fascism

Fora criada sozinha, só com a mãe. Tinha mais um irmão que pouco brincava com ela, pois acompanhava o pai no trabalho da roça, nas terras dos brancos. Ela e a mãe ficavam dias e dias sem ver os dois. (Conceição Evaristo em Ponciá Vicêncio)

Por quem os gritos se prostram
por Aline Menezes

A mineira e economista Dilma Rousseff, especialmente desde que assumiu o primeiro mandato na Presidência da República, sempre teve suas falas editadas e exibidas de modo debochado pelos seguidores dos comandantes fascistas. Na tentativa de silenciá-la, tentaram desqualificar os seus pronunciamentos para nos convencerem de que a chefe do País não estaria preparada para lidar com questões políticas e econômicas. No entanto, sabemos que as reais motivações por trás dessa reprovação desonesta, mediada pela atenção jocosa a seus discursos, são apenas mais um indicativo do quanto nós, mulheres, ainda temos que lutar, por exemplo, contra o sexismo e a misoginia.

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faith 2

A coragem de ser é a coragem de aceitar a si mesmo a despeito de ser inaceitável(Paul Tillich)

O amor nos tempos de insolência
por Aline Menezes

O teólogo alemão Paul Tillich escreveu certa vez que “o primeiro dever do amor é ouvir”. A despeito de todas as agressões que são feitas em nome de deus (deixemos, por hora, tudo minúsculo), não pretendo aqui discuti-las, mas uma delas quero mencionar: o desrespeito que muitos têm em relação à vida do outro, à crença ou à descrença alheia.

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truth

Os homens que realmente acreditam em si mesmos estão todos em asilos de loucos. (Gilbert K. Chesterton, escritor inglês)

Verdade
por Aline Menezes

Na infância, tive a curiosidade de ler o Novo Testamento. Sozinha, numa cadeira de balanço improvisada na lojinha de minha mãe, comecei a ler de Mateus a Apocalipse. Evidentemente, eu estava diante de um grande desafio: o de, tão cedo, querer compreender o que muitos adultos reproduziam de modos tão diversos, muitos dos quais equivocados, distorcidos e violentamente deturpados… Um versículo bem popular sempre me paralisou:

“E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.” (João 8:32)
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stupidity

A face humana é igual à daqueles deuses orientais: várias faces sobrepostas em diferentes planos, e é impossível ver todas elas de uma só vez. (Marcel Proust)

DEUS AMA OS GAYS,
mas isso não é o bastante

por Aline Menezes*

A minha fé (ou as minhas crenças) jamais deverá servir de desculpa para incitar a violência contra quaisquer pessoas que assumam práticas sexuais diferentes das minhas. Pela visão de mundo que sempre busco ter, acompanho com frequência o noticiário e o debate sobre os crimes executados contra os homossexuais, consequentemente, sobre os direitos deles. O que vejo: tolos e fariseus discutindo de maneira leviana questões fundamentais para qualquer país que queira ser democraticamente livre. 
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faith

A função da oração não é influenciar Deus, mas especialmente mudar a natureza daquele que ora. (S. Kierkegaard, filósofo dinamarquês)

É do silêncio absoluto e profundo que se ouve o barulho da dor e da angústia. É a nossa perplexidade que se movimenta solitária no chão de nossa experiência. Ainda não compreendemos a suspensão temporária da vida. Será sempre difícil constatar os nossos ferimentos e observar as cicatrizes que nos deixaram. Sentir as coisas, sentir as pessoas, sentir a rocha, sentir a água… isso esboça que ainda respiramos, mesmo quando tudo fica mais devagar e sôfrego, quase agonizante. Há momentos nos quais gostaríamos de apenas fechar os olhos, deixar a nossa pele impermeável às decepções e à agonia… Há momentos nos quais desejaríamos nos tornar nada, absolutamente.
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life

De tudo que existe, nada é tão estranho como as relações humanas, pensou ela, com suas mudanças, sua extraordinária irracionalidade. (Virginia Woolf, escritora inglesa)

Para não viver em vão
Por Ricardo Gondim*

Para não viver em vão é preciso oscilar entre as margens do bem e do mal, do ódio e do amor, da delicadeza e da estupidez. Por algum motivo, a sabedoria milenar acertou: a virtude pertence aos moderados. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra.

Para não viver em vão é preciso flutuar com leveza. Se necessário, encher os pulmões de nitrogênio e acompanhar o voo dos balões. E se o desejar ir às alturas for inevitável, não deixar  que o fascínio das nuvens roube o acocorar-se ao lado de quem está agrilhoado à crueldade da vida.

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short

A vida é muito curta para tomarmos às costas o fardo dos erros alheios. Cada um vive como quer e paga pelo que faz. Só é triste que muitas vezes se deva pagar por uma só falta. E a expiação não tem fim. Nos seus negócios com o homem, o destino nunca fecha a conta. (Oscar Wilde in O retrato de Dorian Gray, p. 153)

Porque a vida é breve
Por Ricardo Gondim*

Porque a vida é breve me deixo atrair pelo insólito. E com ele, desperto a coragem de correr riscos. Cito Rubem Alves: ?Os homens buscam a segurança para fugir da morte. Eles não sabem que a segurança é a morte em vida?. Noto os dias desaparecerem em nacos semanais. As semanas se diluem em meses. Os meses se esfarelam em anos. E os anos se acabam nas décadas. Inconformado com a ladeira do tempo, não permito que a vida despenque em direção ao nada. Se o relógio acelera na loucura do dia a dia, canto com Lenine:

?Enquanto o tempo
Acelera e pede pressa
Eu me recuso faço hora
Vou na valsa
A vida é tão rara?.?
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PORCOS SAGRADOS

Melancolia eram os sons de uma noite de inverno. (Virginia Woolf)

Alguns creem na influência de deuses sobre nós. Alguns não creem em nada além do que é palpável, visível, tangível. Alguns recebem como verdade única a doutrina espírita, legítima, imutável. Outros não enxergam um palmo abaixo do nariz. Hinduístas consideram as vacas sagradas. Outros vislumbram conhecimento raso, ridículo, mesquinho e inválido. Uns pensam que os avanços tecnológicos vão dominar o mundo. Alguns, como eu, acreditam na graça de Deus. No Evangelho segundo Jesus Cristo. Alguns defendem ser essa última crença algo pequeno demais, ilegítimo demais, ilusório demais. Não importa. Independentemente do que acreditamos, parece-me razoável seguirmos a vida sendo coerentes com o que cremos.

Sobre o que fizeram do Evangelho, transformaram-no em esterco. Bênçãos são vendidas diariamente. Negocia-se com Deus em troca de carros importados, de casas luxuosas, de terrenos suntuosos, de bons salários, de uma vida financeiramente de sucesso. Correntes dos empresários são idealizadas. Briga-se por um pouco de “dólares bem reais”. Tudo em nome da ridícula e enganosa prosperidade teológica. Projetaram um deus. E esse deus está morto! “Deus” é capitalista selvagem! Aproveita-se da dor alheia, da imaturidade alheia, da angústia e do vazio existencial de muitos. Jogam os porcos às pérolas.

Sugam a alma do homem. A individualidade do outro. A liberdade de escolha de quem quer que seja. Mulheres têm de ser castas. Casamentos têm de ser eternos. Não importa se essa união tenha se tornado insuportável. Dançar tornou-se algo pecaminoso. Beber e fumar são duas coisas diabólicas. Ouvir músicas que não sejam aquelas canções com “certa criatividade gospel” é repugnante. Cortar os cabelos é vaidade, como se tudo já não fosse vaidade nesta vida! Homens de cabelos longos é “armadilha de satanás”. Líderes religiosos são deuses cristãos. Missionários são salvadores da pátria. Tudo é tão patético!

Cria-se um modelo de vida impossível de ser experimentado honestamente e com liberdade de espírito. O excesso de ansiedade assola todo o ser. Busca-se sei-lá-o-quê. Perde-se um tempo danado inventando proibições. Recusa-se a ideia de Deus. Apenas como Ele é. Sem mais. Nem menos pudores. São orgias sagradas. Olhares sem brilho, fome e sede de viver. Poderes, gritos, orações repetidas, pobres criaturas com medo de irem pro inferno porque elas já sabem quem realmente são. A motivação não é mais ter vida em abundância, ter corações pacificados, ter espíritos longânimos, andar na contramão da loucura do dia-a-dia. Agora, a motivação é ser “perfeito” para que o inferno não nos perturbe. E os “santos” homens não nos chamem de “imorais”.

Não é assim que creio. Por isso, só posso pensar: eles dão esterco e chamam isso de evangelho…

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WOOLF, Virginia. O quarto de Jacob. Tradução Lya Luft. Osasco (SP): Novo Século Editora, 2008, p. 78.

DELICADEZA

Quem quiser encontrar a Palavra de Deus e não perder a si mesmo e aos outros sob a prepotência de posse absoluta da verdade precisará ir além do que está escrito. Precisará abrir-se para fundir horizontes. De quem escreveu, da tradição e os de seu tempo. Precisará de modéstia para as alteridades envolvidas no texto. Precisará de compromisso com o seu mundo e suas dores. Precisará de imaginação e delicadeza. (Elienai Cabral Junior)

Às vezes, é exatamente isto que nos falta:

delicadeza.

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Citação extraída do texto As sagradas entrelinhas.

É PROIBIDO PENSAR

Num daqueles brilhantes aforismos que iluminam toda uma paisagem, como um relâmpago, Nietzsche proclamou: “Errar é covardia!” Isto é, se deixarmos de distinguir a verdade não é por falta de cultura, de diplomas acadêmicos, e sim por não termos bastante coragem. (Rollo May, O homem à procura de si mesmo, Editora Vozes, 1982, p. 205)

Procuro alguém pra resolver meu problema
Pois não consigo me encaixar nesse esquema
São sempre variações do mesmo tema
Meras repetições

A extravagância vem de todos os lados
E faz chover profetas apaixonados
Morrendo em pé rompendo a fé dos cansados
Que ouvem suas canções

Estar de bem com vida é muito mais que renascer
Deus já me deu sua palavra
E é por ela que ainda guio o meu viver

Reconstruindo o que Jesus derrubou
Recosturando o véu que a cruz já rasgou
Ressuscitando a lei pisando na graça
Negociando com Deus

No show da fé milagre é tão natural
Que até pregar com a mesma voz é normal
Nesse evangeliquês universal
Se apossando dos céus

Estão distantes do trono, caçadores de Deus
Ao som de um shofar
E mais um ídolo importado dita as regras
Para nos escravizar

É proibido pensar (5x)

Procuro alguém pra resolver meu problema
Pois não consigo me encaixar nesse esquema
São sempre variações do mesmo tema
Meras repetições

Meras repetições
É proibido pensar

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Letra e música: João Alexandre
Violões e voz: João Alexandre
Cajón, pandeiro, caxixi, triângulo e ganzá: Osmário Marinho