PELAS OPERÁRIAS, POR ALANA, POR TODAS NÓS

Sem sexismos.

Estavam lá: as operárias de uma fábrica de tecido. Em homenagem a elas, hoje celebramos o Dia Internacional da Mulher. O trágico incêndio que matou, em Nova York, mais de 130 tecelãs é um símbolo da luta por melhores condições de trabalho. Contra as injustiças sociais. Contra a violência. A favor de mim e de você.

Não estamos mais em 1857. Dois mil e sete é o seu nome. Um ano lamentavelmente inesquecível para os pais de Alana Ezequiel, a menina de 12 anos que foi baleada e morta durante troca de tiros entre policiais e bandidos, no último dia 5 de março, no Rio de Janeiro. O desespero da família de Alana ficou estampado nos jornais, assim como a luta das operárias estará estampada no 8 de março de todos os anos.

Não quero despertar poesia. Faço apenas uma melancólica homenagem a todas as mulheres e meninas que se foram…

Sem que, ao menos, houvesse um amanhã!

Um amanhã sem violência.

Sem choros.

… lágrimas.

PÁTRIA QUE ME PARIU

Tão logo um crime bárbaro acontece e, repetidamente, é divulgado pela mídia, os legisladores brasileiros retomam as discussões sobre a criminalidade em nosso país. Desta vez, a pauta é a “redução da maioridade penal”. Figuras públicas “resolvem”, às pressas, dar uma resposta à sociedade e se esquecem de que o maior problema não é criar leis capazes de combater os efeitos do crime. O desafio é combater as causas da criminalidade.

Aqui, é moda citar a Inglaterra e os Estados Unidos como exemplos de países que julgam réus adolescentes como réus adultos. Nada mau! Até porque também creio que um adolescente de 16 anos é, sim, capaz de discernir seus atos. Porém, o Brasil nem de longe se parece com países desenvolvidos. Nosso sistema carcerário é ridículo, os presídios nada têm de “reformatórios” e o Estado brasileiro é negligente, incapaz e irresponsável em relação ao cumprimento de suas atribuições.

Por onde anda o Estado quando encontramos crianças de rua? Onde estão nossos legisladores quando um turista paga “pelas nossas meninas”? Onde estão as autoridades para impedirem o trabalho infantil, a evasão escolar?

De tudo o que já ouvi sobre reduzir a maioridade penal de 18 para 16 anos, desde as declarações irracionais até as mais ponderadas, achei razoável a observação de um advogado:

Nenhum político, ninguém quer discutir as causas do crime, porque todos sabem que se trata de uma questão complexa, a longo prazo; para eles, é muito mais fácil discutir leis de punição aos criminosos.

Definitivamente, não vejo nenhum sucesso na redução da maioridade penal. E não me venham dizer que seria um “bom começo”. Aliás, o Código Penal já está cheio de bons começos. E nem por isso eles impediram a violência generalizada do Brasil.

HOLLYWOOD, CRISTAIS SWAROVSKI & US$ 2 MI

“Há dias que não temos o que comer em casa”, disse um pai.

Os contrastes sociais sempre me comovem mais do que a própria pobreza. Penso que ninguém deve ser discriminado por ter muita grana, da mesma forma que ninguém deveria morrer de fome por não ter grana nenhuma.

Há muita gente preocupada em vestir apenas as grifes. Há muita gente de olho na marca do sapato que você calça. Há muita gente louca pra ter mais um carro importado. Há muito rico idiota. Há muito pobre idiota. Porém, mais idiota que o rico e o pobre idiotas é o homem insensível!

A vida como ela não é

Ela tem apenas sete meses de idade. Seu nome é Suri. Filha de um dos casais mais badalados das últimas semanas: Tom Cruise e Katie Holmes. No casamento realizado em Roma, a menina vestiu um Armani de organza e chiffon. O vestido de Katie era de seda marfim com um laço coberto de cristais Swarovski.

O casal gastou dois milhões de dólares pela cerimônia. Embora eu goste de matemática, não entendo o que significam US$ 2 milhões…

… tudo bem, isso não é da minha conta!

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A partir de hoje, meus textos serão exibidos sob o nome de uma editoria. A de hoje é “Sociedade”.

NO FOOD

Uma beleza entre aspas

Sueli é uma adolescente de dezesseis anos, filha mais nova de um casal pertencente à pequena burguesia. A anorexia começou aos doze anos durante as férias com seus pais. Queria perder peso, então decidiu mudar sua alimentação, “torná-la mais saudável”, segundo ela. No começo, foi apenas uma mudança nos alimentos habituais, mas que ao longo de algum tempo transformou-se numa árdua tarefa de transpor os limites do seu corpo. (1)

“Queria ser seca, não ter um pingo de gordura.” (Sueli)

Tão fácil como encontrar uma criança que gosta de sorvete, é encontrar revistas de moda cultuando o perfil “mulheres magérrimas”. Espaço na mídia tem de sobra para esse tipo de abordagem. Talvez, por isso, o culto à magreza esteja longe de acabar, ainda mais quando somos bombardeadas, diariamente, por “10 formas de como perder peso em 10 dias”; “aprenda a perder peso e se tornar uma Kate Moss (2)”; “os 100 segredos da beleza de Gisele Bündchen (3)”, e por aí afora.

Neste momento, a notícia mais recente que temos sobre as graves conseqüências de quem persegue a “imagem corpórea da magreza” é a da modelo Ana Carolina Reston Marcan, 21, morta por anorexia nervosa. (Ver outra notícia)

O drama de Carolina Reston trouxe de volta uma antiga discussão: a anorexia. “Anorexia nervosa é um transtorno alimentar quase exclusivo das mulheres. Elas constituem 95% dos casos e o número não pára de aumentar, principalmente na faixa dos 12 aos 18 anos. Infelizmente, na internet há vários sites em que meninas anoréticas trocam receitas para emagrecer cada vez mais e exibem com orgulho seus corpos esquálidos”, disse o médico Drauzio Varella, durante exibição do 12º episódio do “Questão de Peso”.

Quando assisti pela TV à reportagem sobre a morte da modelo, vim para a internet e vi um número enorme de matérias e artigos sobre o assunto. A vítima fatal da ditadura da “beleza” (ou da magreza?), desta vez, tinha sido uma menina de 21 anos, que queria seguir o sonho de ser modelo, de desfilar pelas maiores grifes do mundo, de permitir à família condições melhores de vida. Quase ninguém do meio da moda quis falar sobre o assunto. E os que falaram, a maioria minimizou a tragédia. Por que será? Restou o espaço para os psiquiatras, psicólogos e nutricionistas. Nas entrevistas (4), senti falta de figuras como sociólogos e antropólogos. Uma pena! Certamente, eles teriam (e têm) muito o que dizer.

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(1) GIORDANI, Rubia Carla Formighieri. A Experiência Corporal na Anorexia Nervosa: Uma Abordagem Sociológica. Dissertação de mestrado em Sociologia. Universidade Federal do Paraná. Curitiba, 2004.
(2) A modelo britânica Kate Moss, nos anos 90, foi a musa da grife Calvin Klein, exibindo seu “look” esquelético.
(3) Gisele Bündchen tem 1,79 cm de altura e 52 quilos. O seu Índice de Massa Corporal (IMC) é de 16,23. Ou seja, abaixo do mínimo de 18,5. Dizem que ela é magra naturalmente.
(4) Entrevista com Mauro Fisberg.

LOIRA, BONITA, ESTUDANTE DE DIREITO, CULTA,

Não é possível reconhecer um assassino antes que ele mate

Reproduzi as palavras da pesquisadora Ilana Casoy, especialista em estudar a mente de criminosos.

Autora de “O Quinto Mandamento – Caso de Polícia”, livro que conta detalhes da investigação da polícia sobre o caso Suzane von Richthofen, Ilana diz que “muito mais do que cometer um parricídio e um matricídio, que acontece vez por outra o ano inteiro, o que provavelmente desperta a curiosidade das pessoas é o fato de aparentemente Suzane ter o perfil clássico da filha que todos gostariam de ter. Loira, bonita, estudante de Direito, culta, trilíngue, filha de pais bem-sucedidos”.

Desde criança, ouço/vejo histórias de assassinatos em família. E nunca compreendi quais são, de fato, as motivações para determinados tipos de crime. Não quero entrar em questões religiosas (embora elas tenham lá as suas razões), quero apenas provocar o leitor para o que eu considero “seríssimo”:

Participar de um júri popular.

Afinal, como decidir à luz da Justiça?
Quem disse que é possível ser imparcial?
E o que representa essa imparcialidade?
Suzane e os irmãos Cravinhos têm o mesmo grau de culpabilidade?
O que diferencia o matador do “mandador”?
O que executa é mais cruel do que manda executar?
E o Andreas? Perdeu o pai; perdeu a mãe; perdeu a irmã (sim, pelo menos ele perdeu a Suzane-antes-do-crime)…

Sei. São questões primárias demais.

Sim, eu sei. A lei pode me responder essas perguntas. Pelo menos, de uma maneira ‘tecnicista’.

Mas eu não sou a lei. Ou sou? Você também não é. Ou é?

(…) do ponto de vista da consciência…

E a consciência, para mim, suplanta a lei. Ou é a própria lei…