sauvage

Sempre me defendi da hostilidade com muita candidez. (in As teorias selvagens, Pola Oloixarac, p.75)

É este desassossego que me acalma. Que me liberta da prisão do mundo. Que me dá a certeza de um não conformismo, passividade brutal e alienada. Ideias confinadas, à espera da segurança necessária para a exposição. Este silêncio exato, contado, medido, rasgado. É este desassossego que me levanta todas as manhãs e que não me tira o sono completamente.

Meu espírito é morfossintático. E não importa o que isso signifique. Ele é proparoxítono, silábico, abstrato. Mas é ele que sinto: esta inquietação, reboliço, agitação de coisas, sentimentos, às vezes. Locução.

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luna

Nada pode durar tanto, não existe nenhuma recordação que, por intensa que seja, não se apague. (Juan Rulfo, Pedro Páramo, p. 107)

Exceto pelo barulho que ouço, esta noite está silenciosa. Lembro-me, apesar das falhas, de quando andava pelas ruas de minha  pequena cidade. As coisas eram maiores naquela época; as casas eram mais distantes. O tempo não parecia tão sufocado, muito menos apressado. Tudo parecia bom. Mas, no fundo, eu sentia as emoções bem de perto.

Talvez desde sempre houvesse esta necessidade de me inquietar: algo sem nome; sem precisão; sem aparência. Vez ou outra, apego-me ao que ainda será. Transito entre aqueles espaços largos da avenida onde quase nasci e a agradável sensação de estar nesta arquitetura do cerrado. Prefiro esta minha incansável inexatidão.

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oppression

Human sexual life will always be subject to convention and human intervetion. It will never be completely “natural”, if only because our species is social, cultural and articulate. (Gayle Rubin, p. 199)

A opressão das mulheres e a subordinação social, termos recorrentes no ensaio de Gayle Rubin, de fato não são assuntos tão simples quanto podem parecer e, por isso mesmo, exigem leitura mais ampla da questão. No clássico The traffic in women, Rubin tenta nos apresentar definições mais elaboradas sobre o que ela chama de “sistema de sexo/gênero”. E afirma que esse sistema “envolve muito mais do que ‘relações de procriação’, reprodução no sentido biológico” (p. 167).

Nossas avós e bisavós, não muito longe as nossas mães, dificilmente (ou quase nunca) se sentiam à vontade, muito menos livres (ainda mais porque não eram), para expressar seus desejos ou suas percepções acerca do sexo ou da sexualidade. Aliás, nem elas mesmas se permitiam “querer” falar. Clitóris, orgasmo, pênis, entre tantas outras, eram palavras inexistentes nesse universo ou, pior, impronunciáveis. Sentir prazer sexual não era coisa de ‘fêmea’, mas uma espécie de direito do ‘macho’.

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shadowlands

A morte existe e, seja lá o que for, ela importa. Tudo o que acontece traz consequências, e tanto a morte como as consequências são irrevogáveis e irreversíveis. Você pode, do mesmo modo, dizer que o nascimento não importa. Ao olhar para o céu noturno, pergunto-me se há algo mais certo do que isto… (Lewis, p. 39)

Rápida e indigesta: assim defino esta sociedade fast food, que não tem tempo sequer para as experiências abstratas. Que não mais assimila a solidez dos amores perdidos (ou presentes). Que nos faz adquirir coisas e sensações estúpidas, a exemplo dos meus medos de raios e cigarras. Não são as lágrimas piegas que procuro, mas o encantamento da vida que pulsa em profusão.

Busco o desespero em suaves doses de melancolia. O sentido exato de nossas perplexidades, as contradições internas e em simetrias. Valores meus, só meus. Sem donos nem rostos nem definições, assim: temporariamente sem vírgulas. Minha fé não está em abandono. Ela é concreta – mesmo quando não a sinto tão perto. Tão grande. Tão convicta de ser quem ela é.

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CARTAS A UMA SENHORA AMERICANA

É raro o ser humano mostrar-se totalmente sincero ou totalmente hipócrita. A disposição muda, seus motivos são confusos e ele em geral se engana bastante em relação a quais sejam seus motivos… (C.S.Lewis)

O escritor irlandês C.S.Lewis (1898-1963), durante os últimos treze anos de sua vida, trocou correspondências com uma americana. Lewis e a senhora dos Estados Unidos nunca se encontraram pessoalmente. Mesmo fragilizado pelos seus problemas de saúde (sem contar com o período em que sofreu a perda de sua mulher Joy), ele sempre demonstrou em suas cartas a preocupação com o outro. A honestidade de quem sabe de suas imperfeições e, nem por isso, esconde-se por trás de suas virtudes.

No início, pensei que Cartas a uma senhora americana me daria apenas o prazer de ler as cartas escritas por um bilhante escritor, aquele ser inatingível e inacessível aos olhos dos fãs. Até o momento em que enxerguei a beleza do homem Clive Staples Lewis (Jack, se preferir). Aquela beleza sobre a qual escrevo de vez em quando. E que admiro sinceramente. Beleza que não se encontra com facilidade, que não está à venda, que quase nunca encontramos no ambiente de trabalho, no meio acadêmico, nas ruas da cidade, na esquina, nem nas lojas Tiffany’s.

A simplicidade de quem revela dor: “… Não posso descrever a aparente irrealidade de minha vida desde então [a morte de Joy]. (…) Tentarei escrever de novo quando tiver mais controle sobre mim mesmo”. A certeza de que deveríamos, sim, viver como os lírios dos campos. Deveríamos, sim, compreender o quanto somos miseráveis. E que, se há alguma beleza em nós, não é fruto da seleção natural. Nem muito menos dos nossos antepassados. Se há alguma beleza em nós, sejamos gratos, afinal de contas…

… “um homem com as mãos cheias de pacotes não pode receber um presente”.

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LEWIS, C.S. Cartas a uma senhora americana. Tradução Lenita Esteves. São Paulo: Editora Vida, 2006, pp. 91, 112 e 120.

C’EST LA VIE

Quem nunca achou que a sua vida não valia a pena finge ter aprendido a ser sacerdote, mais do que ser clérigo. Estamos cansados de acreditar no amanhã. Porque estamos cansados da repetição do hoje. E das angústias que nos causou o dia anterior. Mas, alcancemos um tempo mais longe e mais puro.

Quem nunca achou que a sua vida não valia a pena finge ter aprendido a ser sacerdote, mais do que ser clérigo. Estamos cansados de vacilar. Porque não cansamos de insistir. E me pergunto o que significa ?a existência precede a essência?. Primeiramente, existimos, entramos no mundo, descobrimo-nos. Este é o meu desespero humano: descobrir-se.

Quem nunca achou que a sua vida não valia a pena finge ter aprendido a ser sacerdote, mais do que ser clérigo. E bem nos disse o poeta russo: ?mal a noite se torna madrugada/cada qual a seu trabalho vai?. E, nessas horas, estamos sempre sozinhos, com toda a responsabilidade das escolhas, disse-me um amigo.

Somos demasiadamente incompetentes. ?Uma coisinha de nada pode perturbar-me mais que o ataque mais perigoso, que a mais penosa das situações?, escreveu Johannes a sua querida Cordélia. De fato, a vida é cheia de mistérios.

Somos mesmo como protozoários – solitários e coloniais. Riram-se os tolos. Desses que não enxergam a angústia do existir. E pensam que é a vida.

O resto não importa.
Tal é o meu lema,
igual ao do sol.

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MAIAKOVSKI, Vladimir. Vida e poesia. São Paulo: Martin Claret, verão de 2007, pp. 102 e 103.
KIERKEGAARD, Sören. Diário de um sedutor. São Paulo: Martin Claret, verão de 2006, p. 131.

DEVIA TER ARRISCADO MAIS E ATÉ ERRADO MAIS

E quando o caminho que escolhemos (ou fomos induzidos a escolher) não é exatamente aquilo que pensávamos ser? E quando as nossas certezas se despedaçam no ar e se transformam em dúvidas traiçoeiras? E quando não sabemos mais como amar? Nem muito menos o que é amor? E quando nos falta paixão? Não aquela que devassa a alma, mas aquela que nos revigora o espírito? E quando o desejo ardente de conhecer o outro é mais santo do que a decisão do celibato? E quando não temos vergonha de transgredir, simplesmente porque não havia outro caminho que nos conduzisse ao céu? E quando o profano se torna santo e o impuro se purifica? E quando as coisas, embora ilegais, são morais? E quando as coisas, embora imorais, são legais? Não sei.

Do mesmo deserto, à mesma noite, sempre meus olhos cansados acordam à estrela de prata, sempre, sem que se emocionem os Reis da vida, os três magos, o coração, a alma, o espírito. Quando iremos, para lá das praias e dos montes, saudar o nascimento do trabalho novo, a sabedoria nova, a fuga dos tiranos e dos demônios, o fim da superstição, adorar – os primeiros – Natal sobre a terra! O canto dos céus, a marcha dos povos! Escravos, não vamos amaldiçoar a vida. (A. Rimbaud)

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RIMBAUD, Arthur. Trecho do poema “Manhã”. In: ______Uma Estadia no Inferno. São Paulo: Martin Claret, verão de 2005, p. 44.

O RETRATO DE DORIAN GRAY

Famoso por suas atitudes anti-convencionais e por ter escandalizado o mundo literário de sua época, Oscar Wilde é um dos grandes escritores da literatura inglesa. The Picture of Dorian Gray (1891) é o título original de sua obra-prima mais intrigante.

Frases

A finalidade da vida é para cada um de nós o aperfeiçoamento, a realização plena da nossa personalidade. Hoje, cada qual tem medo de si próprio; esquece o maior dos deveres: o dever que tem consigo mesmo. Naturalmente, o homem é caridoso. Dá de comer ao faminto, veste o maltrapilho. Mas a sua alma é que sofre fome e anda nua. A coragem abandonou a nossa raça. Talvez nunca a tenhamos tido. O temor da sociedade, que é a base da moral, e o temor de Deus, que é o segredo da religião… eis as duas coisas que nos governam. (Lorde Henry, p. 28)

Posso ser solidário com tudo, menos com o sofrimento. Tenho-lhe aversão. O sofrimento é hediondo, horrível, desalentador. Nessa simpatia moderna pela dor, há qualquer coisa de mórbido. O que se deve estimular é a cor, o belo, a alegria de viver. Quanto menos se iludir às tristezas da vida, tanto melhor. (Lorde Henry, p. 45)

Sempre há um quê de ridículo nas emoções das criaturas que deixamos de amar. (Oscar Wilde, p. 81)

Possivelmente, nunca parecemos tão à vontade como quando temos de representar um papel. (Oscar Wilde, p. 143)

O amor vive de repetição; e a repetição converte o apetite em arte. Ademais, toda vez que amamos, é o único amor da nossa vida. A diferença de objeto não altera a unidade da paixão. Intensifica-a, simplesmente. Cada um de nós tem, na existência, no mínimo uma grande aventura. O segredo da vida é reeditar essa aventura sempre que possível. (Lorde Henry, p. 158)

As coisas de que temos certeza absoluta jamais são reais. (Lorde Henry, p. 171)

(…) De resto, o que mais lhe doía não era a morte de Basil [Hallward] – era a morte, em vida, da sua alma. (Oscar Wilde, p. 175)

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WILDE, Oscar. O Retrato de Dorian Gray. São Paulo: Martin Claret, verão de 2006.