fascism

Fora criada sozinha, só com a mãe. Tinha mais um irmão que pouco brincava com ela, pois acompanhava o pai no trabalho da roça, nas terras dos brancos. Ela e a mãe ficavam dias e dias sem ver os dois. (Conceição Evaristo em Ponciá Vicêncio)

Por quem os gritos se prostram
por Aline Menezes

A mineira e economista Dilma Rousseff, especialmente desde que assumiu o primeiro mandato na Presidência da República, sempre teve suas falas editadas e exibidas de modo debochado pelos seguidores dos comandantes fascistas. Na tentativa de silenciá-la, tentaram desqualificar os seus pronunciamentos para nos convencerem de que a chefe do País não estaria preparada para lidar com questões políticas e econômicas. No entanto, sabemos que as reais motivações por trás dessa reprovação desonesta, mediada pela atenção jocosa a seus discursos, são apenas mais um indicativo do quanto nós, mulheres, ainda temos que lutar, por exemplo, contra o sexismo e a misoginia.

A julgar pela atmosfera criada há algum tempo contra a presidenta, parece até que a eloquência de FHC e a habilidade de narração estética do rosto de Collor combateram a injustiça contra milhões de brasileiros que sempre foram menosprezados por políticas públicas que nunca os representaram, ou que nos salvaram do que temos de mais grave em termos de corrupção e hipocrisia no Congresso Nacional. Pior: como se Dilma estivesse participando de um concurso para eleger quem possui a melhor oratória entre ela e os seus antecessores.

De outro modo, o deputado federal Jair Bolsonaro (PSC-RJ) tem sempre usado a linguagem para agredir e violentar simbolicamente milhões de brasileiros, a exemplo da menção ao estupro contra a parlamentar Maria do Rosário (PT-RS) e, mais recentemente, com sorriso entre os lábios, da homenagem ao coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, responsável por inúmeras torturas durante a ditadura militar e que recebeu, no dia 17 de abril de 2016, no plenário da Câmara dos Deputados, o certificado por aclamação golpista de “O terror de Dilma”.

Mas as mesmas pessoas “indignadas” com uma presidenta que “não sabe falar” não se mantêm indignadas contra Bolsonaro, um homem que possui seguidores violentos, é carregado no colo e beijado por políticos igualmente racistas, homofóbicos, machistas e todos os outros adjetivos do mesmo campo semântico da violação dos direitos humanos. Constatação de um exemplo de incoerência e contradição nos discursos inflamados de quem foi às ruas vestido de verde e amarelo e que agora comemora a “limpeza nacional” e o “milagre da mudança”. Como diz minha irmã Cecília: ações feitas “pelas vassourinhas de Jesus”.

Portanto, ter perdido a luta do último domingo significa uma coisa, mas perder ao lado de políticos como Jandira Feghali, Érika Kokay, Jean Wyllys e Chico Alencar, por exemplo, é outra bem diferente. Isso porque não integrar o coro de figuras como Eduardo Cunha, Marco Feliciano, Paulo Maluf, Bolsonaro pai e Bolsonaro filho, para mim, é o mesmo que manter a integridade, a lucidez, a coerência, a sensatez e a capacidade de avaliar e refletir sobre a quem realmente interessa a saída do PT do poder ou a quem importa conduzir legendas extremamente conservadoras, brancas, masculinas e divinamente heterossexuais, lideradas pelos “filhos de Deus”, à administração do Brasil.

Se, entre a cuspida de Jean Wyllys e a apologia à tortura de Jair Bolsonaro, a notícia que ganha holofotes e causa comoção nacional é a cuspida, sem dúvida, estou em um país no qual o respeito à vida, à diversidade e à pluralidade de ideias e de representatividade política são bandeiras completamente ignoradas pelos batedores de panelas, seletivos em sua luta mesquinha e hipócrita por um país justo e honesto, muitos dos quais são ingênuos e pensam que as vozes dos congressistas contra Dilma são todas favoráveis a uma nação livre da corrupção.

É evidente que muitos de nós, independentemente de sermos contra ou a favor do impeachment, realmente queremos um Brasil melhor, mas para quem? A diferença é que as mulheres, os negros, os homossexuais, os transexuais, os índios, os quilombolas, as comunidades ribeirinhas, os representantes de religiões de matriz africana e tantos outros brasileiros violentados em seus direitos básicos também o querem. E é muito mais por eles que eu luto do que por aqueles que vão à Avenida Paulista exibir a postura esnobe e a arrogância de uma branquitude apática de machos alfa e ricos abusivos, preocupados unicamente com as suas viagens bregas a Miami.

Se minhas ideias forem de uma petralha, esquerdopata, cheia de mimimi de feminazi e que merece ser estuprada, saibam que – neste universo da linguagem – eu não me deixarei afetar com a ausência de argumentos, de sensibilidade, de respeito e de criatividade de vocês. Em minha jornada como mulher, nordestina e feminista, eu já entendi com quem estou lidando. Mais vale lutar pelo que acredito ao lado de quem não se curva diante de reacionários e fascistas do que ser “filha de Deus” ao lado de quem consegue superar até mesmo a imagem do diabo pregado por um tipo de cristianismo que, graças aos céus e a Buda, não foi o filho do carpinteiro quem o criou.

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