education

A culpa é de quem?
por Marcos Fabrício Lopes da Silva*

É assustador saber que, no Brasil, não é ponto pacífico erradicar a pobreza, empoderando quem se encontra à margem do processo de desenvolvimento do país. É extremamente preocupante acompanhar pensamentos que defendem privilégios e ignoram direitos. Nesse sentido, Giuliana Ortega, diretora executiva do Instituto C&A, no artigo “Oportunidades na cultura de doação” (Estado de Minas, de 14/7/2006), defende uma tortuosa linha de raciocínio, a saber: “Na década passada, por exemplo, a vitalidade econômica do país e o aumento do poder aquisitivo das classes mais pobres acabaram por induzir organismos multilaterais e de cooperação, bem como as fundações internacionais, a direcionarem para outros países recursos que antes vinham para o Brasil”.

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fundamentalism

Fundamentalismos e liberdades
Por Alexandre Pilati*

Como é possível alguém alegrar-se com o mundo,

a não ser quando se refugia nele?

Franz KafkaAforismos.

O dia 07 de janeiro de 2015 será lembrado pelo terror que mais uma vez golpeou duramente a humanidade. A cidade de Paris confrontou-se nesta data com a violência paroxística de um ataque que deixou 12 pessoas mortas e mais uma dezena de feridos, alvejados na sede do semanário francês Charlie Hebdo. O atentado foi o pior ocorrido na cidade desde 1961, quando ativistas de extrema direita, contrários à independência da Argélia, explodiram uma bomba na linha de trem entre Estrasburgo e Paris, matando 28 pessoas. No ataque ao Charlie Hebdo, homens encapuzados e armados com devastadores fuzis Kalashnikov, supostamente agindo em honra da Guerra Santa Islâmica, mataram alguns dos mais reconhecidos cartunistas e jornalistas da França, entre eles o editor da revista Stéphane Charbonnier (o Charb), Jean Cabut, Georges Wolinski, Bernard Maris, Bernard Verlhac (o Tignous).

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Manifestações

Well, everyone can master a grief but he that has it. 
(William Shakespeare)

A hora do Direito à Cidade
por Alexandre Pilati

Para que a vitória que comemoramos se amplie (e não seja capturada pela direita) é preciso dar-lhe sentido mais profundo

Contrariando todas as expectativas, as manifestações que começaram há duas semanas em São Paulo, com uma pauta de reivindicações bastante restrita, ampliaram-se. Os protestos estenderam-se pelo Brasil inteiro em ruas, praças e arredores de estádios de futebol que recebem a Copa das Confederações. Nesses quinze dias, o que era um movimento bastante vinculado ao aumento do valor da passagem de ônibus acabou agregando, meio caoticamente, demandas de diversas origens da vida social urbana.

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life

De tudo que existe, nada é tão estranho como as relações humanas, pensou ela, com suas mudanças, sua extraordinária irracionalidade. (Virginia Woolf, escritora inglesa)

Para não viver em vão
Por Ricardo Gondim*

Para não viver em vão é preciso oscilar entre as margens do bem e do mal, do ódio e do amor, da delicadeza e da estupidez. Por algum motivo, a sabedoria milenar acertou: a virtude pertence aos moderados. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra.

Para não viver em vão é preciso flutuar com leveza. Se necessário, encher os pulmões de nitrogênio e acompanhar o voo dos balões. E se o desejar ir às alturas for inevitável, não deixar  que o fascínio das nuvens roube o acocorar-se ao lado de quem está agrilhoado à crueldade da vida.

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short

A vida é muito curta para tomarmos às costas o fardo dos erros alheios. Cada um vive como quer e paga pelo que faz. Só é triste que muitas vezes se deva pagar por uma só falta. E a expiação não tem fim. Nos seus negócios com o homem, o destino nunca fecha a conta. (Oscar Wilde in O retrato de Dorian Gray, p. 153)

Porque a vida é breve
Por Ricardo Gondim*

Porque a vida é breve me deixo atrair pelo insólito. E com ele, desperto a coragem de correr riscos. Cito Rubem Alves: ?Os homens buscam a segurança para fugir da morte. Eles não sabem que a segurança é a morte em vida?. Noto os dias desaparecerem em nacos semanais. As semanas se diluem em meses. Os meses se esfarelam em anos. E os anos se acabam nas décadas. Inconformado com a ladeira do tempo, não permito que a vida despenque em direção ao nada. Se o relógio acelera na loucura do dia a dia, canto com Lenine:

?Enquanto o tempo
Acelera e pede pressa
Eu me recuso faço hora
Vou na valsa
A vida é tão rara?.?
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meaning

Seja qual for o país, capitalista ou socialista, o homem foi em todo o lado arrasado pela tecnologia, alienado do seu próprio trabalho, feito prisioneiro, forçado a um estado de estupidez. (Simone de Beauvoir)

Pensar não entorpece a vida
Por Aline Menezes
Jornalista e professora 

A ausência de reflexão no homem é a atrofia dos lugares-comuns. Sempre explico para os meus alunos que, num texto dissertativo, por exemplo, precisamos evitar os clichês, aquelas expressões que, de tão utilizadas, servem para tudo, servem para argumentar ou tentar argumentar sobre qualquer coisa.

Sempre explico para os meus alunos que, num texto dissertativo, devemos ser objetivos, precisos na linguagem. Explico que devemos escolher a ordem direta das orações, assim como devemos nos manter claros, coesos, coerentes. Explico também que, num texto dissertativo, devemos defender uma ideia ou um ponto de vista… enfim, todas aquelas lições que os nossos professores de redação nos ensinaram (ou, pelo menos, deveriam…).

Além disso, procuro fazê-los ter curiosidade pelo estudo da gramática, não da maneira equivocada e entediante que muitos professores de português já fizeram… porque, para mim, mais importante do que qualquer regra gramatical é incentivar os alunos ao pensamento autônomo e independente.
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crack

“A única experiência social possível de ser comparada à situação dos atuais viciados em crack não é a dos escravos em qualquer das sociedades nas quais eles existiram, já que mesmo esses escravos, geralmente considerados como ?coisas?, passíveis de serem comprados, vendidos, conquistados ou roubados, ainda nessas condições se mantiveram uma situação existencial de ter o corpo cativo, mas serem ainda donos de uma vontade manifesta ou latente que, ainda que frustrada em suas ações, era ?livre? em seu pensamento e desejo íntimos.”

Crack, corrosão da sociabilidade e inviabilização dos indivíduos
Por Edison Bariani
Sociólogo e professor universitário

De modo surpreendente, já estamos nos acostumando à terrível cena de hordas de indivíduos vagando solitários, perdidos, derrotados e vazios pelas ruas das cidades brasileiras. Os tais ?nóias?, ?zumbis?, ?andróides? ? ou algo do que o estupor popular os chame ? vasculham o lixo das ruas à procura de latas, vasculham o lixo social à procura de drogas e vasculham o fundo da alma à procura de algum sentido para suas vidas desperdiçadas.
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slutwalk

“Tomar para si o uso do termo “vadias” tem sido uma irreverente estratégia de deboche do preconceito. Parte da exigência de que os direitos das mulheres não podem ser violentados em nenhuma hipótese, seja lá quem ou como for a vítima.”

O deboche das vadias

Por Carla Rodrigues
Jornalista e professora da UFF

Não importa quem você é, onde trabalha, como se identifica ou o que veste. Ninguém tem o direito de tocar seu corpo sem seu consentimento. É o que reivindica a Marcha das Vadias, movimento internacional iniciado no Canadá depois de um policial de Toronto pedir às mulheres que não se vestissem como vadias para não serem estupradas. Desde o primeiro protesto, em abril de 2011, o que se vê em Nova York, Boston, Berlim, São Paulo e Rio é a revitalização da pauta feminista, historicamente mobilizada contra a violência. É verdade que as vadias estão nas ruas para pedir mais do mesmo: fim da discriminação contra as mulheres, da violência sexual e da violência doméstica, do tratamento das vítimas como culpadas pela percepção de que os crimes são “naturais” diante do comportamento – ou da altura das saias – daquelas que supostamente provocam os estupradores.

As imagens das marchas mostram jovens com corpos pintados e cartazes que transformaram em slogans divertidos uma agenda política que tem avançado lentamente. Se a pauta é antiga, onde estaria a revitalização?
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corruption

Com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público tão vil como ela mesma. (Joseph Pulitzer)

MOVIMENTO CONTRA A CORRUPÇÃO DA MÍDIA

Senhoras e senhores,

Estamos aqui hoje para nos manifestar contra a corrupção, mas não como aqueles que estiveram neste mesmo local no último dia 7 de setembro dizendo que se manifestavam pelo mesmo motivo. O que aquelas pessoas fizeram, na verdade, foi um ato orquestrado por grandes impérios de comunicação e que teve como objetivo favorecer partidos políticos.

Antes de prosseguir, é bom explicar que este Ato Público não pertence a nenhum partido político, a nenhum sindicato, a nenhum grupo de interesse. Foi convocado pelo Movimento dos Sem Mídia, que luta pela democratização da comunicação no Brasil, ou seja, para que essa comunicação não continue na mão de meia dúzia de famílias.

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fleurs

Mostrava-se tão triste e tão calma, tão doce ao mesmo tempo e tão reservada, que ao seu lado todos se sentiam tomados por um encanto glacial, como se estremece nas igrejas sob o perfume das flores misturado à frieza dos mármores. (in Madame Bovary, Flaubert, p. 105)

O analista junguiano James Hollis escreveu certa vez que “a brutalidade que já houve no mundo é suficiente para durar eternamente”. Ele afirmou isso enquanto discutia questões relacionadas ao patriarcado, à condição perversa imposta a mulheres e homens durante toda a história da humanidade. E penso que ele tem razão.

Em outro momento, enquanto assistia à série C.S.I., especificamente o episódio “Adeus e boa sorte”, ouvi a personagem Sara Sidle (Jorja Fox) comentar que, certa vez, pesquisando sobre suicídio, um sobrevivente disse que – enquanto ele pulava de onde estava para se matar – percebeu que todos os seus problemas poderiam se resolver, menos o fato de já ter pulado.

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