Concepções literárias em Franklin Távora (por Aline Menezes)

Concepções literárias em Franklin Távora*
(por Aline Menezes)

A característica heterogênea das regiões do Brasil influenciou as concepções do escritor cearense Franklin Távora (1842-1888), em relação ao fazer literário e à obra que ele produziu ao longo da vida, interrompida aos 46 anos de idade. A morte precoce do autor de O Cabeleira (1876), entre outros romances, no entanto, não o impediu de ter sido fundador de uma linhagem ilustre, como disse o crítico literário Antonio Candido em Formação da literatura brasileira (2006). Com base na ideia de formação dessa linhagem regionalista, identificamos que a dinâmica histórica do nosso sistema literário não é linear, mas historicamente complexa.

Uma obra posterior, como é o caso das produções de 1930, é capaz de elevar o sentido de uma anterior, no caso, O Cabeleira, de Távora. Ou seja, não devemos perder de vista que as obras literárias não podem ficar soltas no tempo, isoladamente, mas devem ser analisadas de modo a percebermos as continuidades e os avanços na elaboração das formas estéticas da literatura. A linhagem fundada por Távora só pôde se confirmar pela existência da literatura de outros escritores que o sucederam, a exemplo de Euclides da Cunha (1866-1909), que escreveu Os Sertões (1902).

Távora trouxe para o centro de suas produções literárias protagonistas que, assim como existiam no período em que ele viveu, estariam à margem das possibilidades de progresso e de modernização do país, em uma época na qual o Império acabara de entrar em crise. Ele estruturou a narrativa d’O Cabeleira em torno de cenas e personagens vinculados à realidade imediata, à experiência do cangaço e à vida de matutos, jagunços, pardos, negros, mulatos, brancos, entre outros tipos legendários, dando visibilidade pública a eles. É o caso do personagem principal que dá título a seu romance. O autor narra a trajetória do menino José Gomes, ambientada na então província de Pernambuco, até a transformação do garoto no bandido Cabeleira.

No artigo “Do beco ao belo: dez teses sobre o regionalismo na literatura”, publicado em 1995, a professora e pesquisadora Ligia Chiappini aponta que o regionalismo aproximou de modo solidário “o leitor da cidade do homem pobre do campo”, ajudando-nos “a vencer preconceitos, respeitar a diferença e alargar nossa sensibilidade ao descobrir a humanidade do outro de classe e de cultura” (p. 154). Em seu texto, Chiappini relativiza os juízos sobre as tendências regionalistas.


Acerca das tensões estabelecidas entre o universalismo e o localismo da literatura brasileira, existe a impossibilidade de que Franklin Távora, por exemplo, pudesse produzir uma obra que fosse capaz de construir um modelo de representação literária efetivamente nacional. Além disso, a peculiaridade do seu regionalismo deu a ver outro dilema: o confronto entre o local Norte e o local Sul; naquela época, já se demonstrava a complexidade da sociedade brasileira, assim como da nossa literatura. O localismo de Távora assumiu uma forma diferenciada. O projeto literário nortista do autor tinha como objetivo central destacar as diferenças regionais entre Norte e Sul, no contexto brasileiro da segunda metade do século XIX, em que o Nordeste era chamado de Norte.

A pretensão do escritor cearense era impedir que o caminho a ser pavimentado pela nossa história literária se fizesse largando à margem representações “genuinamente brasileiras”. Para ele, o que estava sendo gestado naquele período era o equívoco de uma literatura distanciada de “homens que vivem como feras”. N’O Cabeleira, especialmente, Távora evidenciou que, no Norte do Brasil, ainda predominavam a ignorância, o atraso cultural, econômico, político, além da pobreza, fatores que – na opinião do autor – eram responsáveis pela degradação social e pela barbárie. E, para dizer isso em forma literária, também se utilizou do sertão e do regionalismo.


Em relação aos elementos naturalistas e ao problema da representação da realidade no romance, Távora buscou aproximar-se da realidade nordestina, criando um protagonista que se transforma ao longo da narrativa, de modo que o ambiente social, a noção de hereditariedade e a violência fatal constituem forças propulsoras do destino inevitável do personagem. Embora os traços genéticos que prevalecem no jovem Cabeleira sejam os da mãe, Távora não poupou o bandido de seu desfecho trágico. Aqui reside, portanto, a opção do escritor pela fidelidade ao “real”, pela realidade sem tapeação, para lembrarmos uma das crônicas de Graciliano Ramos (1892-1953).

Mesmo com a impossibilidade de realizar um romance esteticamente tão bem acabado e articulado como um mundo de contradições inseparáveis, a exemplo dos escritores de gerações seguintes, compreendemos que Franklin Távora, ao seu modo, conseguiu formular esteticamente um mundo de tensões. Esse mundo de tensões, portanto, foi mais do que identificado na aridez do sertão nordestino.

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*Este texto foi publicado no Jornal Rima – DF, da Academia Planaltinense de Letras, Artes e Ciências (Aplac), edição nº 33, Ano IX, referente ao trimestre out., nov. e dez. 2019. Ele é uma síntese das considerações finais da minha dissertação de mestrado em Literatura e Práticas Sociais, intitulada “Tensões, aridez e realidade no romance O Cabeleira, de Franklin Távora” (2012), defendida na Universidade de Brasília (UnB).

Referências (algumas)

CANDIDO, Antonio. Formação da literatura brasileira: momentos decisivos. 11ª ed. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2007.
CHIAPPINI, Ligia. “Do beco ao belo: dez teses sobre o regionalismo na literatura”. Estudos históricos. Rio de Janeiro, v. 8, n. 15, 1995, p. 153-159.
CUNHA, Euclides da. Os sertões: Campanha de Canudos. 25ª ed. Rio de Janeiro, 1957.
RAMOS, Graciliano. Norte e Sul. Linhas tortas. 21ª ed.. Rio de Janeiro: Record, 2005.
RAMOS, Graciliano. Os donos da literatura. Linhas tortas. 21ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2005.
TÁVORA, Franklin. O Cabeleira. 6ª ed. São Paulo: Ática, 1993.

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