O boneco de madeira e a expansão da consciência (por Alexandre Rivetti)

A história de Pinóquio foi escrita em 1881 pelo escritor italiano Carlo Collodi (1826-1890), cujo pseudônimo é Carlo Lorenzini. Publicado como ficção infanto-juvenil, o romance tornou-se um clássico e um dos pilares da literatura italiana. Conheci a narrativa d’As Aventuras de Pinóquio por meio da produção dos estúdios de Walt Disney, datada de 1940, assim como muitos de nós, brasileiros.

Pela versão estadunidense, um dos meninos que erram muito nos seus julgamentos, assim como Pinóquio, chama-se Alexandre; este, por sua vez, torna-se um
burrinho em função da malcriação e da teimosia (parece-me, neste momento, que estou ouvindo minha irmã rindo); de outro modo, Pinóquio, por redimir-se, torna-se um menino de verdade, não mais um boneco de madeira.

Gepeto era um talhador idoso, solitário e que, pela sua história de vida, transforma-se numa pessoa de caráter e, portanto, digna de graça divina. Enquanto desejava ter um menino de verdade, talhou um boneco marionete para fazer-lhe companhia, batizando-o de Pinóquio. Tendo finalizado o trabalho, uma Fada Madrinha surge na casa de Gepeto e concede vida e consciência ao boneco, que, com a graça essencial, passou imediatamente a falar e a mexer-se sozinho.

A Fada concedeu a Pinóquio a responsabilidade pelo alcance da vida humana – tanto desejada pelo seu construtor –, sob a condição de que o boneco soubesse julgar entre o certo e o errado, o que, como sabemos, somente é possível fazer por meio da consciência. Nesse momento, aparece um inseto falante, questionando o ato da Fada: “Como pode um boneco de madeira ter consciência?”, indaga o grilo. Surpresa pela inteligência do grilo, a Fada então o nomeia como “a consciência de Pinóquio”, dando-lhe o nome de Grilo Falante, com a finalidade de passar o saber, quando preciso, para os julgamentos necessários.

Dada a imaturidade comum à idade, Pinóquio passou a mentir, no dia a dia, sobre as situações e as coisas que ia experimentando pelo caminho, mas apenas como
um meio de defesa, atitude tão comum às crianças, até que certa feita rompeu com os laços dos seus pensamentos errados e, com a expansão da sua consciência, agiu acertadamente por conta própria, tornando-se, a partir daí, um menino de verdade.

Sobre As Aventuras de Pinóquio, publicadas dois anos após terem sido escritas originalmente, penso que o interessante para nós, adultos, não seja apenas a ideia de que a mentira tem pernas curtas, mas sabermos, antes de tudo, quem somos a partir da construção da nossa consciência, fazendo uso das percepções de mundo apreendidas por nós mesmos à medida que vivemos. É assim que observamos e analisamos o mundo e os fatos da vida, fatores esses pelos quais resultam na formação do nosso caráter e conduzem as nossas escolhas. Não por acaso, a expansão da consciência deu vida e, consequentemente, liberdade a Pinóquio.

Para o parisiense Jean-Paul Sartre (1905-1980), romancista e filósofo, o ser é nada, pois, segundo seus pensamentos, não existe uma consciência pronta e acabada. A consciência é intencional, ou seja, uma atividade de perceber as coisas e a si mesmo.
Para Sartre, “o homem precede a essência”. Assim, percebe-se, na história, que a consciência de Pinóquio o libertou, dando-lhe vida humana, graças à qual só foi
possível por causa da relação de Pinóquio com o mundo.

Desse modo, a expansão da consciência pode não vir do espírito divino ou do chá de ayahuasca, por exemplo, mas, certamente, é possível que venha da relação do ser humano com a natureza, da liberdade conquistada, da criação e da execução dos nossos projetos de vida, com nossos pensamentos ativos, do nosso conhecimento sobre as relações humanas, as artes, as ciências, a política, enfim, da nossa vivência com as pessoas, não de madeiras, mas reais.

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* Alexandre Nelson Rivetti Cesar é brasiliense, advogado formado pelo UniCEUB, com quase três décadas de experiência e especialização em Direito Penal.

|| Esta resenha literária foi publicada originalmente na p. 7 da edição nº 40, Ano XI, do Jornal Rima – DF, da Academia Planaltinense de Letras, Artes e Ciências (Aplac), referente ao trimestre out., nov. e dez. 2021.

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