poetic

Querer-se livre é também querer livres os outros. (Simone de Beauvoir)

Poéticas contemporâneas
por Aline Menezes

O poeta baiano Damário da Cruz (1953-2010) escreveu certa vez que “a vida dura menos que um poema”. Em “Gran finale”, ele se despede do mundo com a certeza de que aquele seria o seu último verso e transforma a ameaça da sua própria morte em poesia, expondo por meio da linguagem o modo com o qual ele saiu de cena.

Recorro a essa referência poética porque a sua lembrança me faz pensar naquilo que ainda pode nos tocar e preservar a nossa sensibilidade, especialmente em uma época na qual queremos nos entorpecer a todo instante.

Se considerarmos a relativa brevidade do século XXI, talvez o nosso grande desafio seja realmente “a busca de sensibilidade, de novas formas de agir de maneira adequada aos seres humanos”. E é o que pensam Zygmunt Bauman e Leonidas Donskis, autores do livro Cegueira Moral (2014).

Já na seção introdutória da obra, há o debate acerca de nossas ambivalências e sobre o quanto somos diariamente ameaçados por um tipo de experiência que parece não mais fazer sentido, como se a nossa única saída fosse forçar o nosso “alheamento às durezas da vida”, termos que localizamos em O mal-estar da civilização (1930), de Freud.

Seja por meio do poema, da música, de um grupo circense, de uma coleção de Alexander McQueen, de uma escultura de Ron Mueck, de uma performance de Marina Abramovic, de uma coreografia de Pina Bausch ou de um filme dirigido por Béla Tarr, como “O cavalo de Turim” (Hungria, 2011)…

… o que me parece importante é gerarmos no outro e em nós mesmos a capacidade de refletirmos acerca do nosso tempo, das nossas contradições e agonias, inclusive por meio de metáforas como a das lamparinas que se apagam e não se acendem mais ou da paralisia de um animal que se recusa a comer.

Sim, estamos todos em perigo e este é o estado do mundo. Penso que o maior benefício da experiência de refletirmos sobre as coisas é o de reforçar em nós a habilidade para não cedermos ao que há de mais torpe e vil nas sociedades, talvez para não enlouquecermos diante da brutalidade, da violência e da estupidez humanas.

Talvez para que não nos tornemos tão cínicos ou tão anestesiados, a ponto de não sermos mais capazes de perceber a beleza das músicas que ouvimos, dos ensaios, romances, poemas e livros que lemos, dos filmes ou trechos de vídeos aos quais assistimos, das apresentações de dança que vimos…

Ou, ainda, a necessidade de repensarmos o que produzimos como teoria ou como manifestação artística, além daquilo que todos nós, inevitavelmente, sentimos.

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Aline Menezes é jornalista, professora e doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Literatura da Universidade de Brasília (UnB). Este texto é uma versão resumida e adaptada de ensaio produzido para a disciplina “Poéticas contemporâneas”, cursada em 2015.

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