O descarte à vida

A sensibilidade não é uma fraqueza. Tem a ver com estar tão dolorosamente atento que mesmo uma pulga pousando sobre um cão soaria como uma explosão sonora. (Jeff Buckley, cantor e compositor norte-americano)

Li um texto atribuído ao escritor uruguaio Eduardo Galeano (1940-2015), mas na verdade é de autoria do jornalista americano Marciano Durán (1956-), radicado em Punta del Este, no qual ele diz que não consegue “andar pelo mundo pegando coisas e trocando-as pelo modelo seguinte só porque alguém adicionou uma nova função ou a diminuiu um pouco”. Ele diz que não consegue “trocar os instrumentos musicais uma vez por ano, o celular a cada três meses ou o monitor do computador por todas as novidades”. 

Essa bela revelação de “incapacidade” deve-se à compreensão de como nossa sociedade aderiu ao descartável, à efemeridade dada às coisas e, inclusive, às pessoas, aos relacionamentos, às amizades. Deve-se à percepção de que tudo hoje é feito ou fabricado para ser rapidamente usado e imediatamente jogado fora. “As coisas não eram descartáveis, eram guardáveis”, diz a crônica. 

Quanto mais eu passo pelo tempo, mais eu quero ser inadequada, demodê, mais eu quero nadar contra a corrente… Quanto mais eu passo pelo tempo, mais me convenço da agressividade humana, de nossa insensatez, da brutalidade do capitalismo, da alienação do consumo e de tantas outras coisas mais.

Quanto mais eu passo pelo tempo, mais eu sinto a dor de um sacrifício, de uma luta quase vã, de uma alma inevitavelmente alvejada. Sim, quanto mais eu passo pelo tempo, não apenas envelheço…

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DIMERY, Robert. 1001 discos para ouvir antes de morrer. Rio de Janeiro: Editora Sextante, 2008, p. 744 (citação de Jeff Buckley).

2 Replies to “O descarte à vida”

  1. Sim, sim…! Sim às pessoas, não às coisas! Sim!

  2. Temos mais coisas em comum do que percebemos. 🙂
    Eu sou uma grande entusiasta do durável. Tudo que é descartável para mim carece do diferencial chamado “sentimento”. Usar algo e jogar fora logo depois me parece algo tão desnecessário e chato…
    Deve ser por isso que sempre tive poucas coisas, todas boas, para que eu possa usufruir delas o maior tempo possível.
    Quanto mais tempo uma coisa durar melhor. Quanto mais tempo uma amizade durar, melhor, quanto mais tempo um sentimento bom durar, melhor.
    Vamos juntas nadando contra a maré.
    Beijos!

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