PRECONCEITO EMOCIONAL ? Parte I

As emoções da criança não tardam a esbarrar em proibições. São imoladas ao princípio da autoridade e à moral. Instaura-se um processo implacável de recalcamento, de modo que, em vez de se expandir, o potencial emocional se atrofia. A criança descobre que existem emoções permitidas e outras que não o são: ?Menino não chora?, ?Menina boazinha não tem acessos de raiva?, ?É feio amarrar a cara?, ?É feio sentir ciúme?, ?A gente não grita nem mesmo quando está contente…? Cada família alimenta seus próprios preconceitos nessa matéria, desenvolvendo uma verdadeira microcultura emocional. Numa, aprecia-se a alegria ruidosa; noutra, não se tolera qualquer manifestação de cólera; noutra ainda, alguém se apressa a dar uma guloseima à criança entristecida, assim fabricando um futuro bulímico que, quando estiver deprimido, não terá outro reflexo senão abrir a geladeira. (Michel Lacroix, filósofo, no livro ?O culto da emoção?)

O trecho acima não precisa de elucidações, muito menos de contexto. Creio que ele se explica sozinho. Porém, insistente que sou, gostaria de fazer minhas considerações: (1) embora o autor seja francês (Brasil e França apresentam realidades distintas), suas observações podem ser compreendidas de modo universal; (2) no Brasil, sobretudo em cidades menores, onde é bem visível o culto ao tradicional, aos costumes dos ?antigos?, notamos o quanto essa repressão emocional é comum: as crianças crescem alimentando uma visão míope do sexo, por exemplo; (3) sempre me perguntei de onde veio a idéia de que ?menino não chora?, a idéia de que expressar emoção é, de certa forma, vergonhoso; (4) nas cidades grandes, o inverso também acontece: vive-se a ilusão de que tudo é permitido, de que tudo é natural ? o verdadeiro culto ?à mente aberta?; (5) é uma pena que sejamos tão facilmente enganados.

?Assim, em busca de sensações fortes, o indivíduo moderno emociona-se muito. Mas, será que sabe sentir? Cada vez mais agitado e cada vez menos sensível, por que terá ele abandonado as emoções serenas? Eis o cúmulo do paradoxo: no momento em que triunfa e se torna objeto de um verdadeiro culto, será que a emoção tomou irremediavelmente o caminho do delírio??, questiona Lacroix.

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LACROIX, Michel. O culto da emoção. Rio de Janeiro: Editora José Olympio, 2006. p. 63.
Nota sobre o autor: Michel Lacroix é filósofo e leciona na Universidade de Évry Val-d?Essonne, na França. No âmbito de suas pesquisas sobre os costumes e as mentalidades contemporâneas, publicou De la Politesse, L?Idéologie du New Age e Le Développement Personnel.

GOSTO DA IRREVERÊNCIA DE MACHADO DE ASSIS

Dedico este post a minha irmã Cecília, que é fã de carteirinha de Machado de Assis

Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881) e Dom Casmurro (1889) são responsáveis pela admiração que passei a ter pelo romancista* carioca. A sua maneira irreverente de escrever e a de “cutucar” o leitor são, para mim, sensacionais. Seu sarcasmo, perfeito!

PEQUENAS CONSIDERAÇÕES

Memórias Póstumas… – Uma vez que a obra é narrada por um “defunto autor”, Brás Cubas critica livremente as hipocrisias das pessoas com quem ele conviveu. E eu gosto dessa liberdade e da perspicácia de Machado de Assis neste livro.

Dom Casmurro – É narrado em primeira pessoa pelo protagonista masculino Bentinho (Dom Casmurro), que está desiludido, velho e solitário. Ele conta sua história ao lado de Capitu. Enquanto é feita a pergunta “Capitu traiu ou não traiu Bentinho?”, vou pensando na criação das personagens… E visualizando cada uma delas… Capitu, uma menina dissimulada. Bentinho, um desiludido. As interrupções que o autor faz para falar com o leitor são irônicas, mas bem humoradas…

*escritor, jornalista, poeta, cronista, contista, dramaturgo, novelista, crítico e ensaísta.

GOSTO DESTA FRASE

(…) o senhor elogia minha brandura e sabedoria, talvez não com toda a razão. Se eu não soubesse que sujeito estranho o colega, de quem o senhor escreve, é, no geral, eu censuraria em muito o comportamento dele na questão do congresso. Mas digo para mim, como para o senhor, o homem não pode ser mudado e tem de ser engolido assim como é.” (p. 129)

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Trecho de uma das cartas escritas por Freud ao pastor suiço Oskar Pfister, publicado no livro Cartas entre Freud e Pfister (1909-1939) – um diálogo entre a psicanálise e a fé cristã (tradução de Karin K. Wondraceik e Ditmar Jung, da Editora Ultimato)

GOSTO DE DANÇAR

Se procurarmos a verdadeira fonte da dança e nos virarmos para a Natureza, verificamos que a dança do futuro é a dança do passado, a dança da eternetidade, que sempre foi e será a mesma. (Isadora Duncan (1878-1927), bailarina americana)

Houve uma época em que eu participava de um grupo de dança na minha cidade. Na verdade, não era necessariamente um grupo de dança. Estudávamos numa academia, fazíamos aeróbica e montávamos coreografias para apresentações em escolas e clubes sociais. Além das lembranças que ficaram na memória, tenho apenas algumas fotos daqueles momentos…

Os movimentos corporais executados de maneira ritmada (uma forma aureliana de dizer “a dança”), na minha opinião, são perfeitos. Dança e música… Música e dança…

Gosto do hoje de minha vida. Porém, nada melhor do que ter boas lembranças daquilo que vivemos. E sinto falta da dança que dancei!

Aos que deduziram mal, antecipo que não sei dançar. Apenas gosto. Aliás, penso que não é preciso saber fazer bem alguma coisa para que se goste de fazê-la. Acho que aprendi isso com as crianças: quando no jardim de infância, elas acreditam que já aprenderam a pintar… e gostam.

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Sites visitados:
http://www.isadoraduncan.com.br
http://www.revistadadanca.pt/pingosdedanca.htm

GOSTO DE FREUD

A propósito, ele morreu no dia 23 de setembro de 1939, aos 83 anos, em Londres.

Adoro as reflexões sobre a fé e a ciência. Quando elas se convergem e quando se divergem.

Numa das cartas trocadas entre o teólogo protestante Oskar Pfister e o psicanalista Sigmund Freud, Pfister escreveu:

Quando pondero que o senhor é bem melhor e mais profundo que o seu ateísmo, e eu bem pior e mais superficial que a minha fé, então o abismo entre nós não poderia escancarar-se.

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Cartas entre Freud e Pfister (1909-1939) – um diálogo entre a psicanálise e a fé cristã. Tradução de Karin K. Wondraceik e Ditmar Jung. São Paulo: Editora Ultimato. Site: http://www.ultimato.com.br.

GOSTO DE EINSTEIN

No dia 05 de setembro, dei início à série GOSTO DE … Na verdade, nem havia pensado que seria uma série, apenas comecei com Millôr Fernandes. Daí, gostei da idéia… Por isso, segue-se. E não sei até quando!

A Editora Martin Claret está com a coleção O AUTOR POR ELE MESMO (não estou sendo paga para fazer propaganda). Por sorte, fui presenteada com o livro-clipping Einstein por ele mesmo. E tenho gostado.

Há autores os quais gostaria muito de tê-los conhecido. Einstein é um deles. Sua biografia sempre me atraiu (a propósito, adoro ler biografias).

Como não é razoável que eu escreva aqui todos os meus capítulos preferidos, e não estou com muita disposição para escrever resumos, resolvo citar algumas das frases einsteinianas em destaque no livro-clipping:

A ciência sem a religião é paralítica – a religião sem a ciência é cega. (p. 57)

A coisa mais bela que o homem pode experimentar é o mistério. É esta a emoção fundamental que está na raiz de toda ciência e arte. (p. 15)

Penso noventa e nove vezes e nada descubro; deixo de pensar, mergulho em profundo silêncio: e eis que a verdade se me revela. (p. 25)

A mente avança até o ponto onde pode chegar; mas depois passa para uma dimensão superior, sem saber como lá chegou. Todas as grandes descobertas realizaram este salto. (p. 33)

A imaginação é mais importante do que o conhecimento. (p. 38)

A maioria de nós prefere olhar para fora e não para dentro de si próprio. (p. 52)

O tempo é relativo e não pode ser medido exatamente do mesmo modo e por toda parte. (p. 72)

No começo – disse São João – era o Verbo. No começo – contesta Goethe – era a Ação. No começo e no fim – digo eu – era o Movimento. Não podemos dizer nem saber mais. Se o fruto definitivo do saber humano parece uma vulgaríssima sorva, a culpa não é minha. À força de unificar é necessário obter algo incrivelmente simples. (p. 80)

Posso não saber nada sobre a Teoria da Relatividade, porémas, quanto ao seu autor, preciso tirar o chapéu…

(AVALON, Manville. Einstein por ele mesmo. São Paulo: Martin Claret, primavera de 2003)

GOSTO DE SHAKESPEARE

O que posso dizer? Que o dramaturgo inglês era excelente! Em “Otelo, o mouro de Veneza”, Shakespeare apresenta sua idéia de ciúmes:

“(…) filho legítimo da própria insegurança.”

“(…) abstrato e desconhecido.”

“(…) o monstro do ciúme, a hidra dos olhos verdes que menospreza o alimento que a mantém.”

“(…) cérebros entorpecidos raciocinam mal, deixam as emoções falarem mais alto e com facilidade criam mal-entendidos que, por sua vez, podem degenerar em brigas violentas.”

SOBRE O LIVRO

General mouro a serviço da República de Veneza, Otelo casa-se com a bela e inteligente Desdêmona, filha do senador Brabâncio. Nomeado governador de Chipre, indica o tenente Cássio, primo de Desdêmona, para o seu auxiliar principal. Com essa indicação, incita a inveja de Iago, que se julgava merecedor da promoção e por isso trama uma cruel vingança, insinuando a Otelo que sua mulher e Cássio o traíam.

Apesar de triste e trágico, adorei o livro, uma adaptação em português de Hildegard Feist, que transformou em narrativa uma das famosas peças teatrais shakespearianas.

Por último, deixo uma frase dita por Otelo a um dos generais de Veneza, quando este questionou a fé de Otelo:

Deus é sempre o mesmo, creio eu, seja Ele adorado pelos cristãos, pelos muçulmanos, pelos judeus, pelos índios da América, ou por quem quer que seja. Por isso, suponho que Ele não se importa se rezo na mesquita, na igreja ou em minha casa, sem alarde. Só muda o ritual…

Perfeito!

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SHAKESPEARE, William. O Mouro de Veneza. Adaptação em português de Hildegard Feist. São Paulo: Scipione, 1997. Série reencontro.

GOSTO DE MILLÔR

Supermercado Millôr – ANO I – N.º 1

Autobiografia de mim mesmo à maneira de mim próprio

E lá vou eu de novo, sem freio nem pára-quedas. Saiam da frente, ou debaixo que, se não estou radioativo, muito menos estou radiopassivo. Quando me sentei para escrever vinha tão cheio de idéias que só me saíam gêmeas, as palavras – reco-reco, tatibitati, ronronar, coré-coré, tom-tom, rema-rema, tintim-por-tintim. Fui obrigado a tomar uma pílula anticoncepcional. Agora estou bem, já não dói nada.

Quem é que eu sou? Ah, que posso dizer? Como me espanta! Já não se fazem Millôres como antigamente! Nasci pequeno e cresci aos poucos. Primeiro me fizeram os meios e, depois as pontas. Só muito tarde cheguei aos extremos. Cabeça, tronco e membros, eis tudo. E não me revolto. Fiz três revoluções, todas perdidas. A primeira contra Deus, e Ele me venceu com um sórdido milagre. A Segunda com o destino, e Ele me bateu, deixando-me só com seu pior enredo. A terceira contra mim mesmo, e a mim me consumi, e vim parar aqui.

Vêem o que sou? E onde estou? E por que foi? Ah, sim, Millôr, é o que eu dizia. Nasci no Meyer, aos nove anos de idade, onde é que já ouvi isso? Aqui estou porém, tão magro e tonto, vago e preocupado: no escuro não enxergo, não entendo do que não sei, paro onde me detenho, vou e volto cheio de saudades. Pois, se fico, anseio pelo desconhecido. Se parto, rói-me a separação.

(…) Dou um boi pra não entrar numa briga. Dou uma boiada pra sair dela. Aos dez anos de idade vendi meu primeiro desenho pra jornal e me tornei alvo da admiração geral (minha mãe e minha avó). Aos quinze já era famoso em várias partes do mundo, todas elas no Brasil. Pois sou popular por natureza, por mais que me esforce pra ser hermético e profundo. Se eu chego e digo que achei um ninho de mafagafos com sete mafagafinhos, todos percebem logo que quem os desmafagafizar bom desmafagafizador será.

(…) Sou um crente, pois creio firmemente na descrença. Não creio em Deus, mas sei que Ele crê em mim. Creio que a Terra é chata. Procuro em vão não sê-lo.

(…) Apesar da escola, sou basicamente, um autodidata. Tudo que não sei sempre ignorei sozinho. Nunca ninguém me ensinou a pensar, a escrever ou a desenhar, coisa que se percebe facilmente, examinando qualquer dos meus trabalhos.

A esta altura da vida, além de descendente e vivo, sou, também, antepassado. É bem verdade que, como Adão e Eva, depois de comerem a maçã, não registraram a idéia, daí em diante qualquer imbecil se achou no direito de fazer o mesmo. Só posso dizer, em abono meu, que ao repetir o Senhor, eu me empreguei a fundo. Em suma: um humorista nato. Muita gente, eu sei, preferiria que eu fosse um humorista morto, mas isso virá a seu tempo. Eles não perdem por esperar.

Fonte: http://www.releituras.com/millor_bio.asp