Particularidades (por Gilka Machado)

|| A poeta brasileira e ativista política Gilka Machado (1893-1980) nasceu no Rio de Janeiro. “As mulheres que gozam hoje de plena liberdade literária para cantar as expansões do instinto e as propriedades eróticas do corpo deviam ser gratas a essa antecessora, viúva pobre que ganhava a vida com esforço e gostava de estar ‘toda nua, completamente exposta à volúpia do vento’”, escrevera Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), em sua coluna dedicada à poeta, no Jornal do Brasil, em 18 de dezembro de 1980, poucos dias após a morte de Gilka. Quem nos lembra dessa homenagem do escritor itabirano à autora de “Mulher nua” (1922), entre outras obras, é a jornalista Mariana Filgueiras, nesta edição eletrônica d’O Globo, por ocasião do lançamento do livro “Gilka Machado: poesia completa” (Demônio Negro, 2017), organizado pela jovem Jamyle Hassan Rkain e com prefácio de Maria Lúcia Dal Farra, professora aposentada da Universidade Federal de Sergipe (UFS). Assim, para o terceiro poema da série de “Poesia erótica” deste site, apresento a você “Particularidades”, da poeta premiada e ativista pelo voto feminino:

Particularidades

Muitas vezes, a sós, eu me analiso e estudo,
os meus gostos crimino e busco, em vão torcê-los;
é incrível a paixão que me absorve por tudo
quanto é sedoso, suave ao tato: a coma… Os pelos…

Amo as noites de luar porque são de veludo,
delicio-me quando, acaso, sinto, pelos
meus frágeis membros, sobre o meu corpo desnudo
em carícias sutis, rolarem-me os cabelos.

Pela fria estação, que aos mais seres eriça,
andam-me pelo corpo espasmos repetidos,
às luvas de camurça, às boas, à pelica…

O meu tato se estende a todos os sentidos;
sou toda languidez, sonolência, preguiça,
se me quedo a fitar tapetes estendidos.

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Fonte: Escritas.org


Foto: @laura.alonso.abril

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