farewell

There is so much hurt in this game of searching for a mate. And you realize suddenly that you forgot it was a game, and turn away in tears. (Sylvia Plath, escritora e poetisa americana)

Há um outro tipo de estrada que a espreita. O barulho de seus pensamentos a sufoca e a paralisa brutalmente. Não é possível habitar desta maneira! Mais do que em qualquer outro dia, ela sente que precisa ir. Houve uma lesão na alma, intensa, profunda. Acidental, mas ocorreu. Se ela não partir agora, será ainda mais amarfanhada. Aconteceu. “Ninguém decide sobre os passos que evitamos”… Viver assim, pensou, é doloroso, cruel, injusto. Existir assim, lamentou, é insuportável. Acabou, ela sabe disso. E agora é ela quem quer que seja dessa forma. O seu corpo, o seu espírito, a sua alma, os seus devaneios, as suas fantasias, tudo está desbaratado, destruído. Respira sofregamente, mas de cansaço, de agonia, de angústia, de dor. A pressa é pela morte, e não mais por ele, que partiu bruscamente, sem se despedir. Não precisa, não importa, é a vida. Cada um com os seus cortes, com as suas feridas, com o que ainda lhe resta de sangue.
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UM CONTO SOBRE SUICÍDIO

por Michel Oliveira*

Acordou sem gosto na boca. Mais uma vez teria de procurar algo que não sabia. Levantou despenteada. Cabelos loiros, pele clara. Olhos azuis perdidos na imensidão de seu vazio.

Quis cantar, mas não lembrava nenhuma canção. Seu toca-discos não funciona mais. Nunca foi adepta da modernidade, não aderiu aos CDs.

Suas pernas estavam peludas, mas que importa? Ninguém a acariciaria. Não lembrava seu nome, afinal não havia quem o chamasse.

Mas naquela manhã acordou diferente. Não havia gosto em sua boca. Lembrou-se então de que sentia sede. Desceu as escadas. Nos pés, as meias coloridas com que dormia todas as noites. Viu no aparador a fotografia de um antigo namorado, mas não conseguia lembrar-se da voz dele.

Lembrava-se de poucas coisas. Todas elas sem interesse para os outros.

Lembrou-se novamente de que tinha sede. Entrou lentamente pela cozinha e pegou um grande copo listrado que ganhou da avó. Bebeu lentamente com o ar solene que lhe era habitual.

Não sabia, mas havia matado a sede.

Por um instante cantarolou uma canção, mas não lembrava a letra. Teve fome. Havia dois dias que não comia. Abriu a geladeira, estava vazia. No armário encontrou torradas, estavam amolecidas, mas não importava. Comeu-as sem prazer.

Não sabia, mas havia matado a fome.

Ouviu um barulho, não sabia de onde vinha. Passou pela sala com as meias coloridas. Abriu todas as gavetas, o velho armário, mas nada encontrou. Tudo cheirava a mofo, mas não se sentia sufocada.

Abriu a pequena porta que fica embaixo da escada. Estava escuro, mas não teve medo. Destampou um velho caixote de madeira e encontrou o que estava fazendo o barulho. Uma velha caixa de música enferrujada que tocava sem ninguém dar corda. Não era o som agradável de antigamente, mas tocava.

Não sabia, mas havia matado a curiosidade.

Sentiu repentinamente falta de sexo. Ligou para um garoto de programa qualquer, que entrou sem lhe olhar nos olhos. Fez o que havia de ser feito, tomou banho e foi embora. Ela nada sentiu, apenas acalmou seu desejo animal.

Não sabia, mas havia matado o desejo.

Chovia lá fora. Uma chuva fria e dissimulada. Teve frio. Vestiu um velho casaco de lã, cheirava a naftalina, mas não espirrou.

Não sabia, mas havia matado o frio.

Queria dormir, mas o sono não vinha. Deitou-se. Rolou para todos os lados: de bruços, de lado, cruzou as pernas, os braços, os dedos, e nada. O sono não vinha. Lembrou-se então de velhos comprimidos que estavam na bolsa. Tomou-os sem fé que funcionariam. Nunca acreditou na ciência. Duas horas depois dormiu.

Não sabia, mas havia se matado…

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* Michel Oliveira, meu amigo, escreve no blog “Drogado Cultural“.

CATHERINE AND PETER LEWIS

por Aline Menezes

CAPÍTULO I

Algumas pessoas são como as obras de Tchaycowski, muito barulho, pratos, metais e bumbos, mas é só na superfície. Você é como Chopin e Debussy, uma aparência melódica, mas no fundo uma tensão insuportável que nunca se disssipa no movimento, é quase um rasgar do espírito. (Peter Lewis diz para Catherine)

CAPÍTULO II

… e não falemos de angústia. Dessa dor que nos dilacera, que nos torna culpados, como se pudéssemos controlar o mundo e tudo que nele há. Somos humanos por excelência, porque temos o desejo que nos purifica a alma: queremos viver. Sabemos ser inconseqüentes e intransigentes. Sentimos saudades ? eis nossa revolta contra o tempo, contra o espaço e contra o mundo. Discutimos nossas misérias cotidianas e históricas, pessoais e impessoais, buscamos ser honestos. Cinicamente honestos. (Catherine diz para Peter Lewis)

CAPÍTULO III

Compreendemos nossa condição fragmentária, imperfeita, implacavelmente imperfeita. E não nos mobilizamos por conta dessa imperfeição. Foi mais forte que nós. Mais intenso. Tenso. Desejos incontroláveis de transgredir. Não a transgressão que nos faz eternamente machucados, culpados, enganados. Mas aquela que nos deixa em paz, porque fomos capazes de dizer um para o outro o quanto somos especiais. E, curiosamente, não somos mais uma capela, mas uma verdadeira catedral. (Peter Lewis escreve para Catherine)

CAPÍTULO VI

O que há em nós é sagrado e profano. É puro e impuro. Parece vida, mas parece morte. Os dias nos consomem o espírito; roubam-nos o silêncio: a mudez; deixam-nos eufóricos, ansiosos, armados e desarmados. E também conspiram contra nós. É nisto que acreditamos. Mudamos o rumo de nossa história. Sentimo-nos seguros e inseguros. Livres e aprisionados. Um paradoxo sem fim. Mas somos a nossa própria e imensa vontade de viver. (Catherine escreve para Peter Lewis)

THE END

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Nota: Esta imitação de conto é apenas minha forma de falar das lembranças que ficam em minha memória. Recordações daqueles anjos que me motivaram e me inspiraram para rascunhar certas linhas. E é assim que me despeço de 2007: com pequenos e intensos diálogos de quem também já soube o que é amar!

O BEIJO ERÓTICO

O beijo erótico, que envolve os lábios e a língua, é uma parte do jogo amoroso. Quando o casal se beija com a língua (no chamado “beijo da alma” ou “beijo francês”), a língua reflete e liga diretamente seus corações, enquanto os lábios dão e recebem afeto mútuo. Além disso, os meridianos Vaso Governador e Vaso Concepção de cada parceiro estão ligados aos lábios e à língua, fazendo, como já dissemos, um circuito completo de fluxo de energia quando o casal se beija. (p. 99)

E ouço os gritos silenciosos nas ruas por onde passei. Acompanhada daquele encantamento que só os apaixonados sabem demonstrar. Impulsionada pela certeza de que este é o momento dos corpos entrelaçados. Das posições proibidas. Da arte secreta da Câmara de Jade. De posturas místicas. Ele deitado de costas. Move-se. Ela.

Corpo. Carne. Volúpia. Dos olhos, nascem belezas. De encontros, nascem os lábios. Os ruídos, os pequenos suspiros. O relaxar dos músculos. Batimentos cardíacos. Delírios saudáveis dos instantes. Instintos maiores. Em carícias e beijos. Suaves olhares. Cheiros. Sabores. Perfeita harmonia. Compatíveis movimentos…

… para cima e para baixo.

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CHIA, Mantak & WEI, W. U. Reflexologia sexual: o tao do amor e do sexo. São Paulo: Cultrix, 2002.

BREVE MANUSCRITO DE CATHERINE

Do meu lado esquerdo, há um pai segurando o filho no colo e um livro infantil nas mãos. O pai lê para o filho a historinha de Max, o carro falante, e das personagens Carolina e Beatriz. O filho, curioso, a cada frase do pai, faz-lhe uma pergunta. Eles ficam assim por algum tempo.

Eu, sentada no chão, escrevendo estas linhas, observo as pessoas em minha volta: algumas estão com os seus notebooks; outras, com as suas inquietações. Alguns lêem revistas, fazem anotações, andam de um lado para o outro. Ou, simplesmente, aguardam a hora do embarque.

O vôo está atrasado. Poucos minutos atrasados. Neste momento, tento não pensar em minhas frustrações, luto contra as lembranças, invento que estou melhor. Nada adianta. Quanto mais não quero pensar, mais penso.

Duas mulheres acabam de se conhecer no saguão do aeroporto. Elas nada sabem uma da outra. Mesmo assim, acreditam ser grandes amigas. Do outro lado, uma mulher folheia a Caras. Um senhor lê um livro de aproximadamente 150 páginas. Tentei ver o título da obra, mas não foi possível… Ah, nunca saberei o que ele estava lendo!

E eu? Eu estou do lado de cá, consciente. Consciente de meu fracasso. Às vezes, nossa vida é como um saguão de aeroporto: todos têm a expectativa de vôo, mas nem todos embarcam na hora certa…

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IMENSIDÃO

Vôo
só. Sozinha vou,
num vôo só.
Vôo
só. Sozinha vou,
num vôo só.
Céu que não é seu.
O seu é o céu.
Na imensidão de
sentir-se sol.

(Por Aline Menezes)

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VIAGEM DE VENTANIA

“A vastidão parecia acalmá-la, o silêncio regulava sua respiração. Ela adormecia dentro de si. De longe via a aléia onde a tarde era clara e redonda. Mas a penumbra dos ramos cobria o atalho. Ao seu redor havia ruídos serenos, cheiro de árvores, pequenas surpresas entre os cipós. Todo o Jardim triturado pelos instantes mais apressados da tarde. De onde vinha o meio sonho pelo qual estava rodeada? Como por um zunido de abelhas e aves. Tudo era estranho, suave demais, grande demais.” (p. 207)

Para nos sentirmos seguros, queremos prever as ações do outro. O outro é estranho, portanto, provoca-nos incertezas, dúvidas, medo. Era assim que Ana, personagem de Clarice Lispector, encarava a vida. Os seus dias eram todos iguais. Sem surpresas. Sem sobressaltos. Conseqüentemente, sem paixão.

Ana teve o seu momento de lucidez: por um instante, deparou-se com o desconhecido. Sentiu que dentro dela ainda havia espaço para o despertar. A propósito, quem é o forte que consegue controlar a sua sombra por muito tempo? Quem é o forte que lidera o mundo ao seu redor? Seremos sempre inúteis na tentativa de adivinhar a vida.

Seria bom dizer: não sejamos seres despedaçados. Mas, na verdade, já somos. Totalmente despedaçados. Mesmo que não acreditemos nisso. O jardim é tão bonito! Será que é por isso que temos medo do inferno? Perguntemos ao mundo sombrio de Ana. “Agora que o cego a guiara até ele, estremecia nos primeiros passos de um mundo faiscante, sombrio, onde vitórias-régias boiavam monstruosas”…

E quando faremos parte das raízes negras e suaves do mundo? Sabemos, apenas, que cada um adormece dentro de si.

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LISPECTOR, Clarice. Trecho do conto “Amor”. In: ___ Os melhores contos de Clarice Lispector. (Seleção Walnice Nogueira Galvão). São Paulo: Global Editora, 1996.

A MAIS ANTIGA

A casa tinha dois quartos. Era pequena. Sem luxo algum. A propósito, a simplicidade da casa refletia na criança a satisfação de ser criança. Não precisava se preocupar com móveis caros. Não precisava se preocupar em não quebrar objetos caros. Tudo era muito simples.

Nove anos. Era essa a idade da criança sorridente. Os vizinhos ainda se lembravam dela caminhando descalça pelas calçadas da cidade. Cabelos lisos. Castanhos. Pele morena. E divertida, embora tímida em algumas situações. Seu nome? Ah, seu nome…

O seu Jânio e a dona Zuleide, o casal mais velho da vizinhança, diziam que ela era esperta, que gostava de sentar no sofá e conversar. Falar sobre coisas que ela mesma não entendia. Era a presença do casal de idosos que inspirava curiosidade naquela menina.

– Seu Jânio, o senhor gosta do jornal? Ela perguntava.
– Sim, é bom pra gente ficar sabendo das coisas. Respondia o senhor.

Uma das coisas que mais chamavam a atenção da criança na casa daquele casal eram as bonecas tão bem guardadas por dona Zuleide. Brinquedos que estavam lá há anos. Dona Zuleide ainda tinha sua primeira boneca, que ganhara quando ela ainda era menina. Curiosa, a criança sempre pedia pra vê-las.

– Dona Zuleide, a senhora pode me mostrar aquela ali? Ela apontava em direção à mais antiga.
– Claro, meu anjo.
– Segura um pouquinho! A criança adorava isso.

E eram assim todas as outras noites. Ela tomava banho e dizia:

– Mãe, vou ver seu Jânio e dona Zuleide.

O tempo passou.

A cidade mudou.

Os vizinhos eram outros.

Seu Jânio e dona Zuleide… ela sabia pouco sobre eles agora.

E, ainda hoje, a criança, já mulher, sente saudades daquelas noites, em que a menina simplesmente queria ver o que ela não tinha.

Parte de sua história está lá, naquela cidade, naquela cidade que mudou.

Saudades dos vizinhos que não estão mais lá!

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* Este conto foi publicado pela primeira vez em 26 de dezembro de 2004, no endereço http://waltercruz.com/log/a_mais_antiga.