Women’s Day 2015

ENSAIO

8 de março: conquistas e controvérsias
Por Eva Alterman Blay

[…] No Brasil, vê-se repetir a cada ano a associação entre o Dia Internacional da Mulher e o incêndio na Triangle, quando na verdade Clara Zetkin o tenha proposto em 1910, um ano antes do incêndio. É muito provável que o sacrifício das trabalhadoras da Triangle tenha se incorporado ao imaginário coletivo da luta das mulheres. Mas o processo de instituição de um Dia Internacional da Mulher já vinha sendo elaborado pelas socialistas americanas e européias há algum tempo e foi ratificado com a proposta de Clara Zetkin. […]

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faith

A função da oração não é influenciar Deus, mas especialmente mudar a natureza daquele que ora. (S. Kierkegaard, filósofo dinamarquês)

É do silêncio absoluto e profundo que se ouve o barulho da dor e da angústia. É a nossa perplexidade que se movimenta solitária no chão de nossa experiência. Ainda não compreendemos a suspensão temporária da vida. Será sempre difícil constatar os nossos ferimentos e observar as cicatrizes que nos deixaram. Sentir as coisas, sentir as pessoas, sentir a rocha, sentir a água… isso esboça que ainda respiramos, mesmo quando tudo fica mais devagar e sôfrego, quase agonizante. Há momentos nos quais gostaríamos de apenas fechar os olhos, deixar a nossa pele impermeável às decepções e à agonia… Há momentos nos quais desejaríamos nos tornar nada, absolutamente.
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farewell

There is so much hurt in this game of searching for a mate. And you realize suddenly that you forgot it was a game, and turn away in tears. (Sylvia Plath, escritora e poetisa americana)

Há um outro tipo de estrada que a espreita. O barulho de seus pensamentos a sufoca e a paralisa brutalmente. Não é possível habitar desta maneira! Mais do que em qualquer outro dia, ela sente que precisa ir. Houve uma lesão na alma, intensa, profunda. Acidental, mas ocorreu. Se ela não partir agora, será ainda mais amarfanhada. Aconteceu. “Ninguém decide sobre os passos que evitamos”… Viver assim, pensou, é doloroso, cruel, injusto. Existir assim, lamentou, é insuportável. Acabou, ela sabe disso. E agora é ela quem quer que seja dessa forma. O seu corpo, o seu espírito, a sua alma, os seus devaneios, as suas fantasias, tudo está desbaratado, destruído. Respira sofregamente, mas de cansaço, de agonia, de angústia, de dor. A pressa é pela morte, e não mais por ele, que partiu bruscamente, sem se despedir. Não precisa, não importa, é a vida. Cada um com os seus cortes, com as suas feridas, com o que ainda lhe resta de sangue.
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strange

[…] Procuro, não sei o que procuro. Procuro / um céu passado, a véspera extinta. Meu rosto / vai tão baixo, que antes nos céus ia posto! (trecho do poema A luz de ontem, de Lucian Blaga, poeta romeno)

Strange

Se existe um caminho, ainda não o encontrei. Porque tudo se torna confuso à medida que andamos, que buscamos, que nos entregamos a. Sinto que minha alma hoje está completamente nua, cheia de cortes, ferida, marcada, profunda. É um dia estranho não poder sentir. Não poder tocar. Não ser. De que adianta uma vida inteira pela frente, se. O chão é duro e difícil, perder já não faz diferença, já que ganhar tornou-se impossibilidade.

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everything

[…] porém minha melancolia / é sempre igual: torrões, andaimarias, blocos, / Arrabaldes, em tudo eu vejo alegoria, / Minhas lembranças são mais pesadas que socos. (trecho do poema Quadros parisienses, d’As flores do mal, de Baudelaire)

Everything

É esta insuficiência que parece tornar tudo tão belo. Perverti uma dor solitária, profunda, real. Sinto intensamente a sua presença. Tudo é tão incompleto, moldura de impedimentos e impossibilidades. Mas este sentimento aqui dentro é parte de minha existência, que respira, que pulsa, que vive. É como se todas as coisas belas, bonitas, honestas, íntegras e puras… como se todas elas fossem você. Há admiração mútua, comunhão de ideias, paixão pela vida, apesar de todas as nossas dores e angústias… Há desejos, há vontade de estar junto…

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no side

A paz já se diluiu rapidamente na luz dos dias vulgares. (Virginia Woolf)

Perto demais

Sob o manto de uma paisagem bucólica, encontro-me densa, profunda, infinita. Atravesso o desejo, impetuoso sempre, sutil, inexplicavelmente sutil. Sinto-o, sinto-me, toco-me. Apenas sabemos a grandeza desta catedral, construída há anos sob a aparência de uma frágil capela. Cada dia, volúpia ingênua, nua. Sobe e desce lentamente, len ta men te. Mais uma vez: nenhuma daquelas experiências me fez sentir tão viva quanto o dia em que… Sim, meus pensamentos ecoam.

Neste corpo cálido, pálido, inválido, a embriaguez vulgar dos dias frios. Estas árvores, arbustos, plantas… cenário. Sob o manto de uma paisagem bucólica, encontro-me densa, profunda, infinita. Concentro-me, tento, revolvo a leve loucura deste dia. Intrepidez necessária. Insinuo, diminuo, continuo… Permaneço em silêncio, rio dias a fio, choro, imploro, procuro, admiro. Inquieto-me numa tensão insuportável, portátil.

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wine

Amy abriu o caminho para artistas como eu e fez todos se animarem com a música britânica novamente, sem medo de fazer graça e ser blasé… (Adele, cantora inglesa)

Há alguns anos, ouvi Amy Winehouse pela primeira vez. Minha paixão por cantoras e compositoras me fez querer ouvi-la, conhecê-la, ler sobre sua voz, suas canções, seu talento. Logo comprei o DVD, gravei Back to Black, comprei a edição de 2008 da Rolling Stone, que trazia a cantora na capa, e passei a frequentar o seu site… Sempre lamentei o sensacionalismo dos tabloides britânicos, que se alimentavam (e se alimentam) dos escândalos e moralismos típicos de uma mída estúpida, de um povo hipócrita. Amy estava pouco se importando com toda essa gente idiota. Que tristeza saber que ela morreu!

Não sou do tipo de pessoa que incute a ideia de que gente talentosa precisa ser autodestrutiva, desesperada, beber compulsivamente, fumar excessivamente, drogar-se, exibir-se, parecer ou ser fora dos padrões… Não alimento nenhum tipo de fascínio pelos vícios, nem deslumbres por esta vida insuportavelmente irritante, desiludida, sufocante, que é esta luta diária nossa de querer viver do nosso jeito. Sabe-se lá o que Amy sentia, quais eram suas dores profundas, suas inquietações… Mas é claro que alguma coisa doía, muito. Assim como dói em qualquer um de nós, exceto nos psicopatas.

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ellas

[…] Many people are trying to do art but absolutely it?s subterranean in terms of the culture as a whole. The arts have never taken root in America. (Camille Paglia, ensaísta e escritora dos EUA, em entrevista a Robert Birnbaum)

Aretha Franklin, Joss Stone, Duffy, Anouk, Cat Power, Rachael Yamagata, Bird York, Madonna, Adele, Nina Simone, Luiza Possi, Luísa Maita, Roberta Sá, Ana Cañas, Paula Fernandes, Bruna Caram, Ella Fitzgerald, Maria Gadú, Lisa Hannigan, Priscilla Ahn, Brooke Fraser, Amy Winehouse, Negra Li, Luciana Mello, Amy Grant, Ivete Sangalo, Tori Amos, Tammi Terrell, Zooey Deschanel, Clare Maguire, Janis Joplin, Zelia Duncan, Tina Turner, Cássia Eller, Montserrat Cabellé, Dezarie, Tal Wilkenfeld, Paula Toller, Nataly Dawn…

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endlessly

A sensibilidade não é uma fraqueza. Tem a ver com estar tão dolorosamente atento que mesmo uma pulga pousando sobre um cão soaria como uma explosão sonora. (Jeff Buckley, cantor e compositor norte-americano)

Li um texto atribuído ao escritor uruguaio Eduardo Galeano, no qual ele diz que não consegue “andar pelo mundo pegando coisas e trocando-as pelo modelo seguinte só porque alguém adicionou uma nova função ou a diminuiu um pouco”. Ele diz que não consegue “trocar os instrumentos musicais uma vez por ano, o celular a cada três meses ou o monitor do computador por todas as novidades”.

Essa bela revelação de “incapacidade” deve-se à compreensão de como nossa sociedade aderiu ao descartável, à efemeridade dada às coisas e, inclusive, às pessoas, aos relacionamentos, às amizades. Deve-se à percepção de que tudo hoje é feito ou fabricado para ser rapidamente usado e imediatamente jogado fora. “As coisas não eram descartáveis, eram guardáveis”, diz o texto. Continue lendo “endlessly”

spring

Sobrevivi ao hedonismo de minha juventude e à castidade de minha idade madura, a meu egoísmo heroico, à falta de dinheiro e de alegria, à minha depressão. E estou disposta a viver muito mais. (João Almino in As cinco estações do amor)

É sempre bom experimentar um novo dia. Ter a certeza de que deixamos muitas coisas para trás. Sentir que fizemos o movimento certo. E lembrar que muita coisa mudou.

É sempre bom andar devagarinho. E também se apressar para não perder a hora exata. Ficar agasalhada nos tempos de frio. E andar nua num calor insuportável.

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