplo, por preconceitos, discriminações ou superficialidades. Não por acaso, Albert Einstein (1879-1955) escreveu que “é mais fácil desintegrar um átomo do que um preconceito”.

No Google ou no YouTube, encontramos muita gente nos dizendo que devemos “deixar ir quem não nos quer”. Contudo, o que não paramos para pensar é o quanto há de doloroso nessa cena imaginária do “deixar ir”, especialmente quando quem vai é a pessoa a quem devotamos nosso amor e, por isso mesmo, vai com ela tudo aquilo que doamos. É o nosso apego ao carinho que foi dado, à parceria que nos dispusemos a oferecer, à tolerância que tivemos, à lealdade que nos empenhamos em demonstrar. Evidentemente, devemos mesmo “deixar ir quem não quer ficar”. Mas, antes, precisamos ter coragem para admitir que a esperança pode falhar. Não por acaso, na canção “You’ve Got To Learn”, Nina Simone (1933-2003) ajuda-nos a refletir: You’ve got to learn to leave the table when love’s no longer being served. Ou, em nossa língua: Você tem que aprender a sair da mesa quando o amor não está mais sendo servido. Penso, portanto, que talvez o melhor a ser feito não é deixarmos ir quem não nos quer, mas nos levantarmos e irmos nós mesmas embora. Até porque não podemos deixar ir quem já não está, mas podemos nos recusar a permanecermos sentadas à mesa. Ou deitadas na cama. Nesse sentido, lembro-me de mais um aforismo do meu amigo Marcos Fabrício: “A intimidade só existe onde não há intimidação”.

Pintura: “Batalla de cosquillas”, 2021, óleo sobre lino.
(Larry Madrigal, pintor mexicano-estadunidense) | @larrymadrigal

One Reply to “Quando o amor não estiver sendo servido (por Aline Menezes)”

  1. NATAN VALADARES DE ANDRADE says: Responder

    Belíssimo texto, Aline! Tema necessário, que na verdade, sempre deveria ser de motivo de reflexão.

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