DIA DO JORNALISTA

O debate sobre a obrigatoriedade do diploma específico para o exercício do jornalismo no Brasil extrapolou todos os limites da razão, da ética e da honestidade intelectual. E se transforma num emaranhado confuso de aleivosias, sob o pesado silêncio dos jornalistas profissionais e dos estudantes de comunicação.

O reconhecimento do diploma, conquista que fundamentou o aprimoramento do jornalismo brasileiro, colocando limites na picaretagem que campeava nos tempos de Assis Chateaubriand e seus “carteiraços”, está sob sério risco de desaparecer, sob os ataques de candidatos preguiçosos a uma profissão digna, construída com sacrifícios de vidas inteiras dedicadas à busca da verdade e com o suporte dos proprietários dos meios de comunicação e seu exército de yes-men.

Os polemistas sempre a postos para um bate-boca sobre qualquer assunto vão odiar a afirmação, mas esse debate não tem qualquer nobreza. (trecho do artigo “Jornalistas (profissionais), uni-vos!“, de Luciano Martins Costa, publicado no Observatório da Imprensa)

Como disse minha querida Hanna Lewis, em resposta a tantas baboseiras faladas por aí contra a exigência do diploma de jornalimo para o exercício da profissão, repito que os atuais debates sobre esse assunto estão motivados muito mais pela tentativa de desqualificar a atividade jornalística no Brasil do que por qualquer outro interesse “digno de nota”. Sim, desqualificar!

Ora, sabemos que nenhum canudo assegura a qualidade, a capacidade, a ética e tantas outras exigências para o exercício de nenhuma profissão. Se o argumento é que basta ter talento para ser jornalista, então tornemos isso mais abrangente: basta ter talento para ser médico; basta ter talento para ser assistente social; basta ter talento para ser advogado; basta ter talento para ser psicólogo; basta ter talento para ser professor universitário de história et cetera. Sendo assim, vamos colocar em prática o que prevê o artigo 5º da Constituição Federal de 1988: “é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença”.

O que vejo mesmo é gente desinformada e de raciocínio curto reduzindo a função do jornalismo. Gente que desconhece a história de luta de mais de 80 anos pelo exercício da profissão com qualidade, respeito e liberdade de expressão. Neste país, onde políticos são donos de veículos de comunicação, onde empresários se submetem às mais perversas formas de corrupção, onde as pessoas compartilham “honestidades relativas”… neste país, onde há milhões de analfabetos, insegurança pública rolando solta por aí, onde há gente sem o mínimo de compromisso ético… neste país, não me espanta que debates desse tipo sejam tão fraudulentos.

E outra… não sejamos tolos: jornalistas não são formadores de opinião! Não nos deem esse legado autoritário.
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Hoje, terça-feira, 7 de abril de 2009, comemora-se o Dia do Jornalista.

6 Replies to “DIA DO JORNALISTA”

  1. Não tenho acompanhado o debate, mas acho que na minha profissão o mesmo é válido, já que tem muita gente sem formação que sabe programar. Ainda não sei de que lado me posicionar.

  2. Essa discussão é um saco, posto que não era necessário se descutir nada. Do jeito que as coisas andam nesse país o melhor presidente seria Macunaíma… Como estudante de Jornalismo fico a me perguntar onde as coisas vão parar, se em meio a tantos debates e conhecimentos teóricos travados na Universidade saem maus profissionais imaginmos se tudo isso for retirado sem uma lógica cabível.
    No mais já que é questão de talento deixemos os diplomas de médico de lado, uma vez que incontáveis são as rezadeiras e os encostos de Fritz que baixam pelo país a fora.

  3. É uma discussão complexa (justamente por eu pensar que não era necessário discuti-la tb, daí a complexidade vem não de sua necessidade, mas da agenda dos que propõem).

    Como você bem sabe, mesmo trabalhando com tecnologia, não nutro nenhum fascínio por ela. O fato de ela tornar POSSÍVEL que todo mundo produza informação, ela não torna todo mundo CAPAZ de produzir informação. Se o problema é que os cursos de jornalismo são ruins, pq não melhorá-los?

    Mas resolve-se o problema das maneiras erradas, pra variar.

  4. Sou pelo diploma, não há código ético e qualificação que resista nesse país sem reconhecimento legal. Entretanto, penso que devemos pensar mediações para que não sejam fechados centenas de jornais de bairro, de associações, de escola, de sindicatos e cidades pequenas. Talvez eximindo do diploma jornais que não tenham finalidade comercial ou que tenham finalidade social reconhecida. Fiz 4 anos de jornalismo e nunca peguei meu diploma, não posso fazer um jornal para o meu bairro?
    Aline, parabéns, como sempre antenada e provocando a discussão com muita elegância e contundência.

  5. Admito que não tenho estado bem a par do debate, mas penso que argumentar contra a obrigatoriedade do diploma de jornalismo para exercer a profissão é uma tremenda incoerência. É como defender a contratação de qualquer pessoa para ser policial, sem treinamento ou uma educação adequada. Ou como se qualquer um pudesse exercer a profissão de médico e sair por aí examinando e fazendo diagnósticos a torto e a direito. Que coisa! Mas daí a dizer que os jornalistas não são formadores de opinião, tenho minhas ressalvas, que não são poucas. Mas isso daria um novo post, e o blog não é meu. Um abraço!

  6. Infelizmente isso vem acontecendo não só no jornalismo, mas principalmente na Educação. É comum vermos chegar “colegas” às escolas com bacharelado em outras áreas, tais como Agronomia, Economia, Administração e Psicologia para assumirem as funções de Professor. O bacharel (mesmo com formação em Letras, Matenática, Química, etc.) não está licenciado (nem preparado) para assumir turmas de alunos. A situação se agrava ainda mais quando os professores resolvem fazer greve: o governo contrata qualquer um que tenha escolaridade superior somente para divulgar em suas propagandas que “a situação está sob controle” e que somente um pequeno grupo de professores está fazendo “greve política”.
    “É assim que caminha a humanidade” tupiniquim!…

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