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A solidão também quer dizer isto: ou a morte, ou o livro. Descobrir que só a escrita pode nos salvar. (Marguerite Duras)

O coveiro, a solidão e o silêncio
por Aline Menezes

Há coisas que só fazem sentido no depois, porque no agora somos absorvidos de tal forma pela vida que nos tornamos incapazes de perceber o movimento da existência entre nós. A vida que segue parece nos conduzir para o nada, um nada tão cheio de dúvidas e inquietações… Um nada que existe, que se aproxima da esperança ou da experiência dos cadáveres. 

Estou sob o efeito da vida. Perambulo na agonia de um fardo, um fardo que carrego conscientemente. Arrasto-me até o horário em que não consigo mais enxergar uma saída… Encontro-me, também, completamente anestesiada, às vezes, talvez embriagada e entorpecida por um peso que já não suporto mais levar adiante. São muitas lembranças e muitas memórias acolhidas numa só vida, numa só alma solitária. Num corpo que teima.
Afasto-me vagarosamente dos sons das ruas, das vozes de dentro de casa, do barulho que lateja na minha cabeça. Minha tentativa de me embrulhar no silêncio fracassa a cada momento em que – de olhos abertos – vejo como as pessoas andam, sinto o que elas expressam, observo como se comunicam, como não se amam, como se disfarçam… fantasiadas, elas se revelam na frente do meu jeito atento de escutá-las. 


O coveiro: única imagem coerente neste cenário tão particular que acabo de criar para aqueles que me leem, que tentam interpretar um mundo que não os pertence. O coveiro: cercado de sonhos hoje apodrecidos, amores proibidos, sentimentos intraduzíveis… O coveiro: personagem igualmente consumido pela solidão, pelo silêncio daqueles que já não respiram mais, não sentem o cheiro das flores amarelas, tampouco sentem o esvair-se da própria vida…

… mas estou aqui, ainda que longe dos olhares do coveiro, sinto-me tão perto do silêncio dos mortos.

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