O segundo sexo (por Simone de Beauvoir)

[Aline Menezes] || Nesta quinta-feira (9/1), para lembrar o nascimento da escritora, filósofa existencialista e feminista francesa Simone de Beauvoir (1908-1986), apresento alguns fragmentos de um dos marcos teóricos do feminismo no século XX: o livro O segundo sexo, publicado originalmente em 1949 e dividido em dois volumes (Fatos e mitos | A experiência vivida) na edição brasileira. A obra é consagrada como uma das mais fundamentais para o(s) movimento(s) feminista(s) na França e no mundo. Em novembro do ano passado, retomei a sua leitura, paralelamente ao curso que fiz na plataforma online da Universidad de Chile, chamado Introducción a las Teorías Feministas  II. Na ocasião, pude revisitar algumas autoras e estudar sobre os feminismos na América Latina. Por agora, seguem os trechos que selecionei:

Fatos e mitos 

“Na realidade concreta, as mulheres manifestam-se sob aspectos diversos; mas cada um dos mitos edificados a propósito da mulher pretende resumi-la inteiramente. Cada qual se afirmando único, a consequência é existir uma pluralidade de mitos incompatíveis e os homens permanecerem atônitos perante as estranhas incoerências da ideia de Feminilidade; como toda mulher participa de uma pluralidade desses arquétipos que, todos, pretendem encerrar sua única Verdade, os homens reencontram, assim, ante suas companheiras o velho espanto dos sofistas que mal compreendiam que o homem pudesse ser louro e moreno a um tempo. A passagem para o absoluto já se exprime nas representações sociais. As relações aí se fixam facilmente em classes, as funções em tipos, assim como na mentalidade infantil as relações fixam-se em coisas.” (p. 300)

“A necessidade biológica — desejo sexual e desejo de posteridade — que coloca o macho sob a dependência da fêmea não libertou socialmente a mulher. O senhor e o escravo estão unidos por uma necessidade econômica recíproca que não liberta o escravo. É que, na relação do senhor com o escravo, o primeiro não põe a necessidade que tem do outro; ele detém o poder de satisfazer essa necessidade e não a mediatiza; ao contrário, o escravo, na dependência, esperança ou medo, interioriza a necessidade que tem do senhor; a urgência  da necessidade, ainda que igual em ambos, sempre favorece o opressor contra o oprimido: é o que explica que a libertação da classe proletária, por exemplo, tenha sido tão lenta. Ora, a mulher sempre foi, senão a escrava do homem ao menos sua vassala; os dois sexos nunca partilharam o mundo em igualdade de condições; e ainda hoje, embora sua condição esteja evoluindo, a mulher arca com um pesado handicap. Em quase nenhum país, seu estatuto legal é idêntico ao do homem e muitas vezes este último a prejudica consideravelmente. Mesmo quando os direitos lhe são abstratamente reconhecidos, um longo hábito impede que encontrem nos costumes sua expressão concreta. Economicamente, homens e mulheres constituem como que duas castas; em igualdade de condições, os primeiros têm situações mais vantajosas, salários mais altos, maiores possibilidades de êxito que suas concorrentes recém-chegadas.” (p. 14)

A experiência vivida

“Há uma má-fé extravagante na conciliação do desprezo que se dedica às mulheres com o respeito com que são cercadas as mães. É um paradoxo criminoso recusar à mulher toda atividade pública, vedar-lhe as carreiras masculinas, proclamar sua incapacidade em todos os terrenos e confiar-lhe a empresa mais delicada, mais grave que existe: a formação de um ser humano. Há muitas mulheres a quem os costumes, a tradição recusam ainda a educação, a cultura, as responsabilidades, as atividades que são privilégio dos homens e a quem, no entanto, entregam sem escrúpulos os filhos, como outrora as consolavam com bonecas de sua inferioridade em relação aos meninos; impedem-nas de viver; em compensação, autorizam-nas a brincar com brinquedos de carne e osso. Seria preciso que a mulher fosse perfeitamente feliz, ou uma santa, para resistir à tentação de abusar de seus direitos.” (p. 291)

Referências
BEAUVOIR, Simone. O segundo sexo: fatos e mitos. Trad. Sérgio Milliet. 4ª ed. São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1970. Disponível em: <https://bit.ly/2QZC14I>. Acesso em: 13 mai. 2017.
BEAUVOIR, Simone. O segundo Sexo: a experiência vivida. Trad. Sérgio Millet. 2ª ed. São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1967. Disponível em: <https://bit.ly/2s5WlbY>. Acesso em: 13 mai. 2017.

Foto: Reprodução

2 Replies to “O segundo sexo (por Simone de Beauvoir)”

  1. Que coincidência, eu comprei o livro ontem, agora só falta juntar coragem e tempo de ler

    1. Pois é. Eu me lembro de que também achei coincidência quando soube que você havia comprado o livro. rs

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