O ÚLTIMO TANGO EM PARIS

QUANDO TORNAR a vir a primavera
Talvez já não me encontre no mundo.
Gostava agora de poder julgar que a primavera é gente
Para poder supor que ela choraria,
Vendo que perdera o seu único amigo.
Mas a primavera nem sequer é uma coisa:
É uma maneira de dizer.
Nem mesmo as flores tornam, ou as folhas verdes.
Há outros dias suaves.
Nada torna, nada se repete, porque tudo é real.
(Alberto Caeiro)

Após pequenos dois meses de silêncio virto-literário, retorno com ares de quem não viu o tempo passar. De quem, sequer, percebeu o horário de verão vir e ir. Um momento de transe. A propósito, há um grilo fazendo “cricri”. Ele me irrita, pois nunca decorei com precisão as onomatopéias. Pois bem: o transe é loucura. E talvez o grilo esteja louco!

Sim, a primavera é uma maneira de dizer. E nada de consultar dicionários para utilizar palavras sofisticadas! Ser sofisticado é breguice. E das braba! Sejamos clínicos. E amadores. Sejamos especialistas. E duvidemos. Quem sabe assim a vida se torna muito mais que tudo: há outros dias mais suaves.

Porque eu estive grilo.

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PESSOA, Fernando. Poesia completa de Alberto Caeiro / Fernando Pessoa. Edição Fernando Cabral Martins e Richard Zenith. São Paulo: Companhia de Bolso, 2006, p. 93.

8 Replies to “O ÚLTIMO TANGO EM PARIS”

  1. “Nada torna, nada se repete, porque tudo é real.
    E talvez o grilo esteja louco!
    E duvidemos.
    Há dias mais suaves
    Porque eu estive grilo.”

    Duvide que a vida se resume nisso. Ela é mais do que a nossa contínua corrida para o ignorado. Ela vive e corre dentro de nós, nos nossos sonhos. Continue e esteja sempre em grilo. Ele canta e conta como ninguém.
    Bjs.

    Na verdade, a vida não se resume, né? A sugestão é para que eu continue e esteja sempre em grilo… 😛 Tá certo. Obrigada sempre pelas palavras. beijo, Aline

  2. Bem-vinda de volta. Abraço carinhoso, mocinha!

    Mocinha? hum… estou rejuvenescendo mesmo 😛 beijos, Aline

  3. Welcome back!

    Thanks! bjs, Aline

  4. Lá fora…
    Milhões de grilos
    cricrilam
    e explodem o tempo
    numa sintonia impossível.

    saudade de vc.

    Sim, explodem numa sintonia impossível, lá fora! Espero que apareça mais vezes! um abraço carinhoso, Aline

  5. Os dois meses de silêncio não foram tão somente “virto-literário”, mas também “sócio-familiar”. Não perguntarei o motivo, pois não é de mim bisbilhotar “os porquês” das angústias e/ou retiro espiritual alheios. Se assim você agiu, certamente teve os seus motivos, mas o que mais importa é que você está de volta trazendo inspiração à PRIMAVERA.
    Beijos.

    Tio Joésio, deixa de drama!!!! 😛 Estou onde sempre estive: trabalho, estudo e casa. beijos, Aline

  6. O bom filho à casa torna… e cheia de inspiração… bem-vinda!!!

    Amiga, por onde anda??? Mande notícias por e-mail. beijos, Aline

  7. Deixemos chegar a primavera, e…”wake me up when september ends…”bjos

    Oh, yes!

  8. Olá minha querida!
    Fico feliz em te ver de volta!
    Adoro Fernando Pessoa. Ele tinha uma maneira muito eficaz de dizer as coisas que sentia. Texto perfeito para volta. 🙂
    Beijos,

    Oi, Rebeca… Espero voltar também à freqüência! Obrigada pelo carinho. beijos, Aline

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