dilma rousseff

O feminismo tem tido um importante papel na demonstração de que não há e nunca houve “homens” genéricos – existem apenas homens e mulheres classificados em gêneros. [..] temos uma infinidade de mulheres que vivem em intrincados complexos históricos de classe, raça e cultura. (Sandra Harding, filósofa e feminista americana)

O valor da fala
por Aline Menezes

Debates sobre o pedido de impeachment à parte, escrevo este texto motivada por inquietações e desconfortos particulares e coletivos que me seguem há muito tempo. Isso porque vivo em um dos países mais violentos e injustos do mundo, principalmente em termos de liberdade e direitos de meninas e mulheres no Brasil.

Desde o primeiro ano do primeiro mandato em que a mineira e economista Dilma Rousseff assumiu a Presidência da República, começaram os primeiros e “pequenos” atos de violência contra a figura feminina (“e pouco feminina”) que ela representava. Na verdade, bem antes disso, já nas campanhas eleitorais…

O visual e a aparência dela precisaram ser mudados para que não houvesse tantas resistências estéticas; a sua orientação sexual foi posta em debate como se ela fosse governar com o seu aparelho reprodutor ou a pélvis; a sua vida íntima virou logo piadinha entre gente machista e mau-caráter ou até mesmo “cidadãos de bem”, assim como outras manifestações igualmente desrespeitosas.

Em nenhum momento, desde o início da trajetória da candidata Dilma até a já empossada presidenta, fiquei quieta diante de tanta afronta, que foi se agravando a ponto de surgir adesivo de imagem agressiva, violenta e extremamente sexista… E depois vieram mais xingamentos e mais agressões, provando que a questão não estava centrada unicamente em suas decisões políticas e de comando de um governo, mas em outras.

Fiquei imaginando quem no Brasil teria coragem de fazer um adesivo daquele com a bomba de combustível entrando, por exemplo, na bunda (queria usar outro termo) de Aécio Neves ou de FHC. Não, o tratamento dado aos homens, inclusive na política, é bem diferente e mais cortês. Sempre.

A presidenta Dilma Rousseff é uma mulher de 68 anos de idade e que vem sofrendo os mais diversos tipos de ataques violentos, agressivos, sexistas, machistas e misóginos que algum de nós já viu publicamente. E, tenho certeza, essa violência não é em razão de sua administração ou de sua filiação partidária, como muitos querem nos fazer acreditar.

Somos socializadas desde a infância para que cumpramos o “nosso papel feminino”, como se fôssemos propriedades dos homens, como se eles fossem os nossos donos e como se as nossas vidas só pudessem fazer sentido sob o julgamento e a autorização deles. Portanto, a naturalidade com a qual os gritos de ódio são levantados contra a mulher Dilma é assustadora, mas bastante coerente com todo o nosso passado de violência de gênero.

Na minha opinião, nada pode ser mais tão violento contra Dilma do que a tentativa de tirarem dela o direito, inclusive, de defender-se da violência e da brutalidade impostas por uma sociedade que ainda não aprendeu que o direito à dignidade da vida humana não é uma coroação ou certificação do pênis, mas uma garantia universal a mulheres e homens espalhados em todo o mundo.

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