body

My whole body is in love… (Let’s get it on by Marvin Gaye)

Apressada para presentear um amigo, li ansiosamente Um erro emocional, de Cristovão Tezza. Conheci Beatriz e Donetti. Experimentei a mistura de diálogos, pensamentos e memórias vividas numa única noite… Senti a revisora de textos; senti o escritor. Confundi-me. Voltei para a página anterior. E assim segui: entre as interferências e intervenções abstratas.

Tantas dificuldades para dizer alguma coisa, para revelar, para confessar… E tudo parecia tão íntimo e tão distante. E me recusei, queria mesmo que tudo fosse mais natural, sem treinamentos, sem forçar demais. Será possível? Ainda não sei. Mas experimentei…

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VENHA VER O PÔR-DO-SOL


– Ver o pôr-do-sol? Ah, meu Deus… Fabuloso, fabuloso! Me implora um último encontro, me atormenta dias seguidos, me faz vir de longe para esta buraqueira, só mais uma vez, só mais uma! E para quê? Para ver o pôr-do-sol num cemitério.
(p. 27)

Se nos convidam para a vida, então que não nos mostrem a morte. Até mesmo porque sabemos que há “tantas violetas velhas sem um colibri”. E isso nos parece trágico. Ou, no mínimo, dramático. E, se pararmos pra pensar, enlouqueceremos. Só de imaginar o quanto há pessoas cínicas…

Ai, que nojo!

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TELLES, Lígia Fagundes. Trecho do conto “Venha ver o pôr-do-sol”. In: ___ Antologia: Meus contos preferidos. Rio de Janeiro: Rocco, 2004.

VIAGEM DE VENTANIA

“A vastidão parecia acalmá-la, o silêncio regulava sua respiração. Ela adormecia dentro de si. De longe via a aléia onde a tarde era clara e redonda. Mas a penumbra dos ramos cobria o atalho. Ao seu redor havia ruídos serenos, cheiro de árvores, pequenas surpresas entre os cipós. Todo o Jardim triturado pelos instantes mais apressados da tarde. De onde vinha o meio sonho pelo qual estava rodeada? Como por um zunido de abelhas e aves. Tudo era estranho, suave demais, grande demais.” (p. 207)

Para nos sentirmos seguros, queremos prever as ações do outro. O outro é estranho, portanto, provoca-nos incertezas, dúvidas, medo. Era assim que Ana, personagem de Clarice Lispector, encarava a vida. Os seus dias eram todos iguais. Sem surpresas. Sem sobressaltos. Conseqüentemente, sem paixão.

Ana teve o seu momento de lucidez: por um instante, deparou-se com o desconhecido. Sentiu que dentro dela ainda havia espaço para o despertar. A propósito, quem é o forte que consegue controlar a sua sombra por muito tempo? Quem é o forte que lidera o mundo ao seu redor? Seremos sempre inúteis na tentativa de adivinhar a vida.

Seria bom dizer: não sejamos seres despedaçados. Mas, na verdade, já somos. Totalmente despedaçados. Mesmo que não acreditemos nisso. O jardim é tão bonito! Será que é por isso que temos medo do inferno? Perguntemos ao mundo sombrio de Ana. “Agora que o cego a guiara até ele, estremecia nos primeiros passos de um mundo faiscante, sombrio, onde vitórias-régias boiavam monstruosas”…

E quando faremos parte das raízes negras e suaves do mundo? Sabemos, apenas, que cada um adormece dentro de si.

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LISPECTOR, Clarice. Trecho do conto “Amor”. In: ___ Os melhores contos de Clarice Lispector. (Seleção Walnice Nogueira Galvão). São Paulo: Global Editora, 1996.

MACABÉA – ALGUMAS PÁGINAS DE ESTRELA

Macabéa entendeu uma coisa: Glória era um estardalhaço de existir. E tudo devia ser porque Glória era gorda. A gordura sempre fora o ideal secreto de Macabéa, pois em Maceió ouvira um rapaz dizer para uma gorda que passava na rua: “a tua gordura é formosura!” A partir de então ambicionara ter carnes e foi quando fez o único pedido de sua vida. Pediu que a tia lhe comprasse óleo de fígado de bacalhau. (Já então tinha tendência para anúncios.) A tia perguntara-lhe: você pensa lá que é filha de família querendo luxo? (Rodrigo S. M.)

Não é por acaso que o filósofo Theodor W. Adorno (1903-1969), ao falar sobre a “Indústria Cultural” (ver nota 3), afirmou que esta impede a formação de indivíduos independentes, capazes de julgar e de tomar decisões de maneira consciente. Embora o trecho acima não seja o mais adequado para me referir à indústria cultural, ele me fez lembrar o quanto o indivíduo é influenciado e condicionado pelos “anúncios” de uma sociedade capitalista e ‘desenfreadamente’ desumana…

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LISPECTOR, Clarice. A Hora da Estrela. Rio de Janeiro: Rocco, 1999, p. 61.
NOTA (1): Hoje, 23 de abril, é Dia Mundial do Livro, data instituída pela Unesco em 1995.
NOTA (2): Amanhã, 24 de abril, a exposição “Clarice Lispector – A hora da estrela” será aberta ao público, no Museu da Língua Portuguesa, na Estação da Luz, em São Paulo.
NOTA (3): “Adorno e a Indústria Cultural”

TERNURA DE SERMOS APENAS HUMANOS

Se não podemos mudar o mundo, interminável trabalho de formiguinha, resta nos abrir para o que existe e sempre existirá de positivo: os verdadeiros amores, que não se baseiam em vantagens, mas em ternura e respeito; as verdadeiras amizades, que não se contam pelos dias convividos, mas pela certeza de que o outro está sempre ali; as verdadeiras famílias, em que apesar das diferenças imperam a confiança e a alegria. Sempre que alguém quer e realiza o mal do outro, alguma coisa no mundo se desestrutura; toda ação ou palavra perversa, toda injustiça é um crime contra a natureza mais ampla, que nos inclui, a nós, seres humanos vulneráveis e grandiosos, patéticos e dignos – tudo isso por sermos apenas humanos. (Lya Luft, trecho extraído do artigo “O belo e o bom”, em sua coluna Ponto de Vista, da revista Veja, de 31 de janeiro de 2007)

Depois de ler “Pensar é Transgredir”, da escritora gaúcha Lya Luft, passei a admirar o seu trabalho, a sua forma de fazer livros. De escrever. Gosto de pessoas que me inspirem sensibilidade, pessoas que falam com o cérebro e com a alma. Sem, portanto, perder a simplicidade. Pessoas que se importam com o outro. Que reconhecem a complexidade do homem. Pessoas que pensam. Que transgridem. Que não se conformam. Que admiram o belo, mesmo que o belo seja de controversa definição…

ALMIGHTY GOD

… um convite do sertão

Com Deus existindo, tudo dá esperança: sempre um milagre é possível, o mundo se resolve. Mas, se não tem Deus, há-de a gente perdidos no vai-vem, e a vida é burra. É o aberto perigo das grandes e pequenas horas, não se podendo facilitar – é todos contra os acasos. Tendo Deus, é menos grave se descuidar um pouquinho, pois, no fim dá certo. Mas, se não tem Deus, então, a gente não tem licença de coisa nenhuma! Porque existe dôr. (Riobaldo)

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ROSA, João Guimarães. Grande Sertão: Veredas. 19ª edição. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001, p. 76.

GOSTO DA IRREVERÊNCIA DE MACHADO DE ASSIS

Dedico este post a minha irmã Cecília, que é fã de carteirinha de Machado de Assis

Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881) e Dom Casmurro (1889) são responsáveis pela admiração que passei a ter pelo romancista* carioca. A sua maneira irreverente de escrever e a de “cutucar” o leitor são, para mim, sensacionais. Seu sarcasmo, perfeito!

PEQUENAS CONSIDERAÇÕES

Memórias Póstumas… – Uma vez que a obra é narrada por um “defunto autor”, Brás Cubas critica livremente as hipocrisias das pessoas com quem ele conviveu. E eu gosto dessa liberdade e da perspicácia de Machado de Assis neste livro.

Dom Casmurro – É narrado em primeira pessoa pelo protagonista masculino Bentinho (Dom Casmurro), que está desiludido, velho e solitário. Ele conta sua história ao lado de Capitu. Enquanto é feita a pergunta “Capitu traiu ou não traiu Bentinho?”, vou pensando na criação das personagens… E visualizando cada uma delas… Capitu, uma menina dissimulada. Bentinho, um desiludido. As interrupções que o autor faz para falar com o leitor são irônicas, mas bem humoradas…

*escritor, jornalista, poeta, cronista, contista, dramaturgo, novelista, crítico e ensaísta.

GOSTO DE MILLÔR

Supermercado Millôr – ANO I – N.º 1

Autobiografia de mim mesmo à maneira de mim próprio

E lá vou eu de novo, sem freio nem pára-quedas. Saiam da frente, ou debaixo que, se não estou radioativo, muito menos estou radiopassivo. Quando me sentei para escrever vinha tão cheio de idéias que só me saíam gêmeas, as palavras – reco-reco, tatibitati, ronronar, coré-coré, tom-tom, rema-rema, tintim-por-tintim. Fui obrigado a tomar uma pílula anticoncepcional. Agora estou bem, já não dói nada.

Quem é que eu sou? Ah, que posso dizer? Como me espanta! Já não se fazem Millôres como antigamente! Nasci pequeno e cresci aos poucos. Primeiro me fizeram os meios e, depois as pontas. Só muito tarde cheguei aos extremos. Cabeça, tronco e membros, eis tudo. E não me revolto. Fiz três revoluções, todas perdidas. A primeira contra Deus, e Ele me venceu com um sórdido milagre. A Segunda com o destino, e Ele me bateu, deixando-me só com seu pior enredo. A terceira contra mim mesmo, e a mim me consumi, e vim parar aqui.

Vêem o que sou? E onde estou? E por que foi? Ah, sim, Millôr, é o que eu dizia. Nasci no Meyer, aos nove anos de idade, onde é que já ouvi isso? Aqui estou porém, tão magro e tonto, vago e preocupado: no escuro não enxergo, não entendo do que não sei, paro onde me detenho, vou e volto cheio de saudades. Pois, se fico, anseio pelo desconhecido. Se parto, rói-me a separação.

(…) Dou um boi pra não entrar numa briga. Dou uma boiada pra sair dela. Aos dez anos de idade vendi meu primeiro desenho pra jornal e me tornei alvo da admiração geral (minha mãe e minha avó). Aos quinze já era famoso em várias partes do mundo, todas elas no Brasil. Pois sou popular por natureza, por mais que me esforce pra ser hermético e profundo. Se eu chego e digo que achei um ninho de mafagafos com sete mafagafinhos, todos percebem logo que quem os desmafagafizar bom desmafagafizador será.

(…) Sou um crente, pois creio firmemente na descrença. Não creio em Deus, mas sei que Ele crê em mim. Creio que a Terra é chata. Procuro em vão não sê-lo.

(…) Apesar da escola, sou basicamente, um autodidata. Tudo que não sei sempre ignorei sozinho. Nunca ninguém me ensinou a pensar, a escrever ou a desenhar, coisa que se percebe facilmente, examinando qualquer dos meus trabalhos.

A esta altura da vida, além de descendente e vivo, sou, também, antepassado. É bem verdade que, como Adão e Eva, depois de comerem a maçã, não registraram a idéia, daí em diante qualquer imbecil se achou no direito de fazer o mesmo. Só posso dizer, em abono meu, que ao repetir o Senhor, eu me empreguei a fundo. Em suma: um humorista nato. Muita gente, eu sei, preferiria que eu fosse um humorista morto, mas isso virá a seu tempo. Eles não perdem por esperar.

Fonte: http://www.releituras.com/millor_bio.asp