FALSIDADE IDEOLÓGICA

por Michel Oliveira

(…) É assim, com esse clima de frustração, que muitas vezes nos deparamos com pessoas que nos dão uma imagem completamente oposta ao conteúdo. Não estou falando de pequenas frustrações, tipo aquelas de amigos que não correspondem às nossas expectativas, e sim de algo bem mais profundo, de uma falsidade ideológica, de uma profunda distorção de caráter.

Imagine-se num belo dia de verão. O sol está lindo, não há nuvens no céu e faz um calor terrível. Você não tem para onde correr, pois, correndo, seu calor vai piorar. Então, de repente, não mais do que de repente, você tem uma idéia que parece salvar seu dia.

– Uma coca-cola bem gelada, por favor! Exclama.

Nesse momento de sede e agonia, só a coca-cola pode salvá-lo. Você levanta o anel da latinha, o vermelho da embalagem mexe com seu sangue e depois vem o ?tsiiii?. Nunca houve som tão agradável aos seus ouvidos. Vem, então, o seu primeiro gole, que parece até aquele seu primeiro beijo de tanta emoção.

O líquido gelado desce por sua garganta e é aí então que toda a poesia morre. Para o seu desprazer, não é coca-cola que tem na lata, e sim fanta! Você vê sua emoção padecer e reclama com o garçom, mas ele não pode fazer nada?

É assim, com esse clima de frustração, que muitas vezes nos deparamos com pessoas que nos dão uma imagem completamente oposta ao conteúdo. Não estou falando de pequenas frustrações, tipo aquelas de amigos que não correspondem às nossas expectativas, e sim de algo bem mais profundo, de uma falsidade ideológica, de uma profunda distorção de caráter.

Criamos uma imagem nas nossas cabeças sobre as pessoas e passamos a cobrar que elas ajam segundo o roteiro que traçamos. Aí a culpa é, sem dúvida, nossa. Mas há outras que criam uma imagem própria como algo verídico, no entanto, há sempre um mais atirado que adverte:

-?Essa coca é fanta!?

Às vezes, a personagem está tão bem formulada e articulada que a inverdade é atribuída a quem nos advertiu. Há almas mais sensíveis no mundo do que a gente é capaz de perceber, e são essas que nos salvam.

Por isso, devemos ter cuidado com discursos baratos, forçados, sugados de outros. Esteja sempre atento àquilo que lhe rodeia. Não é porque uma pessoa está com os cabelos molhados que significa que ela tomou banho. Para saber se eles foram lavados, é necessário sentir o cheiro do xampu e, ainda assim, há muito mais meios de fazê-los cheirar sem tê-los necessariamente lavado. Mas aí, paciência!

Repito: sempre desconfie antes de confiar! É mais seguro, prático e econômico. Assim, você evita alguns machucados desnecessários ao coração. Isso significa que devemos desacreditar de todos? Absolutamente. O que digo é que só desconfiando que você poderá enxergar determinada pessoa como credível, lembrando sempre que alguns deslizes acontecem, com todo mundo. Afinal, ainda somos ecologicamente incorretos.

Honoré de Balzac disse que meio-termo jamais: ou se tem total confiança ou nenhuma. Ele se referia aos criados, mas nada nos impede de aplicar esse método em indivíduos do nosso meio.

Devemos sempre nos questionar se as idéias que possuímos correspodem ao cotidiano das nossas vidas, se correspondem aos fatos. Pois só dessa maneira teremos a consciência tranqüila quando alguém gritar:

– Essa coca é fanta!

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Michel Oliveira é estudante de jornalismo da Universidade Federal de Sergipe (UFS), amigo meu e conterrâneo. Uma das pessoas com as quais tive o prazer de passar a madrugada conversando sob as estrelas de uma cidadezinha qualquer. Infelizmente, não costumo encontrar todos os dias pessoas inteligentes, sensíveis, com percepção apurada. Há mais cínicos na terra do que supõe a nossa ingênua credulidade.

Nota: Texto extraído deste blog, sob o título original Suas idéias não correspondem aos fatos.

6 Replies to “FALSIDADE IDEOLÓGICA”

  1. Michel, parabéns pelo texto! É simples, bonito por ser honesto e, ao mesmo tempo, carrega idéias tão bem sedimentadas sobre os relacionamentos. Eu não poderia deixar de divulgar aqui no meu site. Somente os meus amigos íntimos (sim, nem todos os amigos são íntimos) sabem o quanto considero este meu espaço importante. Há uma inquietação enorme dentro de mim sobre a deslealdade, que consome o meu espírito. Pergunto-me sobre como pessoas aparentemente bem intencionadas podem ter comportamentos tão “absurdos”, tão “insensíveis”, tão “mesquinhos”? Sigo adiante na certeza de que vivem mais pacificados aqueles que buscam a honestidade, a lealdade, a pureza das coisas, ainda que toda essa busca seja (ou pareça) ilusão. Não importa. Estou cansada das pessoas mentirosas. Estou cansada daquelas que se aproveitam de nossas boas intenções. Estou cansada das pessoas imaturas. Estou cansada de me cansar dessas coisas. Serei uma eterna inconformada com a condição humana. Um dia, perguntarei a Deus: que raça é esta?

  2. Tá aí um tema que me atrai muito e que é muito bem explorado no texto.

    Como eu digo sempre: ‘É duro viver enganado!’

    Também me atrai muito, José. Sim, é duro, muito duro viver enganado. Sentimo-nos verdadeiros idiotas. beijos, Aline

  3. Concordo plenamente com a frase: “ou se tem total confiança ou nenhuma.” Confiança é como a fé, tem que ser 100%.
    E também assino embaixo em: “Criamos uma imagem nas nossas cabeças sobre as pessoas e passamos a cobrar que elas ajam segundo o roteiro que traçamos. Aí a culpa é, sem dúvida, nossa.”

    Belo texto primo!
    Boa escolha Aline!
    Beijos!

    Confio em pouquíssimas pessoas. “Confiar” no sentido de acreditar que tais pessoas têm o cuidado de preservar umas as outras. Têm a consciência da busca pela lealdade. O que não significa q sejamos infalíveis… Claro! beijos, Aline

  4. michel de oliveira says: Responder

    Oi, Aline! fiquei muito feliz de ter meu texto publicado aqui, vc eh uma pessoa que me traz boas recordações. Dói no meu coração ver pessoas que se dissimulam tanto que se perdem sem jamais conseguirem voltar, mas estamos ai tentendo viver de forma bela. Bjos e muito obrigado. Cecília vem passar o fds aqui em casa.

    Michel, como disse antes, não poderia deixar de publicar o seu texto. Ele fala por mim. Traduz algumas de minhas percepções, de minha maneira de viver a vida… Divirtam-se por aí nas praias, no cinema e tudo mais… beijos, Aline

  5. Michel,obrigada por você ter divulgado este seu rico texto, que seja visto por milhares.Ele certamente servirá como “alerta” para muitas pessoas.É triste assim concluir:mas vivemos em um mundo permeado de seres cada vez mais distante do confiar…

  6. Um texto muito interesante de ler e real, no dia a dia deparamo-nos com situações destas .por ter lidado ao longo da minha vida pessoal e profissional com pessoas falsas que me tornei muito desconfiada.
    Agora quando falam comigo sempre desconfio de tudo que dizem.

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