strange

[…] Procuro, não sei o que procuro. Procuro / um céu passado, a véspera extinta. Meu rosto / vai tão baixo, que antes nos céus ia posto! (trecho do poema A luz de ontem, de Lucian Blaga, poeta romeno)

Strange

Se existe um caminho, ainda não o encontrei. Porque tudo se torna confuso à medida que andamos, que buscamos, que nos entregamos a. Sinto que minha alma hoje está completamente nua, cheia de cortes, ferida, marcada, profunda. É um dia estranho não poder sentir. Não poder tocar. Não ser. De que adianta uma vida inteira pela frente, se. O chão é duro e difícil, perder já não faz diferença, já que ganhar tornou-se impossibilidade.

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everything

[…] porém minha melancolia / é sempre igual: torrões, andaimarias, blocos, / Arrabaldes, em tudo eu vejo alegoria, / Minhas lembranças são mais pesadas que socos. (trecho do poema Quadros parisienses, d’As flores do mal, de Baudelaire)

Everything

É esta insuficiência que parece tornar tudo tão belo. Perverti uma dor solitária, profunda, real. Sinto intensamente a sua presença. Tudo é tão incompleto, moldura de impedimentos e impossibilidades. Mas este sentimento aqui dentro é parte de minha existência, que respira, que pulsa, que vive. É como se todas as coisas belas, bonitas, honestas, íntegras e puras… como se todas elas fossem você. Há admiração mútua, comunhão de ideias, paixão pela vida, apesar de todas as nossas dores e angústias… Há desejos, há vontade de estar junto…

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instability

Só escrevo porque há uma voz dentro de mim que não se cala. (Sylvia Plath, Letters home)

desequilíbrio
(by Aline Menezes)

nada é
bem elaborado aqui dentro,
confuso como sinos que tocam
na hora errada. Que atraem
os fieis errados…
[que não comungam, mas excomungam] o que há por fora de nós.
não há aparência melodiosa quando o que sentimos
é  inexplicável,
indefinível,
inaceitável.
pensamentos que se desdobram querendo revelar alguma coisa, talvez indizível,
(…)
(…)
mas que respira, pulsa e quer viver.

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to bleed

Love is a shadow. (Sylvia Plath)

Às vezes, não sabemos o que temos conosco nem o que realmente somos. Tudo fica confuso dentro de nós. Tudo é apenas escuridão. A dor nos engana. Até o dia em que entendemos: é Deus quem sempre nos livra de nós mesmos…

TO BLEED
(by Aline Menezes)

It bleeds in me a silent and pure pain,
It bleeds in me a profane and noisy desire.
Tears that stream down from a hanging heart,
That still resists this worthless life.

My soul and my body confuse themselves
While I hope that you search for me.
I get down on my knees before God and I beg
For peace and faith find you.

I love you everyday, every night,
Every moment measured by my breath.
Nobody will ever feel how much
This broken and lonely heart bleeds.

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no side

A paz já se diluiu rapidamente na luz dos dias vulgares. (Virginia Woolf)

Perto demais

Sob o manto de uma paisagem bucólica, encontro-me densa, profunda, infinita. Atravesso o desejo, impetuoso sempre, sutil, inexplicavelmente sutil. Sinto-o, sinto-me, toco-me. Apenas sabemos a grandeza desta catedral, construída há anos sob a aparência de uma frágil capela. Cada dia, volúpia ingênua, nua. Sobe e desce lentamente, len ta men te. Mais uma vez: nenhuma daquelas experiências me fez sentir tão viva quanto o dia em que… Sim, meus pensamentos ecoam.

Neste corpo cálido, pálido, inválido, a embriaguez vulgar dos dias frios. Estas árvores, arbustos, plantas… cenário. Sob o manto de uma paisagem bucólica, encontro-me densa, profunda, infinita. Concentro-me, tento, revolvo a leve loucura deste dia. Intrepidez necessária. Insinuo, diminuo, continuo… Permaneço em silêncio, rio dias a fio, choro, imploro, procuro, admiro. Inquieto-me numa tensão insuportável, portátil.

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jouissance

(…) Je t’en rendrai quatre plus chauds que braise…. (…) Permets m’amour penser quelque folie… (Louise Labé in Baise m’encore)

O coração inóspito carece de suave erotismo, ou pelo menos da suspensão temporária do fôlego. É necessário parar sempre; é preciso repetir também. Há momentos nos quais a razão é a pior das incoerências. E quem disse que é disto que necessitamos: das coisas comedidas? Dois gramas de loucura devem nos fazer bem em alguma circustância. Só não sei em qual.

Equívoco é considerar o outro finito, estabelecido. Sabe-se lá o que se passa em nossas entranhas, no interior de nossas impurezas, no fingimento das cores, dos sotaques e das sensualidades forçadas. Manifestações artísticas – assim como a literatura – requerem deslumbramento, não do tipo alienante. Mas criado pela dilatação do espírito. Inalcansável.

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PONTA DE AREIA

by Van Gogh

Composição: Milton Nascimento e Fernando Brant

Ponta de areia, ponto final
Da Bahia-Minas, estrada natural
Que ligava Minas ao porto, ao mar
Caminho de ferro, mandaram arrancar
Velho maquinista com seu boné
Lembra o povo alegre que vinha cortejar
Maria fumaça não canta mais
Para moças, flores, janelas e quintais
Na praça vazia, um grito, um ai
Casas esquecidas, viúvas nos portais

by Van Gogh

EM QUATRO ATOS

A GAIVOTA

encenações, teatro, Anton
inda dura o tempo entre atos
emoções, lágrimas do horror
finge que fingir
é o voo de partida
mas a vida descortina
o espetáculo da dor

De tempos em tempos, tudo se repete. Pessoas vão e voltam. Ideias pouco originais ocupam espaços importantes em nossas vidas. Medos idiotas, intrigas sem sentido, nervos à flor da pele, crises de hipertensão. Entramos em pânico, olhamos atentamente o tilintar das taças de cristais. Ouvimos ou não.

O que nos espera tem vários nomes. Alguns possíveis, outros improváveis. Antes, há coisas parecidas com o Teatro de Moscou: ouvimos falar, mas não tivemos contato. E por aí vai. Tenhamos certeza de que viver acuado é morrer de sede. Ou padecer de desidratação. Deve ser tudo a mesma coisa.

[…] Mas isso só acontecerá quando, pouco a pouco, ao fim de uma longa série de milênios, a lua, a luminosa Sírius e a terra se houverem transformado em poeira…, disse Nina. Ainda não sabemos se ela está certa. E também pouco nos importa isso.

Atos heroicos podem ser enganosos. E também li que “nas obras de arte, deve haver um pensamento claro, bem definido”. Será? Não me contaram abstração. Quem sabe são os caminhos pitorescos da palidez humana. Voltemos a defender: de tempos em tempos, tudo se repete.

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Escrevi o poema “A gaivota” em 25 de janeiro de 2009, data de aniversário de uma de minhas irmãs caçulas.

AGNES DE DEUS

A boa poesia é a música da matemática. Números que cantam. Olhem além das palavras para compreenderem os seus sentidos. (Dr. Fredericks, personagem do filme O bom pastor)

Desde a infância, tenho o hábito de guardar frases. De identificá-las nos livros, nas músicas, nas ruas e no cinema. Há sempre alguma frase que traduz perfeitamente a maneira como percebemos a vida. Como sentimos as pessoas. Como identificamos o nosso lugar no mundo. Haverá alguém que já disse o que gostaríamos de dizer. Que já pensou o que poderíamos pensar. Ou até mesmo o que nem pensaríamos. Ou nem diríamos. E nada me parece novo. Ainda que dito pela primeira vez.

A bondade humana é um mito. E somente alguém não-humano seria capaz de produzir tanta beleza na vida. De plantar no homem e extrair dele alguma coisa boa. Sim, chamem-me de incrédula. Mas é assim que é. Somos todos tolos. E pensamos que somos mais que isso. Pergunto-me: como sobrevivem as pessoas demasiadamente insensíveis? Não sei. Nada há de mais atraente do que a linguagem da alma perspicaz. Mesmo que ela nos pareça piegas. E eu rio de nossa capacidade fantasiosa e infantil de considerarmos o outro anjo.

O homem não me surpreende.

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O bom pastor (2006, EUA, The Good Shepherd) – filme dirigido por Robert De Niro, com Matt Damon (Edward Bell Wilson), Angelina Jolie (Clover/Margaret Ann Russell), Alec Baldwin (Sam Murach), William Hurt (Philip Allen), Billy Crudup (Arch Cummings), Joe Pesci (Joseph Palmi), John Turturro (Ray Brocco) e Michael Gambon (Dr. Fredericks) no elenco.