ENTREVISTA | Ator sergipano apresenta “Carta para uma mãe que se foi”

Peça de Henrique Meneses estreia em Tobias Barreto e discute machismo na infância
(por Aline Menezes) 

Nas palavras da poeta portuguesa Matilde Campilho, “a arte não salva o mundo, mas salva o minuto”. Da necessidade que temos de dar sentido à vida ou de questionarmos modelos autoritários de sociedade, por exemplo, produzimos literatura, cinema, música, dança ou teatro. Por compreender a arte como expressão de contradições sociais e vivências coletivas ou individuais, o ator Henrique Meneses idealizou e escreveu o monólogo “Carta para uma mãe que se foi”, que estreará no próximo dia 28 de janeiro, na cidade onde ele viveu dos três aos 19 anos, em Tobias Barreto, Sergipe, que fica a pouco mais de 130 km de distância da capital Aracaju. 

Há dois anos, desde que saiu do município sergipano, Henrique estuda na Escola de Atores Wolf Maya, em São Paulo. Em entrevista ao site alinemenezes.com, ele conta como seus registros pessoais se transformaram em material artístico para a composição da peça, que – embora tenha tal título – não é sobre sua mãe. Ela morreu quando ele tinha 16 anos incompletos. “A nossa história é apenas o ponto de partida para falar de outro assunto, machismo e preconceito”, explica o ator. Hoje, aos 21, ele se apropria de suas memórias de infância, especialmente sua paixão por vestidos de noiva, para refletir “sobre o peso que é colocado nas crianças ao se determinar com o quê e como elas devem brincar, levando em consideração não a sua vontade, mas o seu gênero”.

Infância livre de preconceitos

Em 2019, a ministra Damares Alves, titular do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, gravou um vídeo no qual reproduzia percepção distorcida e limitada acerca do debate sobre gênero, afirmando que “meninos vestem azul e meninas vestem rosa”. Em “Carta para uma mãe que se foi”, a perspectiva apresentada na peça é outra: meninos e meninas, desde cedo, devem ser respeitados(as) em suas individualidades, em sua criatividade, em suas manifestações lúdicas, inclusive para brincarem e se divertirem sem as imposições dos adultos, que quase sempre são – na opinião do artista – manifestações preconceituosas e machistas.

O entrevistado acrescenta que sua paixão de infância por vestidos de noiva foge aos padrões heteronormativos, segundo os quais há comportamentos e papéis que só podem ser “naturalmente” desempenhados pelos meninos ou pelas meninas. Não por acaso, em seu monólogo, surgem questionamentos como: “Afinal, o que é uma brincadeira de menino?”. O ator sergipano pontua que sua peça é sobre gênero, não sobre sexualidade. “Precisamos ter o interesse em saber a diferença entre as duas coisas”, adverte.

Manipulação e violência

Por não sabermos as diferenças entre os conceitos, há confusões sendo feitas em torno dos temas gênero e sexualidade, muitas vezes suscitando afirmações equivocadas, deturpadas, as quais foram manipuladas, inclusive, pelo então deputado federal Jair Bolsonaro (PSL-RJ), quando candidato à Presidência da República em 2018. Em sua campanha presidencial, militantes e o próprio Bolsonaro disseminaram notícias falsas sobre a existência de um “kit gay”. Ou seja, no âmbito da orientação sexual, o desconhecimento e as informações mentirosas também geram violência.

A eleição do atual presidente validou o pensamento preconceituoso de muitas pessoas e, por conseguinte, o número de atos violentos contra pessoas LGBTQI+ tem aumentado muito.

Nesta quinta-feira (16), por exemplo, em vídeo institucional veiculado pelo secretário especial da Cultura do governo Bolsonaro, Roberto Alvim faz referências ao discurso de Joseph Goebbels, principal responsável pela propaganda na Alemanha Nazista, entre 1933 e 1945. No Brasil, temos informações de que grupos neonazistas espalham-se pelo país, a fim de perseguirem gays, nordestinos, negros, judeus e imigrantes. “Eu sou gay, [de origem] pobre e nordestino; esse governo é uma ameaça para mim e para todos os brasileiros”, afirma o artista.

Teatro, trabalho e autoconhecimento

De acordo com o jovem ator, é evidente que o teatro é um trabalho, um ofício, e não um divã. Porém, ele acrescenta: “Na arte, não existe nada que não passe pela individualidade do artista”. Sendo assim, as memórias de infância que ele exibe no monólogo ajudam-no a entender que suas questões pessoais, a exemplo da culpa que ele sentia por gostar de vestidos de noiva, não são necessariamente um problema dele, mas podem ser interpretadas como uma questão da sociedade, uma vez que também somos condicionados por normas e padrões sociais.

Eu posso usar da minha história para gerar consciência em outras pessoas. A arte nos salva, no sentido de que nos faz pensar, especialmente nestes dias tão sombrios em que estamos vivendo.  

Professores(as) e escola pública

Para Henrique, estrear sua peça na cidade onde viveu grande parte de sua história e  construiu suas principais memórias de infância e adolescência é a oportunidade para agradecer pelo apoio que teve na escola pública. Segundo ele, ainda no 6º ano, quando era aluno da Escola Municipal de Ensino Fundamental Iraildes Padilha de Carvalho, compôs seu primeiro poema em homenagem ao seu conterrâneo mais famoso: o filósofo, jurista e poeta Tobias Barreto de Menezes (1839-1889). Naquela mesma época, participou de sua primeira peça teatral. Além disso, o artista também foi bolsista no ensino médio de uma das escolas particulares da cidade. Em ambas as instituições, graças ao incentivo de professores(as) e diretores(as) escolares, pôde seguir seu sonho com o teatro.

“Tobias Barreto foi onde tudo começou. O Auditório Paroquial foi onde fiz minha primeira peça; um dia, prometi que – se eu conseguisse estudar teatro em São Paulo  – levaria o que eu aprendi para Tobias. Eu tenho uma gratidão muito grande à cidade, afinal, dela também vem a mãe para quem se destina a carta [do monólogo]”, conclui o ator sergipano Henrique Meneses. 


SERVIÇO:
Estreia da peça “Carta para uma mãe que se foi”, de Henrique Meneses
Data: 28 de janeiro de 2020
Horário: 20h30
Local: Auditório Paroquial | Av. Luiz Alves de Oliveira Filho, s/n – Tobias Barreto (SE)
Duração:  60 minutos
Classificação indicativa: Livre
Entrada gratuita

Foto principal: Arquivo pessoal de Henrique Meneses / Instagram @henriql_.

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