fundamentalism

Fundamentalismos e liberdades
Por Alexandre Pilati*

Como é possível alguém alegrar-se com o mundo,

a não ser quando se refugia nele?

Franz KafkaAforismos.

O dia 07 de janeiro de 2015 será lembrado pelo terror que mais uma vez golpeou duramente a humanidade. A cidade de Paris confrontou-se nesta data com a violência paroxística de um ataque que deixou 12 pessoas mortas e mais uma dezena de feridos, alvejados na sede do semanário francês Charlie Hebdo. O atentado foi o pior ocorrido na cidade desde 1961, quando ativistas de extrema direita, contrários à independência da Argélia, explodiram uma bomba na linha de trem entre Estrasburgo e Paris, matando 28 pessoas. No ataque ao Charlie Hebdo, homens encapuzados e armados com devastadores fuzis Kalashnikov, supostamente agindo em honra da Guerra Santa Islâmica, mataram alguns dos mais reconhecidos cartunistas e jornalistas da França, entre eles o editor da revista Stéphane Charbonnier (o Charb), Jean Cabut, Georges Wolinski, Bernard Maris, Bernard Verlhac (o Tignous).

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women

Não pode ser seu amigo quem exige o seu silêncio. (Alice Walker, escritora e ativista feminista)

O que se esconde por trás da expressão “mulher de respeito”?!
Por Aline Menezes

O título escolhido para abrir esta publicação exigiria a produção de artigo, ensaio, capítulo de livro ou livro, mas nunca texto relativamente curto e superficial como este que me proponho a escrever. No entanto, como faço parte do grupo de mulheres e homens que lutam pelo fim de toda e qualquer forma de violência contra a mulher, senti-me impelida a levantar aqui breves reflexões sobre o assunto, postura que já tenho adotado efetivamente há, pelo menos, dez anos.

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beauty

O alferes eliminou o homem. (Machado de Assis, “O espelho”)

Da beleza que nos ameaça todos os dias
Por Aline Menezes

Recuso o imperativo de que preciso ser bela. Rejeito qualquer tentativa de compra da ilusão de que meu corpo necessita de aprovação alheia para manter-se em paz com o cosmos. Abro mão das unhas pintadas diariamente porque isso me custa dinheiro, tempo e disciplina que não possuo, que não me pertence e que ainda não me interessei em conquistar, e tenho a desculpa de que unhas também precisam de respiração. Mas me mantenho regular em muitos outros cuidados. Entendo que a aparência física nos importa e que há outras questões no meio do caminho. Penso em tudo isso porque tenho o péssimo hábito de levar em consideração os detalhes, de querer combater solitariamente a brutalidade com que tudo em nossa volta é conduzido.

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Dilma Rousseff

CARTA ABERTA À PRESIDENTA DA REPÚBLICA REELEITA NO BRASIL

Querida Dilma Rousseff:

Se não se importa, evitarei aqui certas formalidades e o uso do pronome de tratamento Vossa Excelência. Nesta carta, gostaria de me sentir livre para me dirigir à senhora. Aproveito o dia de hoje para parabenizá-la pelos 54,5 milhões de votos neste segundo turno das eleições de 2014, número que garantiu a sua reeleição.

Tão logo li as manifestações raivosas e preconceituosas de alguns dos contatos do meu perfil no Facebook em relação à sua vitória, confesso que fui tomada por sentimentos pouco cristãos. Por isso, motivada por emoções semelhantes, pensei em dar à senhora alguns conselhos e orientações:

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Eleições 2014

A escola não é de modo algum o mundo, nem deve ser tomada como tal; é antes a instituição que se interpõe entre o mundo e o domínio privado do lar. (Hannah Arendt)

Dilma, Marina e Luciana
(Carta aberta aos meus amigos)

por Aline Menezes

Há alguns anos, Marina Silva e eu participamos de um mesmo seminário: debates sobre a obra de C. S. Lewis, na Igreja Presbiteriana de Brasília, ministrados pela doutora em história e filosofia da educação pela USP, professora Gabriele Greggersen. Numa entrada discreta, silenciosa, Marina Silva sentou-se do meu lado. Cumprimentou com um sorriso aquelas pessoas que logo a reconheceram. Admiro aqueles que lutam por justiça social, admiro pessoas que respeitam o direito à diversidade e que, sobretudo, têm uma história de vida comprometida com as causas do outro. Marina tem o meu respeito e a minha admiração, mas não votei em Marina.

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women

Não se nasce mulher: torna-se. (Simone de Beauvoir)

Madame Bovary não sou eu. E se fosse?!
por Aline Menezes


Grande parte da sociedade ainda pensa que a violência contra a mulher não acontece sem que a mulher tenha feito algo para “merecer”. Ou seja, de um modo ou de outro, determinadas concepções – submetidas à lógica machista – vão sempre buscar justificativas para as ações agressivas, violentas e brutais contra o sexo feminino. Um exemplo disso é a tentativa de culpar as vítimas de estupro pelo tamanho de suas roupas. Ainda é lamentável constatar a ignorância de muitas pessoas em relação ao que seja violência.

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immortality

A ingratidão é filha da soberba. (Miguel de Cervantes)

O vazio dos livros empoeirados
por Aline Menezes

Talvez se tivéssemos a condição da imortalidade, a soberba se instalaria em nós como um objeto que não pudesse mais ser removido. É porque morremos que podemos dar um sentido mais profundo à vida. Tenho pressa com as palavras porque tenho medo e compreendo que existe um tipo de silêncio que é difícil de fazê-lo.

Vago por caminhos solitários e respiro com dificuldade diante de minha impotência. O que aprendo sobre que é bonito e belo não é por meio de ensinamentos prepotentes e arrogantes, tão comuns entre muitos que transitam por corredores de ambientes supostamente racionais.
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injustice

A violência, seja qual for a maneira como ela se manifesta, é sempre uma derrota. (Jean-Paul Sartre)

A injustiça dos justiceiros
por Aline Menezes

Não é preciso ver as imagens do linchamento e morte de Fabiane Maria de Jesus para nos posicionarmos contra a estupidez, a brutalidade e a violência praticadas recentemente por dezenas de moradores do Guarujá, no litoral paulista. Também não é necessário acompanhar pelos vídeos divulgados nas redes sociais o momento em que a dona de casa foi agredida, arrastada, espancada, xingada e acusada injustamente de ter sequestrado crianças para rituais de magia negra. Nem sequer precisamos relembrar o discurso lamentável de quem quer que seja, reproduzido na TV sob o falso e perigoso argumento de que estamos todos cansados de tanta impunidade no Brasil.
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garden

A arte existe porque a vida não basta. (Ferreira Gullar)

Sobre os jardins da cidade urino pus
por Aline Menezes

Não gosto de ambientes que tenham a pretensão de vender felicidade e satisfação. E não gosto disso por duas razões simples: eles são constrangedores e todos são descaradamente iguais. 

Em lugares como esses, por exemplo, se pensarmos nos shoppings centers (há vários outros tipos de ambientes cuja pretensão é a mesma), ao olharmos pelas vitrines das lojas e avistarmos uma peça feminina no valor de R$ 850, de design e tecido simples, que poderia ter sido costurada pela minha avó (não estou com isso dizendo que as costuras da minha avó não mereceriam ser mais valorizadas ou que não poderiam ser sofisticadas), percebo o funcionamento das coisas e, quase involuntariamente, sinto-me fracassada diante dos ideais nos quais acredito e pelos quais luto. 
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gravedigger

A solidão também quer dizer isto: ou a morte, ou o livro. Descobrir que só a escrita pode nos salvar. (Marguerite Duras)

O coveiro, a solidão e o silêncio
por Aline Menezes

Há coisas que só fazem sentido no depois, porque no agora somos absorvidos de tal forma pela vida que nos tornamos incapazes de perceber o movimento da existência entre nós. A vida que segue parece nos conduzir para o nada, um nada tão cheio de dúvidas e inquietações… Um nada que existe, que se aproxima da esperança ou da experiência dos cadáveres. 

Estou sob o efeito da vida. Perambulo na agonia de um fardo, um fardo que carrego conscientemente. Arrasto-me até o horário em que não consigo mais enxergar uma saída… Encontro-me, também, completamente anestesiada, às vezes, talvez embriagada e entorpecida por um peso que já não suporto mais levar adiante. São muitas lembranças e muitas memórias acolhidas numa só vida, numa só alma solitária. Num corpo que teima.
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