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A coragem de ser é a coragem de aceitar a si mesmo a despeito de ser inaceitável. (Paul Tillich)

O amor nos tempos de insolência
por Aline Menezes

O teólogo alemão Paul Tillich escreveu certa vez que “o primeiro dever do amor é ouvir”. A despeito de todas as agressões que são feitas em nome de deus (deixemos, por hora, tudo minúsculo), não pretendo aqui discuti-las, mas uma delas quero mencionar: o desrespeito que temos em relação à vida do outro, à crença ou à descrença alheia.

A vida tem me ensinado muitas lições, a principal delas tem a ver com o coração: mais vale a lucidez de um ateu do que a impassibilidade de um religioso; mais vale sentar-se à mesa com prostitutas e sentir-se livre para compartilhar o pão do que estar em volta de um banquete luxuoso e compactuar com o escárnio com o qual comumente são tratados aqueles que não correspondem às expectativas morais e religiosas de determinados grupos.

Escrevo nesses termos como aprendizado de minha experiência cristã protestante: parte de minha formação religiosa é presbiteriana. Muito do que particularmente carrego no modo como observo e absorvo o mundo e do que assimilo como dimensão espiritual teve a ver com essa vivência. É verdade que, mais madura, abandonei certas crenças, porque assumi um olhar mais crítico e, talvez, mais ponderado acerca do “sagrado”. E o que mantenho é o que considero essencial.

Desconfio de todo aquele que não ouve. De toda pessoa que mantém a incapacidade de acionar a leveza auditiva da alma para compreender o mal que a arrogância religiosa pode provocar no indivíduo, de modo particular, e na sociedade, de modo geral. Desconfio de todo e qualquer ser humano que confessa amar a Deus, mas violenta o direito de alguém ser livre; que diz amar a Cristo, mas não se compadece da dor alheia; que frequenta igrejas, templos, mesquitas, sinagogas, santuários, mas fecha as portas ou não estende à mão para a travesti, por exemplo, não a respeitando naturalmente, não a considerando indivíduo.

“O primeiro dever do amor é ouvir”, diz a frase inicial deste texto. E, honestamente, quero ouvir a alma das pessoas. Quero ouvir a ferida que se abre no espírito daquele que é diariamente agredido por  fundamentalistas. Quero ouvir as canções compostas por ateus, não porque eles são ateus, mas porque quero ouvir canções…

Em tempos de tanta violência, de tanta soberba, de tanta agressão, quero ouvir a respiração das divindades… e quero que elas me ajudem a caminhar sem a desfaçatez de alguns religiosos, sem a arrogância de alguns intelectuais, sem a pretensão de achar que virtuoso é tudo aquilo que aprecio, e desprezível é tudo aquilo que não está circunscrito na minha experiência particular, religiosa ou comunitária.

Em tempos de tanta violência, ainda quero amar. Porque acredito que somos nós quem precisamos dar sentido à vida, por mais que tudo seja tão difícil, tão cinzento, tão duro, tão arriscado… Por mais que eu acorde não querendo acordar, durma não querendo dormir, sofra não querendo sofrer…

…. acredito ser importante compreendermos que, apesar da solidão, da angústia, da melancolia e do desespero, ainda é possível encontrarmos alguém que nos ouça. Ainda é possível que o sol já não nos pareça tão sem graça. Ainda é possível que a nossa nudez seja uma metáfora honesta da vida, não simplesmente uma expressão insinuante do nosso corpo.

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