Louise

[…] os povos do mundo deveriam exigir que se realizem investigações e se julgue aqueles que planificam fazer a guerra no corpo das mulheres. (Rita Segato, antropóloga argentina e professora da UnB)

Ela não sabia, nem nós
por Aline Menezes

Frequento a Universidade de Brasília (UnB) desde 2003. Lá, fiz cursos de inglês, espanhol, especialização, mestrado e agora doutorado. Em pouco mais de uma década, tive a sorte de conhecer professores e colegas inteligentes, adoráveis e íntegros, mas também tive a infelicidade de deparar com professores e colegas asquerosos, repugnantes, não apenas pela arrogância e (acreditem!) ignorância deles, mas porque alguns manifestam comportamentos bastante agressivos, desvirtuados e, na minha opinião, psicopáticos.

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poetic

Querer-se livre é também querer livres os outros. (Simone de Beauvoir)

Poéticas contemporâneas
por Aline Menezes

O poeta baiano Damário da Cruz (1953-2010) escreveu certa vez que “a vida dura menos que um poema”. Em “Gran finale”, ele se despede do mundo com a certeza de que aquele seria o seu último verso e transforma a ameaça da sua própria morte em poesia, expondo por meio da linguagem o modo com o qual ele saiu de cena.

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stupidity

A educação é o ponto em que decidimos se amamos o mundo o bastante para assumirmos a responsabilidade por ele… (Hannah Arendt)

Vamos celebrar a nossa estupidez
por Aline Menezes

Na ausência de bons argumentos, de raciocínios que realmente sejam fruto de reflexões aprofundadas sobre os fatos e que não sejam reproduções falsificadas do senso comum, parece natural que uma das primeiras manifestações das pessoas – quando estão diante de debates “polêmicos” – seja a tentativa de desqualificar ou desvalorizar lutas legítimas como, por exemplo, a dos movimentos negros, feministas e LGBT.

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son

O opressor não seria tão forte, se não tivesse cúmplices entre os próprios oprimidos. (Simone de Beauvoir)

O filho que eu não gostaria de ter
por Aline Menezes

Para a pergunta comum e equivocada sobre se eu gostaria de ter um filho gay: em primeiro lugar, não entendo a homossexualidade como desvio de conduta, safadeza, vergonha, anormalidade ou condição desprezível de existência… Entendo-a da mesma maneira que percebo a heterossexualidade. Portanto, não encontro na questão nenhuma razão para que eu “tivesse medo” de ter um filho ou uma filha que se manifestasse sexualmente diferente de mim.

Discordo de todos aqueles que tentam marginalizar a expressão sexual alheia porque ela não está ajustada ao comportamento heteronormativo. Até porque o que me interessa nas pessoas não é a sexualidade delas, mas o seu caráter, a sua inteligência e a sua capacidade de respeitar a vida do outro e de intervir no mundo de maneira lúcida, honesta, justa e benéfica.

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Women’s Day 2015

ENSAIO

8 de março: conquistas e controvérsias
Por Eva Alterman Blay

[…] No Brasil, vê-se repetir a cada ano a associação entre o Dia Internacional da Mulher e o incêndio na Triangle, quando na verdade Clara Zetkin o tenha proposto em 1910, um ano antes do incêndio. É muito provável que o sacrifício das trabalhadoras da Triangle tenha se incorporado ao imaginário coletivo da luta das mulheres. Mas o processo de instituição de um Dia Internacional da Mulher já vinha sendo elaborado pelas socialistas americanas e européias há algum tempo e foi ratificado com a proposta de Clara Zetkin. […]

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women

Não pode ser seu amigo quem exige o seu silêncio. (Alice Walker, escritora e ativista feminista)

O que se esconde por trás da expressão “mulher de respeito”?!
Por Aline Menezes

O título escolhido para abrir esta publicação exigiria a produção de artigo, ensaio, capítulo de livro ou livro, mas nunca texto relativamente curto e superficial como este que me proponho a escrever. No entanto, como faço parte do grupo de mulheres e homens que lutam pelo fim de toda e qualquer forma de violência contra a mulher, senti-me impelida a levantar aqui breves reflexões sobre o assunto, postura que já tenho adotado efetivamente há, pelo menos, dez anos.

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beauty

O alferes eliminou o homem. (Machado de Assis, “O espelho”)

Da beleza que nos ameaça todos os dias
Por Aline Menezes

Recuso o imperativo de que preciso ser bela. Rejeito qualquer tentativa de compra da ilusão de que meu corpo necessita de aprovação alheia para manter-se em paz com o cosmos. Abro mão das unhas pintadas diariamente porque isso me custa dinheiro, tempo e disciplina que não possuo, que não me pertence e que ainda não me interessei em conquistar, e tenho a desculpa de que unhas também precisam de respiração. Mas me mantenho regular em muitos outros cuidados. Entendo que a aparência física nos importa e que há outras questões no meio do caminho. Penso em tudo isso porque tenho o péssimo hábito de levar em consideração os detalhes, de querer combater solitariamente a brutalidade com que tudo em nossa volta é conduzido.

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women

Não se nasce mulher: torna-se. (Simone de Beauvoir)

Madame Bovary não sou eu. E se fosse?!
por Aline Menezes


Grande parte da sociedade ainda pensa que a violência contra a mulher não acontece sem que a mulher tenha feito algo para “merecer”. Ou seja, de um modo ou de outro, determinadas concepções – submetidas à lógica machista – vão sempre buscar justificativas para as ações agressivas, violentas e brutais contra o sexo feminino. Um exemplo disso é a tentativa de culpar as vítimas de estupro pelo tamanho de suas roupas. Ainda é lamentável constatar a ignorância de muitas pessoas em relação ao que seja violência.

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injustice

A violência, seja qual for a maneira como ela se manifesta, é sempre uma derrota. (Jean-Paul Sartre)

A injustiça dos justiceiros
por Aline Menezes

Não é preciso ver as imagens do linchamento e morte de Fabiane Maria de Jesus para nos posicionarmos contra a estupidez, a brutalidade e a violência praticadas recentemente por dezenas de moradores do Guarujá, no litoral paulista. Também não é necessário acompanhar pelos vídeos divulgados nas redes sociais o momento em que a dona de casa foi agredida, arrastada, espancada, xingada e acusada injustamente de ter sequestrado crianças para rituais de magia negra. Nem sequer precisamos relembrar o discurso lamentável de quem quer que seja, reproduzido na TV sob o falso e perigoso argumento de que estamos todos cansados de tanta impunidade no Brasil.
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garden

A arte existe porque a vida não basta. (Ferreira Gullar)

Sobre os jardins da cidade urino pus
por Aline Menezes

Não gosto de ambientes que tenham a pretensão de vender felicidade e satisfação. E não gosto disso por duas razões simples: eles são constrangedores e todos são descaradamente iguais. 

Em lugares como esses, por exemplo, se pensarmos nos shoppings centers (há vários outros tipos de ambientes cuja pretensão é a mesma), ao olharmos pelas vitrines das lojas e avistarmos uma peça feminina no valor de R$ 850, de design e tecido simples, que poderia ter sido costurada pela minha avó (não estou com isso dizendo que as costuras da minha avó não mereceriam ser mais valorizadas ou que não poderiam ser sofisticadas), percebo o funcionamento das coisas e, quase involuntariamente, sinto-me fracassada diante dos ideais nos quais acredito e pelos quais luto. 
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