luna

Nada pode durar tanto, não existe nenhuma recordação que, por intensa que seja, não se apague. (Juan Rulfo, Pedro Páramo, p. 107)

Exceto pelo barulho que ouço, esta noite está silenciosa. Lembro-me, apesar das falhas, de quando andava pelas ruas de minha  pequena cidade. As coisas eram maiores naquela época; as casas eram mais distantes. O tempo não parecia tão sufocado, muito menos apressado. Tudo parecia bom. Mas, no fundo, eu sentia as emoções bem de perto.

Talvez desde sempre houvesse esta necessidade de me inquietar: algo sem nome; sem precisão; sem aparência. Vez ou outra, apego-me ao que ainda será. Transito entre aqueles espaços largos da avenida onde quase nasci e a agradável sensação de estar nesta arquitetura do cerrado. Prefiro esta minha incansável inexatidão.

Acho que não mais me importo – adoro a esperança que me toma. Aos poucos, essas e outras memórias se vão, dando lugar a questões e sentimentos mais profundos. E é disso que gosto! Há um tipo de leveza que me atrai: revolvo meus encantamentos. Só eu sei quem sou. E, ainda assim, corro o risco de estar enganada. Tento definir a percepção. E descubro a intensidade do que absorvi em instantes…

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RULFO, Juan. Pedro Páramo. Tradução e prefácio de Eric Nepomuceno. Rio de Janeiro: BestBolso, 2008, p. 107.

3 Replies to “luna”

  1. A esperança chamada saudade do futuro. Beijo.

  2. “Só eu sei quem sou. E ainda assim corro o risco de estar enganada”
    Só vc mesma! Adorei…
    Cheiro.

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