Mídia independente e autônoma

E o mundo, reduzido à sua matéria*
por Aline Menezes

“Somente quando as coisas podem ser vistas por muitas pessoas, numa variedade de aspectos, sem mudar de identidade, de sorte que os que estão à sua volta sabem que veem o mesmo na mais completa diversidade, pode a realidade do mundo manifestar-se de maneira real e fidedigna.” Essa afirmação está no livro “A condição humana” (Forense Universitária, 2007, p. 67), da filósofa política alemã Hannah Arendt (1906-1975). No capítulo em que ela escreve especificamente sobre o significado da vida pública ou da esfera pública e acerca de sua compreensão sobre o que seja comum a todos, a escritora de origem judaica afirma que a importância de sermos vistos e ouvidos por outros está no fato de que todos nós vemos e ouvimos de ângulos diferentes.

Selecionei esse trecho da obra de Arendt como introdução para sugerir a colegas de profissão e aos amigos o acesso ao relatório “Tendências mundiais sobre liberdade de expressão e desenvolvimento da mídia: 2017-2018”, publicado neste ano pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). Disponível atualmente em seis idiomas, o documento discute a liberdade de expressão e desenvolvimento da mídia por meio de quatro áreas consideradas prioritárias para essa edição. São elas: a liberdade de imprensa, o pluralismo, a independência e a segurança dos jornalistas. No relatório online de 202 páginas, afirma-se que 530 jornalistas no mundo foram assassinados entre 2012 e 2016, numa média de duas mortes por semana. A maior parte delas ocorreu em países que enfrentaram conflitos armados, o que representa 56% do total de mortes.

Para a Unesco, em relação ao período abordado no documento, há fatores contextuais específicos que comprometem a liberdade de imprensa em escala global, a exemplo das “mudanças nos contextos tecnológicos e sociopolíticos, desigualdades, conflitos violentos e movimentos importantes das populações”. Do ponto de vista da geopolítica, em muitas partes do mundo, houve a intensificação de uma virada “em direção ao populismo, ao nacionalismo e à identidade com impacto na liberdade de imprensa e na segurança dos jornalistas”. No nosso caso brasileiro, por exemplo, podemos perceber como isso tem se dado com base nos últimos acontecimentos durante a cobertura das Eleições 2018 e a partir do momento em que um político da extrema direita sai vitorioso do pleito presidencial. Jornalistas ameaçados por seus eleitores, assim como profissionais da área impedidos de fazerem a cobertura da primeira coletiva de imprensa do presidente eleito.

Agora, mais do que nunca, será importante nos lembrarmos do papel principal da mídia, o de informar o público. A mídia independente e autônoma, por exemplo, é fundamental como contraponto aos veículos de comunicação que se aliam a políticos e grandes empresários por meio de interesses ilícitos e com objetivos insidiosos. Além disso, ressaltamos esperanças, conforme aponta o relatório da Unesco: “[…] há desenvolvimentos positivos para a independência dos jornalistas para tomar decisões editoriais. Na África, nos Estados Árabes e na região Ásia-Pacífico, os jornalistas relataram aumentos substanciais da autonomia jornalística. Tais mudanças também encorajaram saídas alternativas e frequentemente influentes para jornalistas, inclusive em mídia digital, bem como colaborações de jornalismo investigativo internacional. Com o crescimento contínuo da abundância de informações online, o valor distintivo do jornalismo independente está sendo sublinhado”.

Para acessar o relatório da Unesco, indico duas das versões disponíveis:
– Íntegra do documento (em inglês): https://bit.ly/2C54lO6
– Resumo executivo (em espanhol): https://bit.ly/2zcHrhC

Para baixar a obra de Hannah Arendt, clique https://bit.ly/2RCOFW3.

*Título tomado de empréstimo do poema “Tudo a perder”, da carioca Claudia Roquette-Pinto, publicado no livro “Margem de manobra” (2005).

#TruthNeverDies
#AVerdadeNuncaMorre
#ImprensaLivre

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