touchable

É preciso sofrer depois de ter sofrido, e amar, e mais amar, depois de ter amado. (Guimarães Rosa)

Na vida, o que é belo é ser tocável
por Aline Menezes

Ao longo de nossa vida, carregamos conosco grande quantidade de material corrosivo, que destrói aqueles que atravessam o nosso caminho e, principalmente, contamina a nós mesmos. Tenho aprendido que a nossa interioridade é indecifrável, que ninguém (nem eu, nem você) tem condições de definir ou explicar tudo o que nos constitui internamente.

Há uma parte da existência humana que é incapturável. Por mais sensíveis que sejamos (e alguns têm sensibilidade extremada e bela), é tarefa insana querer compreender completamente o que existe de mais profundo em nossa alma. Resta-nos apenas a abertura para enxergarmos o mais longe possível, a fim de não nos tornarmos indiferentes à dor alheia, nem muito menos à dor que nos envolve, para não nos tornarmos cínicos.

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words

Ouvindo Passenger by Lisa Hannigan

Tenho algumas paixões na vida: duas delas são escrever e ouvir cantoras e compositoras. A primeira, desde criança,  começou como a maneira mais honesta de expressar o que sinto até fazer parte de minha profissão. A segunda, a de dizer o que eu gostaria de ter cantado ou de como eu gostaria de ter dito.

Penso que eu conseguiria viver sem muitas coisas, mas se me tirassem o lápis e o bloco de notas, eu me sentiria terrivelmente incompleta. Porque escrever, para mim, é o que mais me importa. É vasculhar o repertório da língua para encontrar as palavras que melhor reproduzam algo aqui de dentro.

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desire

I hurt myself today
To see if still feel…

(Hurt by Johnny Cash)

A metáfora de soltar as velas e navegar longe é o que há de mais delicado para ser dito quando não sabemos exatamente como dizer. Se o que me envolve exige prudência e sensatez, então que me resta senão confiar no caminho sem sortilégios? Sim, já entendi que não posso controlar as circunstâncias.

Permaneço à procura de formas diferentes de viver e sobreviver às minhas transgressões. Esta é a minha existência devassamente santa: revelo minhas misérias cotidianas e históricas, pessoais e impessoais; busco ser honesta, cinicamente honesta. Encontro o caminho desta relativa liberdade. Encontro a cura. Encontro a gratidão.

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century

O limite da arte é o silêncio. (Hermenegildo Bastos)

As coisas que me importam não são mensuráveis. Insisto em andar na contramão da estupidez deste lugar: onde a matéria vale mais que a alma; a roupa, mais que o corpo; a aparência, mais que o ser. As coisas de que preciso não estão à venda nos shoppings, nem nas grifes, nem nos trágicos espetáculos televisivos. Muito menos nas revistas de celebridades.

Esta minha relativa liberdade: de escolher o caminho da reflexão, de não me conformar. De não me iludir com o hedonismo. De não consumir – a qualquer custo – tudo que me é oferecido, que está disponível, online. Movimentos frenéticos, alucinantes, ritmos que tentam me impedir de sentir dor. Aquela dor que representa a profundidade da vida. Indispensável à lucidez.

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emotion

Perguntem aos pensadores, aos teóricos, aos filósofos que se esforçam por fazer um “trabalho racional”: eles lhe confirmarão, se forem sinceros, que o pensamento frio é estéril e que o trabalho intelectual só é fecundo sob a condição de ser movido por uma  vibração emocional. As construções teóricas são arquiteturas vazias, quando não são habitadas pela palpitação do imaginário, pelo júbilo e pelo entusiasmo. (Michel Lacroix, filósofo francês, p. 88)

… aprendo a sutileza das coisas imperceptíveis. O cinismo – enquanto indiferença à dor do outro – é o vício comum da alma equivocada. Até mesmo as certezas são, às vezes, fagulhas da imaturidade. Exatamente por isso cabe ao tempo, substantivo vagaroso demais para quem sofre, a coragem de provar que tudo passa. O tempo possui a intrepidez necessária para aquietar a ventania de nossa existência.

Aqui dentro, embrulho cuidadosamente a esperança. Pois é ela quem me ensina certas emoções. É ela quem me alcança as lágrimas noturnas. E quem me levanta todas as manhãs.  Aqui dentro, permanece o som silencioso, mas não vazio, de sensações doídas. Palavras que jamais poderei dizer, desamparadas. Sentimentos que enfraquecem o meu corpo: hoje cada minuto passa de hora em hora.

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human bonds

Nenhuma variação do convívio humano é plenamente estruturada, nenhuma diferenciação interna é totalmente abrangente, inclusiva e livre de ambivalência, nenhuma hierarquia é total e congelada. A lógica das categorias imperfeitas preenche a diversificação endêmica e a desordem das interações humanas. Cada tentativa de completar a estruturação deixa grande número de “fios soltos” e significados contenciosos. (Zygmunt Bauman, sociólogo polonês, p. 93)

Seres melífluos têm caráter duvidoso, mas não me assustam. Somos empurrados para a indelicadeza e a alienação. A atmosfera das sociedades, sobretudo modernas, conspira contra a reflexão. Contra a lucidez. E, quando pensamos, tornamo-nos incômodos para o bando de idiotas que nos cercam.

Até mesmo os seres consanguíneos se repelem. Movidos pela inveja, pelas antipatias gratuitas, pelos complexos formados ao longo da árvore genealógica. E pelas comparações ridículas, infantis e estúpidas. Seres consanguíneos, quando contaminados pela burrice do século, tornam-se brutamontes.

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THINK

[…] Iedereen kijkt, maar niemand zegt wat hij denkt
Iedereen lijkt, maar niemand is wie je denkt.

[…] Todo mundo olha, mas ninguém diz o que pensa
Todo mundo olha, mas ninguém é o que você pensa.

(Stil In Mij by Van Dik Hout)

… cada dia que passa, a certeza aumenta: descubro que há um misantropo em mim. Riscos de tédio desenham meu humor. A mediocridade me apavora. O fingimento me assusta. E nada disso me surpreende. Fico irritada com a brutalidade que incide sobre a inocência. Com a culpa por ser o que se é. Escrevo porque me faltam palavras.

Vejo que não enxergo e sinto o que não percebo: não gosto de pessoas; gosto de gente. Sim, porque pessoas são seres entediantes. Gente é o esforço de não dar ao outro o que se tem de pior. Pessoas são seres pintados sem tinta nem cor. Gente é o preto e branco ilustrado. E não quero ser interpretada.

Minha voz não é o que ouço lá fora. Aqui dentro os sons são diferentes. A melodia envelhecida está sempre nova. Porque não me conformo com a agitação mentirosa. Ou com o silêncio sem sentido. Nem me adapto aos sorrisos gelados, ou às notas equivalentes. O que sou está no infinitivo. Isso já é o bastante.

A arquitetura da alma, nela não me calo nem me coloco de olhos fechados. Estendo os braços para ampliar minha construção: não quero ser superfície. Porque minhas fraturas seguem o fluxo da dor. Profunda e forte, intensa e suave, breve e demorada. É assim o meu caminho: particular e sem remendos. Inteiro, mesmo quando em pedaços.

LOWER CASE

… a tentativa de compreender o ponto de vista de todos muitas vezes mostra que nós mesmos estamos desinteressadamente em uma posição média ou superior, e que tentar harmonizar pontos de vista conflitantes em um consenso implica rejeição da verdade de que certos conflitos só podem ser resolvidos unilateralmente. (Literary Theory by Terry Eagleton)

pessoas são seres insuportáveis. fingem preferências artísticas quando as julgam símbolos de bom gosto, inteligência e fascínio… tudo não passa de estupidez. aliás, a arte é estúpida: ninguém a define. mas todos se sentem melhores quando dizem que a apreciam, não necessariamente porque a apreciam. garotas pin-up dos anos 1920.

pessoas são seres que me cansam. bem disse miguel: ah, “cansei das pessoas pelas quais não tenho admiração”. lábios broncos e sobrancelhas sem moldura. cospem no prato que compraram. acham-se donos daquilo por que pagaram. olham mas não enxergam. respiram mas não vivem. andam mas não saem do lugar. riem mas não entendem a piada. falta-lhes humor.

pessoas são seres vestidos. a nudez nem sempre lhes parece bela, porque há imperfeições. assimetrias não são bem-vindas. há os que rejeitam a perfeição, apenas de propósito. isso os faz parecer esquisitos. e ser estrangeiro parece “cult”. minha nudez não é para todos. mas não quero estar vestida todos os dias.

pessoas são seres nojentos. óbvios e previsíveis. incompatíveis com a beleza do universo. rimas entediantes, diálogos fúteis, ideias atrofiadas, imbecis em copos de preconceitos. timbres e batidas forçadas. porque pessoas não são sons de uma noite de inverno: são melodias sem apoio musical.

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EAGLETON, Terry. Teoria da Literatura: Uma Introdução. Tradução Waltensir Dutra. São Paulo: Martins Fontes, 2006, p. 10.

CEGUEIRA

A utopia da internet é que já não necessitamos ser representados, a democracia é de todos, somos todos iguais. Mentira. Nunca fomos nem somos nem seremos iguais. E, portanto, a democracia de todos é mentira. Seguimos necessitando de mediações de representação das diferentes dimensões da vida. Precisamos de partidos políticos ou de uma associação de pais em um colégio, por exemplo. (Martín-Barbero, filósofo espanhol)

Sempre que andamos (ou tentamos andar) na contramão da estupidez ocidental, preservando-nos da alienação, das psicoses provocadas por qualquer tipo de pensamento ou comportamento que não gera vida em nós, nem muito menos ajusta nossa percepção, vemos os desenhos mais sutis de uma alma em caricatura. Sim, já sabemos: não somos impermeáveis. Às vezes, todos estão presos por algemas e acorrentados. O pior é que nem sempre se dão conta disso. Falta-lhes (ou falta-nos) consciência.

É verdade: a lucidez nos arrebenta; o equilíbrio também nos cansa. Há momentos em que só queremos um pouco mais de loucura. Mas tudo isso é bestagem. Tolice de nossas fantasias. Solidão de tanta gente junta. Vazios de terras cheias de ilusões. Sejamos assim mesmo, equilibradamente desalinhados. Águas cristalinas tão limpas quanto nossas impurezas de ser. A cena do crime já foi alterada. E os suspeitos… cada um de nós.

Às vezes, pergunto-me se encontraremos mais dragões ou moinhos de vento. Se a cegueira era apenas um ensaio. Temos o que ficou ou não há tanta sorte assim? Mas tudo bem: é “um prazer cada vez mais raro… vaidades que a terra um dia há de comer”.

DESESPERO INFERNAL

A maturidade é um álibi frágil. Seguimos com uma alma de criança que finge saber direitinho tudo o que deve ser feito, mas que no fundo entende muito pouco sobre as engrenagens do mundo. Todo o resto é tudo que ninguém aplaude e ninguém vaia, porque ninguém vê. (trecho da crônica “Todo o resto”, de Martha Medeiros)

Desejos que nos inquietam a alma: que nos fazem transgressores de nossas próprias escravidões. Presas irresistíveis da sensualidade. Que me importa o que vão dizer de mim? Sigo adiante. Mesmo quando não consigo me ouvir. Não estar certa é o melhor dos meus equívocos. Tradução exata do que somos. Ou apenas do que penso ser.

Brutalidade é se esconder das incertezas latentes do coração. Estupidez é fingir não ser assim. Mas, sim, sigo adiante: mesmo quando não consigo me ouvir. Para mim, viver é ter palavras. Letras e pontuação. Reticências, pois nem sempre sei a morfologia de mim. Descubro-me em desmontes, silêncio ensurdecedor…

… de quem não quer explicações.