special

Eles eram mitos e cavalos
por Aline Menezes*

Aprendi com minhas irmãs mais novas que os bichos são tão especiais quanto os seres humanos, pois a vida – no sentido mais abrangente e filosófico de todos – não está limitada a valores antropocêntricos. Aprendi com minha irmã Cecília que as plantas, as árvores e as aves podem ser tão poéticas quanto os versos de autoras brilhantes. Aprendi, inclusive, que a beleza da nossa existência no mundo não está apenas naquilo que podemos tocar com as mãos, com o corpo; antes, é o que sentimos com a inteligência, com a alma e com a sensibilidade que mais importa.

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education

A culpa é de quem?
por Marcos Fabrício Lopes da Silva*

É assustador saber que, no Brasil, não é ponto pacífico erradicar a pobreza, empoderando quem se encontra à margem do processo de desenvolvimento do país. É extremamente preocupante acompanhar pensamentos que defendem privilégios e ignoram direitos. Nesse sentido, Giuliana Ortega, diretora executiva do Instituto C&A, no artigo “Oportunidades na cultura de doação” (Estado de Minas, de 14/7/2006), defende uma tortuosa linha de raciocínio, a saber: “Na década passada, por exemplo, a vitalidade econômica do país e o aumento do poder aquisitivo das classes mais pobres acabaram por induzir organismos multilaterais e de cooperação, bem como as fundações internacionais, a direcionarem para outros países recursos que antes vinham para o Brasil”.

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fascism

Fora criada sozinha, só com a mãe. Tinha mais um irmão que pouco brincava com ela, pois acompanhava o pai no trabalho da roça, nas terras dos brancos. Ela e a mãe ficavam dias e dias sem ver os dois. (Conceição Evaristo em Ponciá Vicêncio)

Por quem os gritos se prostram
por Aline Menezes

A mineira e economista Dilma Rousseff, especialmente desde que assumiu o primeiro mandato na Presidência da República, sempre teve suas falas editadas e exibidas de modo debochado pelos seguidores dos comandantes fascistas. Na tentativa de silenciá-la, tentaram desqualificar os seus pronunciamentos para nos convencerem de que a chefe do País não estaria preparada para lidar com questões políticas e econômicas. No entanto, sabemos que as reais motivações por trás dessa reprovação desonesta, mediada pela atenção jocosa a seus discursos, são apenas mais um indicativo do quanto nós, mulheres, ainda temos que lutar, por exemplo, contra o sexismo e a misoginia.

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dilma rousseff

O feminismo tem tido um importante papel na demonstração de que não há e nunca houve “homens” genéricos – existem apenas homens e mulheres classificados em gêneros. [..] temos uma infinidade de mulheres que vivem em intrincados complexos históricos de classe, raça e cultura. (Sandra Harding, filósofa e feminista americana)

O valor da fala
por Aline Menezes

Debates sobre o pedido de impeachment à parte, escrevo este texto motivada por inquietações e desconfortos particulares e coletivos que me seguem há muito tempo. Isso porque vivo em um dos países mais violentos e injustos do mundo, principalmente em termos de liberdade e direitos de meninas e mulheres no Brasil.

Desde o primeiro ano do primeiro mandato em que a mineira e economista Dilma Rousseff assumiu a Presidência da República, começaram os primeiros e “pequenos” atos de violência contra a figura feminina (“e pouco feminina”) que ela representava. Na verdade, bem antes disso, já nas campanhas eleitorais…

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Women’s Day 2015

ENSAIO

8 de março: conquistas e controvérsias
Por Eva Alterman Blay

[…] No Brasil, vê-se repetir a cada ano a associação entre o Dia Internacional da Mulher e o incêndio na Triangle, quando na verdade Clara Zetkin o tenha proposto em 1910, um ano antes do incêndio. É muito provável que o sacrifício das trabalhadoras da Triangle tenha se incorporado ao imaginário coletivo da luta das mulheres. Mas o processo de instituição de um Dia Internacional da Mulher já vinha sendo elaborado pelas socialistas americanas e européias há algum tempo e foi ratificado com a proposta de Clara Zetkin. […]

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Dilma Rousseff

CARTA ABERTA À PRESIDENTA DA REPÚBLICA REELEITA NO BRASIL

Querida Dilma Rousseff:

Se não se importa, evitarei aqui certas formalidades e o uso do pronome de tratamento Vossa Excelência. Nesta carta, gostaria de me sentir livre para me dirigir à senhora. Aproveito o dia de hoje para parabenizá-la pelos 54,5 milhões de votos neste segundo turno das eleições de 2014, número que garantiu a sua reeleição.

Tão logo li as manifestações raivosas e preconceituosas de alguns dos contatos do meu perfil no Facebook em relação à sua vitória, confesso que fui tomada por sentimentos pouco cristãos. Por isso, motivada por emoções semelhantes, pensei em dar à senhora alguns conselhos e orientações:

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Eleições 2014

A escola não é de modo algum o mundo, nem deve ser tomada como tal; é antes a instituição que se interpõe entre o mundo e o domínio privado do lar. (Hannah Arendt)

Dilma, Marina e Luciana
(Carta aberta aos meus amigos)

por Aline Menezes

Há alguns anos, Marina Silva e eu participamos de um mesmo seminário: debates sobre a obra de C. S. Lewis, na Igreja Presbiteriana de Brasília, ministrados pela doutora em história e filosofia da educação pela USP, professora Gabriele Greggersen. Numa entrada discreta, silenciosa, Marina Silva sentou-se do meu lado. Cumprimentou com um sorriso aquelas pessoas que logo a reconheceram. Admiro aqueles que lutam por justiça social, admiro pessoas que respeitam o direito à diversidade e que, sobretudo, têm uma história de vida comprometida com as causas do outro. Marina tem o meu respeito e a minha admiração, mas não votei em Marina.

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women

Não se nasce mulher: torna-se. (Simone de Beauvoir)

Madame Bovary não sou eu. E se fosse?!
por Aline Menezes


Grande parte da sociedade ainda pensa que a violência contra a mulher não acontece sem que a mulher tenha feito algo para “merecer”. Ou seja, de um modo ou de outro, determinadas concepções – submetidas à lógica machista – vão sempre buscar justificativas para as ações agressivas, violentas e brutais contra o sexo feminino. Um exemplo disso é a tentativa de culpar as vítimas de estupro pelo tamanho de suas roupas. Ainda é lamentável constatar a ignorância de muitas pessoas em relação ao que seja violência.

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Manifestações

Well, everyone can master a grief but he that has it. 
(William Shakespeare)

A hora do Direito à Cidade
por Alexandre Pilati

Para que a vitória que comemoramos se amplie (e não seja capturada pela direita) é preciso dar-lhe sentido mais profundo

Contrariando todas as expectativas, as manifestações que começaram há duas semanas em São Paulo, com uma pauta de reivindicações bastante restrita, ampliaram-se. Os protestos estenderam-se pelo Brasil inteiro em ruas, praças e arredores de estádios de futebol que recebem a Copa das Confederações. Nesses quinze dias, o que era um movimento bastante vinculado ao aumento do valor da passagem de ônibus acabou agregando, meio caoticamente, demandas de diversas origens da vida social urbana.

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crack

“A única experiência social possível de ser comparada à situação dos atuais viciados em crack não é a dos escravos em qualquer das sociedades nas quais eles existiram, já que mesmo esses escravos, geralmente considerados como ?coisas?, passíveis de serem comprados, vendidos, conquistados ou roubados, ainda nessas condições se mantiveram uma situação existencial de ter o corpo cativo, mas serem ainda donos de uma vontade manifesta ou latente que, ainda que frustrada em suas ações, era ?livre? em seu pensamento e desejo íntimos.”

Crack, corrosão da sociabilidade e inviabilização dos indivíduos
Por Edison Bariani
Sociólogo e professor universitário

De modo surpreendente, já estamos nos acostumando à terrível cena de hordas de indivíduos vagando solitários, perdidos, derrotados e vazios pelas ruas das cidades brasileiras. Os tais ?nóias?, ?zumbis?, ?andróides? ? ou algo do que o estupor popular os chame ? vasculham o lixo das ruas à procura de latas, vasculham o lixo social à procura de drogas e vasculham o fundo da alma à procura de algum sentido para suas vidas desperdiçadas.
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