wings

Uma voz, harmoniosa e fraca, perdia-se sobre as ondas; e o vento levava os trinados que Léon ouvia passar, ao seu redor, como um bater de asas. (in Madame Bovary, Flaubert, p. 226)

As ruas daquela cidadezinha ainda são as mesmas: largas, cheias de nada, vazias e escuras. São os sons do silêncio que nos ensurdece, malditas esquinas que têm nomes, inúteis. O cativeiro da liberdade, escondida por detrás das margens. Profundas e irreconhecíveis, sinais vermelhos, dando mostras de que agora tudo é perigoso.

Pessoas vagando pela estupidez, mal deste século. Um tipo de cansaço que até nos alivia, havia, ali. Modos infames, pensamentos lascivos, repugnantes. Que dirá de tudo? Que dirá de todos? Que dirá de ninguém? Basta não ser como os outros, não ser como os demais. Basta dizer que se tem o dom de não se ter. Querer.

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luna

Nada pode durar tanto, não existe nenhuma recordação que, por intensa que seja, não se apague. (Juan Rulfo, Pedro Páramo, p. 107)

Exceto pelo barulho que ouço, esta noite está silenciosa. Lembro-me, apesar das falhas, de quando andava pelas ruas de minha  pequena cidade. As coisas eram maiores naquela época; as casas eram mais distantes. O tempo não parecia tão sufocado, muito menos apressado. Tudo parecia bom. Mas, no fundo, eu sentia as emoções bem de perto.

Talvez desde sempre houvesse esta necessidade de me inquietar: algo sem nome; sem precisão; sem aparência. Vez ou outra, apego-me ao que ainda será. Transito entre aqueles espaços largos da avenida onde quase nasci e a agradável sensação de estar nesta arquitetura do cerrado. Prefiro esta minha incansável inexatidão.

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disguise

 

Cansado da sua beleza angelical, o Anjo vivia ensaiando caretas diante do espelho. Até que conseguiu a obra-prima do horror. Veio, assim, dar uma volta pela Terra. E Lili, a primeira meninazinha que o avistou, põe-se a gritar da porta para dentro de casa: – Mamãe! Mamãe! Vem ver como o Frankenstein está bonito hoje! (O disfarce, Mario Quintana)

 

 

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lyricism

[…] façamos a mesma súplica de Alfred de Musset: “Poeta, pega tua lira”. Sim, é de verdadeiro lirismo que necessitamos, e não de adrenalina. Rompamos a aliança funesta que se atou entre a sensibilidade e o artificialismo. Recuperemos nossa capacidade de vibrar diante do que é natural e belo. (Michel Lacroix, filósofo francês, p. 203)

Angústia é o nó invisível; é a ausência de espaço dentro de nós. Recolher-se é a alternativa para a alma doída e triste. Ou a covardia para quem não quer expor sua ferida. Definições são tentativas de se explicar ou tornar algo minimamente acessível. E assim sigo: sem a compreensão exata do que nos acontece, mas com a esperança de que há algo menos petrificado no meio do caminho.

… saber dói. Morre-se: quem não enxerga a beleza das coisas naturais, quem depende de artifícios para perceber a distância entre ontem e hoje. Morre-se: quem não se divide ao menos uma vez na vida, para depois tornar-se inteiro. Morre-se apenas. Quem não completa o luto. Luto é não saber como será, mas permitir-se aceitar que já não é. Algo sempre nos arranca a vida.

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einfühlung

O que corrói os homens não são os sentimentos que eles vivenciam, mas os que se recusam a vivenciar, por terem vergonha ou medo. (Michel Lacroix, filósofo francês, p. 65)

Sofreguidão. Liberdade é sentir-se só e, ainda assim, estar feliz. É ser inebriado e, mesmo assim, permanecer lúcido. É descobrir, sem espantos, que há amores secos. E seguir adiante…

Liberdade é não necesssitar de provas. É não se esforçar para ser amado. Liberdade é acreditar num silêncio que não é insosso nem cínico. Liberdade é ter a chance de recomeçar a vida…

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people

Quem sabe direito o que uma pessoa é? Antes sendo: julgamento é sempre defeituoso porque o que a gente julga é o passado. (J. Guimarães Rosa)

Inicio o novo ano com a minha velha e irritante incredulidade: pessoas são seres insuportáveis. O bom é que encontro na literatura a possibilidade do meu desabafo. Da certeza de que a novidade da qual precisamos é a de espírito. Para mim, integridade é saber o que somos. E, na dúvida, apenas sermos.

A composição de Belchior me desperta: “[…] por isso, cuidado, meu bem: há perigo na esquina!” E prossigo sabendo: “minha dor é perceber que, apesar de termos feito tudo o que fizemos, ainda somos os mesmos”. Nasci pra ser inteira. Por essa razão, não há espaço em mim para fragmentos de gente.

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LOWER CASE

… a tentativa de compreender o ponto de vista de todos muitas vezes mostra que nós mesmos estamos desinteressadamente em uma posição média ou superior, e que tentar harmonizar pontos de vista conflitantes em um consenso implica rejeição da verdade de que certos conflitos só podem ser resolvidos unilateralmente. (Literary Theory by Terry Eagleton)

pessoas são seres insuportáveis. fingem preferências artísticas quando as julgam símbolos de bom gosto, inteligência e fascínio… tudo não passa de estupidez. aliás, a arte é estúpida: ninguém a define. mas todos se sentem melhores quando dizem que a apreciam, não necessariamente porque a apreciam. garotas pin-up dos anos 1920.

pessoas são seres que me cansam. bem disse miguel: ah, “cansei das pessoas pelas quais não tenho admiração”. lábios broncos e sobrancelhas sem moldura. cospem no prato que compraram. acham-se donos daquilo por que pagaram. olham mas não enxergam. respiram mas não vivem. andam mas não saem do lugar. riem mas não entendem a piada. falta-lhes humor.

pessoas são seres vestidos. a nudez nem sempre lhes parece bela, porque há imperfeições. assimetrias não são bem-vindas. há os que rejeitam a perfeição, apenas de propósito. isso os faz parecer esquisitos. e ser estrangeiro parece “cult”. minha nudez não é para todos. mas não quero estar vestida todos os dias.

pessoas são seres nojentos. óbvios e previsíveis. incompatíveis com a beleza do universo. rimas entediantes, diálogos fúteis, ideias atrofiadas, imbecis em copos de preconceitos. timbres e batidas forçadas. porque pessoas não são sons de uma noite de inverno: são melodias sem apoio musical.

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EAGLETON, Terry. Teoria da Literatura: Uma Introdução. Tradução Waltensir Dutra. São Paulo: Martins Fontes, 2006, p. 10.

gauche

Há em nós qualquer coisa de absoluto, que não pode ser qualificada. É o que a sociedade aborrece e distorce. (Virginia Woolf)

É isto que me move:

saber que todos os minutos se passam, mas de hora em hora.

Por que não aceitam nossas ambivalências?

Por que é necessário simular que não somos contradições?

Por que mentem quanto às nossas ambiguidades?

Anjos e demônios não são produções maniqueístas,

tão-somente.

Não são fantasias de ingênuos e crédulos.

Minhas dúvidas não cabem em mim.

É por isto que tanto luto:

resigno-me.

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WOOLF, Virginia. O quarto de Jacob. Tradução Lya Luft. São Paulo: Novo Século, 2008, p. 197.

CARTAS A UMA SENHORA AMERICANA

É raro o ser humano mostrar-se totalmente sincero ou totalmente hipócrita. A disposição muda, seus motivos são confusos e ele em geral se engana bastante em relação a quais sejam seus motivos… (C.S.Lewis)

O escritor irlandês C.S.Lewis (1898-1963), durante os últimos treze anos de sua vida, trocou correspondências com uma americana. Lewis e a senhora dos Estados Unidos nunca se encontraram pessoalmente. Mesmo fragilizado pelos seus problemas de saúde (sem contar com o período em que sofreu a perda de sua mulher Joy), ele sempre demonstrou em suas cartas a preocupação com o outro. A honestidade de quem sabe de suas imperfeições e, nem por isso, esconde-se por trás de suas virtudes.

No início, pensei que Cartas a uma senhora americana me daria apenas o prazer de ler as cartas escritas por um bilhante escritor, aquele ser inatingível e inacessível aos olhos dos fãs. Até o momento em que enxerguei a beleza do homem Clive Staples Lewis (Jack, se preferir). Aquela beleza sobre a qual escrevo de vez em quando. E que admiro sinceramente. Beleza que não se encontra com facilidade, que não está à venda, que quase nunca encontramos no ambiente de trabalho, no meio acadêmico, nas ruas da cidade, na esquina, nem nas lojas Tiffany’s.

A simplicidade de quem revela dor: “… Não posso descrever a aparente irrealidade de minha vida desde então [a morte de Joy]. (…) Tentarei escrever de novo quando tiver mais controle sobre mim mesmo”. A certeza de que deveríamos, sim, viver como os lírios dos campos. Deveríamos, sim, compreender o quanto somos miseráveis. E que, se há alguma beleza em nós, não é fruto da seleção natural. Nem muito menos dos nossos antepassados. Se há alguma beleza em nós, sejamos gratos, afinal de contas…

… “um homem com as mãos cheias de pacotes não pode receber um presente”.

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LEWIS, C.S. Cartas a uma senhora americana. Tradução Lenita Esteves. São Paulo: Editora Vida, 2006, pp. 91, 112 e 120.