Naked

[…] Em mim, também, foram destruídas muitas coisas que julgava iriam durar para sempre, e novas coisas se edificaram, dando nascimento a penas e alegrias, que eu não poderia prever então, da mesma forma que as antigas se me tornaram difíceis de compreender. (Marcel Proust em Em busca do tempo perdido – No caminho de Swann, p. 41)

Reconhecer na dor o privilégio da vida é o que há de grandioso por aqui. Recolher os cacos, jogar fora o lixo, selecionar os benefícios da angústia e dar mais um passo… é assim que se prossegue. 

Despir-se internamente é para os corajosos. Bem poucas coisas valem a pena nesta vida; uma delas é desavergonhar-se, isso é para as almas desprendidas. Já amei algumas vezes e me entreguei por inteira, ainda que essa inteireza nem sempre tenha sido física (isso pouco importa, às vezes). Porque, para mim, só assim é possível sentir o invisível nos tocando por completo.
Também já sofri algumas vezes, já fui repartida, já me senti despedaçada, destruída… Mas me juntei de novo, sempre mais forte, mais lúcida, mais íntegra. Assim, sempre olho para trás, não para lamentar o que vivi, mas para contemplar o quanto foi bom ter continuado. Desapegar-se não é apenas um verbo na forma pronominal. Desapegar-se é também trocar de pele. É agigantar-se frente às dores. 

Concordo quando dizem que, às vezes, necessitamos de máscaras, caso contrário, não daríamos conta da vida, pois seríamos engolidos e devorados pelo mundo. Mas não me permito, nem quero, que minhas máscaras se tornem tão minhas, tão grudadas na pele, absorvidas por ela, a ponto de me confundirem sobre quem sou. Entendo que é impossível sermos verdadeiros o tempo todo. É absolutamente impossível, porém, gosto da nudez. Da nudez de alma. Gosto de gente que se despe, que lança fora tudo que o enfeita, que o cobre, que o torna outro.

Gosto de gente que faz isso pelo menos de vez em quando. Porque se o fizer o tempo todo, eu suspeitarei de que a nudez também seja encenação.

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PROUST, Marcel.  Em busca do tempo perdido – No caminho de Swann. Tradução de Mario Quintana. 11ª edição. Rio de Janeiro: Editora Globo, 1987.

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