DEVIA TER ARRISCADO MAIS E ATÉ ERRADO MAIS

E quando o caminho que escolhemos (ou fomos induzidos a escolher) não é exatamente aquilo que pensávamos ser? E quando as nossas certezas se despedaçam no ar e se transformam em dúvidas traiçoeiras? E quando não sabemos mais como amar? Nem muito menos o que é amor? E quando nos falta paixão? Não aquela que devassa a alma, mas aquela que nos revigora o espírito? E quando o desejo ardente de conhecer o outro é mais santo do que a decisão do celibato? E quando não temos vergonha de transgredir, simplesmente porque não havia outro caminho que nos conduzisse ao céu? E quando o profano se torna santo e o impuro se purifica? E quando as coisas, embora ilegais, são morais? E quando as coisas, embora imorais, são legais? Não sei.

Do mesmo deserto, à mesma noite, sempre meus olhos cansados acordam à estrela de prata, sempre, sem que se emocionem os Reis da vida, os três magos, o coração, a alma, o espírito. Quando iremos, para lá das praias e dos montes, saudar o nascimento do trabalho novo, a sabedoria nova, a fuga dos tiranos e dos demônios, o fim da superstição, adorar – os primeiros – Natal sobre a terra! O canto dos céus, a marcha dos povos! Escravos, não vamos amaldiçoar a vida. (A. Rimbaud)

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RIMBAUD, Arthur. Trecho do poema “Manhã”. In: ______Uma Estadia no Inferno. São Paulo: Martin Claret, verão de 2005, p. 44.

2 Replies to “DEVIA TER ARRISCADO MAIS E ATÉ ERRADO MAIS”

  1. Quase sinto culpa ao pensar que o sublime da arte advém, sempre, de uma alma despedaçada. Mas desfrutemos a beleza, ainda que em detrimento do sofrimento alheio. Rimbaud… e seu amor por Verlaine… Baudelaire e a passante que nunca saberemos o nome…
    Aline, este é o texto mais bonito que já escreveu em sua página, chego a invejar seu talento, todavia, sei que não será egoísta a ponto de nos preservar dele.
    Parabéns. Somos gratos à sua presença.

    Agradeço pelos elogios. É sempre bom recebê-los, principalmente quando vêm de pessoas que não me parecem demagogas. Meu site é um espaço sagrado para mim. Adoro isto aqui. E é, também, sob essa paixão que escrevo. Até mais! Aline

  2. Oi Aline!
    Quanto tempo! Desculpa o sumiço, mas estava com muito trabalho. Como você está?
    Quanto ao texto, permito-me usar a sábia frase do meu “amigo” Pitágoras: “O homem é a medida de todas as coisas”.
    Creio firmemente que ele falava também disto que você escreveu, dessa sensação de estar certo quando tudo leva a crer que está errado, ou de estar errado quando tudo leva a crer que estamos certos. Quem poderá, além de nós mesmos e de nossas consciências, dizer o que deve dar cor e brilho às nossas vidas?
    Quando eu não sei mais como amar (e até hoje nem sei se o que eu penso ser amor verdadeiramente o é) eu páro de pensar e apenas sinto.
    Penso que quando nossos sentimentos não nos ferirem mais aprenderemos a não ferir também…
    Beijos!

    Pois é, Rebeca, você sumiu. Senti sua falta. Respondendo à pergunta inicial, estou bem. Voltei a trabalhar, depois daquele inquietante período de perna engessada… Agora, ando envolvida com algumas leituras e ansiosa pelo retorno às aulas, dia 10. Nunca senti tanta falta do ambiente acadêmico como agora! Sinto que este segundo semestre será cheio de compromissos para mim. Preparação de monografia da pós; novos desafios profissionais; introspecção… Concordo com você: quando não sabemos as coisas, devemos parar para senti-las. É bom saber que a vida respira continuação! beijos, Aline

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