CONFUSÃO NO NOSSO ARRAIAL

por Zuenir Ventura

Embora este jornal em editorial e Luiz Garcia neste espaço já tenham advertido que o fim da exigência de diploma para o jornalismo não deve ser entendido como sinal para o fechamento das escolas de comunicação, nem como desprezo pela sua contribuição ao ensino da profissão, volto ao assunto porque o perigoso equívoco continua aparecendo na polêmica que cerca a decisão do STF. A confusão sobre o papel do jornalista é tanta que ele já foi comparado até a um chefe de cozinha. A má compreensão aumenta com a ilusão criada pela internet de que qualquer um pode ser repórter: basta dispor de uma máquina fotográfica e da sorte de presenciar um acontecimento. Portanto, não custa reafirmar que ainda que o canudo não seja necessário, a formação é.

Começando pelo óbvio, a universidade constitui um avanço em relação ao autodidatismo e, mesmo imperfeita como a nossa, não pode ser dispensada, mas sim aperfeiçoada. Qualquer determinação em contrário cheira a obscurantismo. Não vale argumentar com as exceções: “Fulano foi um grande jornalista sem ter botado os pés numa faculdade.” O presidente do STF citou o caso de García Márquez, Vargas Llosa, Nelson Rodrigues, deixando a impressão de que eles foram excelentes porque não tinham diploma.

Como o jornalista é um especialista em assuntos gerais que não precisa saber tudo, só saber quem sabe, alega-se que sua eventual carência teórica será suprida no dia a dia por especialistas de outras áreas. Trata-se de uma valiosa contribuição, mas que não substitui a formação universitária com todo o seu patrimônio cultural acumulado, além do ensino da língua. Um grande economista não será necessariamente um bom repórter de economia, da mesma maneira que o Prêmio Nobel de Química ou Física não será o editor ideal da seção de Ciência. Eles funcionarão melhor como fontes, articulistas, colaboradores. O que faz a diferença entre o especialista e o jornalista é a capacidade que este tem de traduzir o saber específico daquele numa mensagem palatável para um público leigo.

Isso exige preparação técnica, know-how, aprendizado: como apurar, como escrever, como transformar em notícia, por meio de uma linguagem própria, um determinado conteúdo. Pode-se adquirir esses conhecimentos na prática, numa redação de jornal, como eu que, sem diploma, fui professor de jornalismo por 40 anos e sou jornalista há mais de 50. Mas é essa experiência atípica que reforça em mim a certeza de que é imprescindível a formação acadêmica. Ela não é tarefa das empresas. Grande Marcos Jaimovich! Quantos perseguidos políticos da ditadura militar foram amparados por ele! Com sua ajuda e por seu intermédio, Oscar Niemeyer bancou financeiramente inúmeros exilados em Paris. Morreu esta semana quase anonimamente, como sempre viveu.

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Fonte:  O Globo Online

3 Replies to “CONFUSÃO NO NOSSO ARRAIAL”

  1. Realmente, isso é um absurdo!
    Minha irmã se formou em jornalismo no ano passado e está revoltada com essa nova decisão do STF!
    Só queria entender onde eles querem chegar…
    VLW!

  2. Minha querida amiga Aline,
    sinto-me solidária com sua situação, não por mero senso de “desgraça coletiva” – pois é difícil passar por cima da sensação de identificação pelo fato de que a formação acadêmica da minha profissão também não é valorizada. Quanto mais o supremo (com “s” minúsculo) tirar a prioridade da educação específica mais o país vai se distanciar da excelência. Desde quando alguém com conhecimentos “gerais” é excelente em alguma coisa? Deve existir o conhecimento acadêmico específico, e ele deve ser VALORIZADO.
    Eu poderia sentir pena de uma sociedade que fecha os olhos para coisas “pequenas” (pequenas para eles, mas grandes para quem está envolvido) e deixa-se levar pela falsa afirmação de que jornalista não precisa de formação, mas não tenho pena. O que eu tenho é vergonha de viver num país onde quem se esforça para adquirir um conhecimento é desvalorizado enquanto os que se aproveitam das brechas na nossa lei ganham louros indevidos.
    É isso que sinto: VERGONHA.

  3. Olá, Aline!
    Estou de férias e passando por aqui não poderia deixar de ler seus excelentes posts.
    Bom, ao que me parece, o STF prefere o clínico geral, que de tudo sabe um pouco, ao especialista para tratar de determinado assunto. Ora, é mais prático para “eles” ter jornalismo em cada esquina (sem formação acadêmica) aos bons profissionais. Preocupa-me tal situação, pois pode virar “moda” e ser um efeito cascata para os demais campos do saber.
    Um forte abraço!

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