fleurs

Mostrava-se tão triste e tão calma, tão doce ao mesmo tempo e tão reservada, que ao seu lado todos se sentiam tomados por um encanto glacial, como se estremece nas igrejas sob o perfume das flores misturado à frieza dos mármores. (in Madame Bovary, Flaubert, p. 105)

O analista junguiano James Hollis escreveu certa vez que “a brutalidade que já houve no mundo é suficiente para durar eternamente”. Ele afirmou isso enquanto discutia questões relacionadas ao patriarcado, à condição perversa imposta a mulheres e homens durante toda a história da humanidade. E penso que ele tem razão.

Em outro momento, enquanto assistia à série C.S.I., especificamente o episódio “Adeus e boa sorte”, ouvi a personagem Sara Sidle (Jorja Fox) comentar que, certa vez, pesquisando sobre suicídio, um sobrevivente disse que – enquanto ele pulava de onde estava para se matar – percebeu que todos os seus problemas poderiam se resolver, menos o fato de já ter pulado.

Manter-se lúcido, em meio a tanta alienação, a tantos equívocos da sociedade, a tanta estupidez disseminada por aí, parece-me uma condição quase absolutamente impossível. A sobriedade hoje é algo que, cada vez mais, passa longe da gente. As pessoas trocaram flores por pedras. E, pior, acreditam que fizeram uma boa escolha.

Pensemos, então, em Virginia Woolf, nas Cenas londrinas: “Pare, reflita, admire, fique atento a seus próprios rumores – essas antigas placas estão sempre nos aconselhando e exortando”.

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FLAUBERT, Gustave. Madame Bovary. Tradução, apresentação e notas de Fúlvia M. L. Moretto. São Paulo: Nova Alexandria, 2007.

One Reply to “fleurs”

  1. Como eu sempre digo, é duro viver enganado. Mas é fato que cada vez mais nos alienamos, o mundo oferece cada vez mais distrações para nos afastar da verdadeira vida. Abraço.

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