maybe

[…] I guess I might have done something wrong, honey, I’d be glad to admit it... (Maybe by Janis Joplin)

Esta não é uma fase underground. Mas concordo que – se estivesse deprimida – certamente teria cortado os pulsos logo após consumir uma overdose de 30 faixas de Janis Joplin. Músicas doloridas e angustiadas, letras de desespero e de certo tipo de esperança. Lindas… gosto disso. Porque não gosto de nada que me deixe anestesiada, sem a capacidade de sentir as coisas e percebê-las. Deve ser por isso minha aversão a bebidas alcóolicas, à estupidez, à alienação.

As plantas me emocionam tanto quanto as pessoas, mas estas são seres estúpidos e hipócritas. Apenas temos a sorte de, às vezes, conhecer pessoas melhores, que até se destacam entre os mortais. Conheço alguns desses, são poucos, é verdade… mas existem. Ah, se algumas pessoas soubessem o quanto eu sei sobre elas; o quanto sei que elas não valem a pena; o quanto sei que elas são medíocres…

Mas, enfim, é assim que vivo: com pessoas, não apenas com plantas. E talvez eu precise mesmo me adaptar, de um modo ou de outro. Talvez eu precise mesmo aceitar de vez que a maioria está pouco se importando com a miséria e as injustiças no mundo, com a sua própria desonestidade política, com os discursos de tapeação, com as mentiras contadas com pompas de verdade, com o ninho de serpentes cercando nossos caminhos. Tenho preguiça de quem tem preguiça de pensar; tenho medo de quem não tem medo algum.

Sim, ainda estamos diante de reacionários e fascistas. Comentários idiotas e burros sobre questões relevantes. A juventude de hoje pensa que tudo se resolve criando uma hashtag. Não podemos confundir a real necessidade de transporte com a necessidade de carros, como bem ensina o filósofo húngaro István Mészáros, ao falar sobre as soluções que a América Latina precisa levar em conta para remediar nossa relação com a natureza.

Quem suporta hoje em dia uma leitura densa? Quem suporta questionar a vida, no sentido mais extenso de todos? O máximo que se consegue é o fingimento de apreço por cultura, esta já com o seu significado atrofiado e varrido. Talvez eu encontre alguém disposto a me ajudar a escrever, de novo, de novo e de novo… talvez.

3 Replies to “maybe”

  1. Considerações importantes num mundo que cada vez se importa menos com o que realmente importa.

    Abraços!

  2. A grandeza de sua alma não merece a pequenez das palavras.

  3. “Quem suporta hoje em dia uma leitura densa? Quem suporta questionar a vida, no sentido mais extenso de todos?”

    “A juventude de hoje pensa que tudo se resolve criando uma hashtag.”

    Esses questionamentos me lembram uma cena na saudosa série Anos Incríveis (que passava na TV Cultura nos anos 90): Pré-adolescentes nos anos 60, Kevin e seu amigo entram numa livraria para comprar um livro sobre sexo, como se fosse o Santo Graal. Mas, como precisam passar despercebidos perante o balconista, compram também outros livros para não parecerem tão desesperados ou “pervertidos”. Os outros livros comprados são: Guerra e Paz, e Ivanhoé. O que percebo é a sutil crítica que o roteiro faz não somente à juventude daquela época, mas de todas as épocas, quanto à fixação por coisas tão bobas em detrimento de conhecer coisas maiores. Nesse caso, o uso de Tolstói simplesmente como uma desculpa para um livro que serve apenas como entretenimento. Essa também é a juventude de hoje.

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