Human

Entre o choro e o riso do que é humano
por Aline Menezes*

“Quando não tem mais o que comer, vamos catar arroz em buraco de rato. Quando a gente acha um pouco, a gente coloca num cesto. Só vai para casa quando enche um saco. [..] Deus tem um coração bom. Ele nos protege e nos dá tudo. Quando ele me vê procurando em todo canto, eu sempre acho uns grãos.” Essa frase é a transcrição do relato de uma mulher chamada Lalmati, na Índia, que é uma das personagens reais da primeira parte do documentário “Human” (França, 2015), dividido em três volumes, realizado pelo jornalista e fotógrafo francês Yann Arthus-Bertrand, e lançado no Brasil em 2016, cuja divulgação inicial foi feita em trechos no YouTube, correndo o mundo.

Já Atman, no Haiti, um homem que também aparece no vídeo, uma das mais de duas mil pessoas entrevistadas em cerca de 60 países, incluindo o Brasil, ensina-nos: “Eu sou pobre. Agora, vou definir o que é pobreza. O que é pobreza para mim? É quando preciso ir para a escola, mas não posso. Quando preciso comer, mas não posso. Quando preciso dormir, mas não posso. Quando minha mulher e meus filhos sofrem. Não tenho o nível intelectual necessário para sair dessa situação. Nem eu, nem minha família. Eu me sinto realmente pobre. No corpo e na mente”. Ao final de seu depoimento, ele nos pergunta: “E vocês ricos, que estão me ouvindo, o que têm a dizer sobre sua riqueza?”.
 
Em “Human”, Yann Arthus-Bertrand reúne os grandes temas da vida, tratados há séculos por filósofos, artistas, escritores, historiadores, religiosos, sociólogos, cientistas políticos, psicólogos, jornalistas, antropólogos, críticos literários, entre outros intelectuais, e os aborda com a perspectiva das mais diversas experiências de humanidade possíveis e vividas pela espécie humana. O amor, o perdão, a família, a vida, a morte, o trabalho, a injustiça, a violência, as mulheres, a fé, a felicidade, a religião, a guerra, a pobreza, a riqueza, a sexualidade, a educação… Temas que são apresentados nos três volumes desse trabalho documental, com base na vivência de pessoas que – assim como eu e você – têm suas histórias íntimas e particulares, tristes e alegres.
 
A diversidade de rostos, tons de peles, olhares, cabelos, vozes, línguas, sotaques, roupas e expressões de dor e felicidade é só um dos elementos estéticos do documentário que nos permitem romper, ao menos por alguns instantes, caso isso não venha a nos transformar para sempre, com o nosso olhar centrado unicamente em nós, em nosso país, estado, cidade, comunidade, família, casa, religião ou em nosso modo de enxergar o mundo como se a vida que está do outro lado de nossa cerca imaginária não fosse igualmente humana e profunda. Como se a nossa contradição de fé e desespero não estivesse pulsando naquela pessoa do outro lado da janela, que passa por nós sem que soubéssemos como ela realmente se sente ou sente sua própria vida. Sem que soubéssemos que para onde essa pessoa estava indo talvez fosse jogar-se do 6º andar de seu prédio.
 
Questões que nos custam compreendê-las, como a de um homem condenado à prisão perpétua pelo assassinato de duas mulheres, que após a prisão aprendera o que é amor por meio da mãe/avó de suas vítimas, e que são trazidas para o início do filme. E, mais adiante, se não estivermos anestesiados demais pelo ódio e pela revolta, começaremos a entender por que isso é possível. E passaremos a entender, justamente porque essas histórias de tantas pessoas diferentes ao redor do mundo nos fazem chorar, rir, ficar com raiva, revoltados, pensativos, envergonhados, intrigados, tristes, mas também inacreditavelmente esperançosos.
 
Isso significa, por exemplo, que a despeito de toda nossa humanidade, de toda nossa angústia diante da vida e do que há de mais difícil e chocante neste nosso planeta, ao menos deveríamos nos lembrar sempre de que, de fato, o amor e a esperança continuam sendo nossas únicas formas de mantermos um sentido verdadeiro para as nossas vidas, mesmo que elas nos pareçam – naqueles momentos de maior solidão e desamparo – tão insignificantes para nós. Ou tão desnecessárias para o mundo.
 
Link:
The Movie Human / O Filme Humanos (legendado em português, em três volumes).
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*Aline Menezes é jornalista, professora e doutoranda em Literatura e Práticas Sociais pela Universidade de Brasília (UnB). Atualmente, é visitante acadêmica com “bolsa sanduíche” da Capes na Indiana University, em Bloomington, nos Estados Unidos.

 

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