Human

Entre o choro e o riso do que é humano
por Aline Menezes*

“Quando não tem mais o que comer, vamos catar arroz em buraco de rato. Quando a gente acha um pouco, a gente coloca num cesto. Só vai para casa quando enche um saco. [..] Deus tem um coração bom. Ele nos protege e nos dá tudo. Quando ele me vê procurando em todo canto, eu sempre acho uns grãos.” Essa frase é a transcrição do relato de uma mulher chamada Lalmati, na Índia, que é uma das personagens reais da primeira parte do documentário “Human” (França, 2015), dividido em três volumes, realizado pelo jornalista e fotógrafo francês Yann Arthus-Bertrand, e lançado no Brasil em 2016, cuja divulgação inicial foi feita em trechos no YouTube, correndo o mundo.

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stupidity

A educação é o ponto em que decidimos se amamos o mundo o bastante para assumirmos a responsabilidade por ele… (Hannah Arendt)

Vamos celebrar a nossa estupidez
por Aline Menezes

Na ausência de bons argumentos, de raciocínios que realmente sejam fruto de reflexões aprofundadas sobre os fatos e que não sejam reproduções falsificadas do senso comum, parece natural que uma das primeiras manifestações das pessoas – quando estão diante de debates “polêmicos” – seja a tentativa de desqualificar ou desvalorizar lutas legítimas como, por exemplo, a dos movimentos negros, feministas e LGBT.

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aloneness

[…] “aloneness as a human condition; as a greater, graver issue”... (Adrien Brody, em entrevista ao The Observer, sobre o filme Detachment)

Enquanto não consigo parar a minha vida a fim de passar horas e horas assistindo aos filmes que integram a minha lista particular cinematográfica, e isso inclui sessões das mais diversas nacionalidades (não gosto de coisas homogêneas), satisfaço-me lendo entrevistas concedidas pelos atores durante a divulgação de seus trabalhos. Para o jornal The Observer, vinculado ao britânico The Guardian, o vencedor do Oscar de melhor ator em 2002 pelo filme O pianista, Adrien Brody, conversou com a jornalista Alex Clark sobre a nova produção Detachment (2011), dirigida por Tony Kaye (você sabe quem é ele?). O título da matéria publicada recentemente é Adrien Brody: The quiet American, também disponível em português no site da revista CartaCapital. De tudo que li no texto, apenas uma frase quero destacar brevemente aqui: “a solidão como condição humana; como uma questão maior e mais grave”. 
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attraversiamo

Às vezes, perder o equilíbrio por amor é parte de uma vida equilibrada. (Ketut Liyer, personagem xamã)

Quando ouvi e, em seguida, li que “o Augusteum é, hoje em dia, um dos  lugares mais tranquilos e mais solitários de Roma, enterrado bem fundo no chão”, a lembrança de nossas ruínas particulares foi inevitável. E pensar na necessidade de que elas existam, mais ainda.

Organizar o nosso caos interior (se é que faz sentido organizá-lo) é tarefa árdua. E requer de nós, talvez, uma vida inteira. Há loucuras específicas na existência. E resisti-las é possivelmente um milagre.

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all free

I wanna a breeze in an open mind / I wanna swim in the ocean / wanna take my time for me, all me. (Maybe tomorrow by Stereophonics)

Lentamente algo se dilui dentro da gente. O desespero da alma desalinhada dá lugar à suavidade de quem respira. Cada um carrega suas dores impronunciáveis e sem vírgulas. Pausas impensadas pela incredulidade. A sensação de que algo se partiu. Rasgos. Ferimentos que nos conduzem à morte, esta certeza inquietante: (…).

Recolho-me porque preciso andar. E não me digam o que é necessário fazer. O silêncio traz encobertas questões traiçoeiras, percepções equivocadas e desonestas. Se encontro conforto, é porque sou tomada pelo inconformismo. Sinto a aceleração destas linhas, que começaram de modo tão ameno.

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shadowlands

A morte existe e, seja lá o que for, ela importa. Tudo o que acontece traz consequências, e tanto a morte como as consequências são irrevogáveis e irreversíveis. Você pode, do mesmo modo, dizer que o nascimento não importa. Ao olhar para o céu noturno, pergunto-me se há algo mais certo do que isto… (Lewis, p. 39)

Rápida e indigesta: assim defino esta sociedade fast food, que não tem tempo sequer para as experiências abstratas. Que não mais assimila a solidez dos amores perdidos (ou presentes). Que nos faz adquirir coisas e sensações estúpidas, a exemplo dos meus medos de raios e cigarras. Não são as lágrimas piegas que procuro, mas o encantamento da vida que pulsa em profusão.

Busco o desespero em suaves doses de melancolia. O sentido exato de nossas perplexidades, as contradições internas e em simetrias. Valores meus, só meus. Sem donos nem rostos nem definições, assim: temporariamente sem vírgulas. Minha fé não está em abandono. Ela é concreta – mesmo quando não a sinto tão perto. Tão grande. Tão convicta de ser quem ela é.

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nothing

[…] Pense por um momento no mundo em que vive um rato. É um mundo sem dúvida hostil. Se um rato passasse pela sua porta da frente neste minuto, o senhor o receberia com hostilidade? (do coronel alemão Hans Landa para o francês Perrier LaPadite, p. 11)

Minha fé não é poética, tampouco acaricio seres repugnantes. Percebo que há ratos e ratos, há espécies invasoras. E outras nem tanto. Escondo-me no assoalho de casa: para fugir não dos roedores, mas de mamíferos de caudas mais curtas e de focinhos arrebitados.

Sim, insisto: minha fé não é poética. Não quero ser recruta, apenas tomar vinho. Ter a sensação da embriaguez que me toca os lábios, mas não me anestesia a consciência. Só os tolos têm raiva da lucidez. Só as criaturas vis nos parecem nocivas; e quanto às outras?

É. Acho que sou garota de sorte, pois a insanidade que me assombra é a mesma leveza que me liberta.

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TARANTINO, Quentin. Batardos inglórios: o roteiro original do filme. Tradução Anna Lim. Barueri (SP): Manole, p. 11, 2009.

COISAS BELAS E SUJAS

– Personagem (comprador): Como é que nunca vi vocês antes?
– Okwe (Chiwetel Ejiofor): Porque somos gente que vocês não vêem. Nós dirigimos seus táxis, limpamos seus quartos and suck your cocks.
(Diálogo do filme Coisas Belas e Sujas, dirigido por Stephen Frears, com a atriz francesa Audrey Tautou)

Antropologia e sociologia são algumas das áreas do conhecimento que mais me atraem. Analisar a influência do meio social sobre o homem, entender de que maneira as relações humanas ocorrem, compreender como se formam os preconceitos e o porquê da união de alguns grupos sociais ou até mesmo a desintegração desses grupos.

Em Coisas Belas e Sujas (2002), cujo título original é Dirty Pretty Things, a atuação de Chiwetel Ejiofor (no papel do imigrante ilegal nigeriano Okwe) é tão emocionante quanto o próprio desenrolar da trama. Numa mistura de humor e drama, o filme apresenta a difícil vida de imigrantes ilegais em Londres e aborda o tráfico ilegal de órgãos na capital inglesa.

Particularmente, duas questões específicas me emocionaram: o sentimento de honestidade (paradoxo) e espírito lúcido em Okwe e a condição da mulher diante de homens estúpidos. Interpretada pela atriz Audrey Tautou, Senay é uma jovem turca de 22 anos. Num momento em que se encontra sem saída, ela se submete aos caprichos sexuais de dois homens bizarros.

O filme de Stephen Frears é assim: bonito e triste, com coisas belas e definitivamente sujas.

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Para ter mais informações sobre o filme, clique aqui.

SAD AND BEAUTIFUL

Sometimes I
Get so sad
Sometimes you
Just make me mad
It’s a sad and beautiful world…

(Sung by Paul Sandow)

O psicólogo existencialista Rollo May defende que “são as pessoas de personalidade fraca as que se sentem dominadas pela força da tradição, não podem suportar sua presença e, portanto, capitulam diante dela, desligam-se, ou rebelam-se”. Pelo que pude apreender de suas considerações, a proposta é nos fazer pensar que – longe de provocar o enrijecimento dos sentidos e das idéias – é possível mergulharmos na tradição e, ainda assim, conservarmos nossa própria singularidade.

Ele completa: “[…] quanto mais profundamente confrontarmos e sentirmos a riqueza acumulada da tradição histórica, tanto mais conheceremos e seremos nós mesmos. A luta, portanto, não é entre liberdade individual e a tradição como tal. O importante é saber de que modo a tradição é usada”. Isto é, seria possível nos relacionarmos com a tradição, sem que para isso nossa liberdade individual seja sacrificada?

Numa tentativa de se rebelar contra a tradição, muita gente cruza caminhos considerados “alternativos”, anulando experiências anteriores, desconsiderando a sabedoria dos antepassados e acreditando que esse comportamento os transforma em seres intelectuais, independentes e críticos da nova sociedade… Como se houvesse algo de puramente novo debaixo dos céus! Esse tipo de rebeldia, como escreve Rollo May, é muitas vezes confundido com a própria liberdade, “tornando-se um falso porto de refúgio na tempestade por dar ao rebelde um ilusório senso de independência”.

Autor de “O homem à procura de si mesmo”, Rollo May acrescenta ainda mais: “[…] a essência de um clássico é emergir de tais profundezas da experiência humana que, como as obras de Isaías, a tragédia de Édipo, ou O Caminho de Lao-Tzu, seja capaz de comunicar-se conosco, que vivemos séculos mais tarde, em culturas inteiramente diversas, falando-nos com a voz de nossa experiência, ajudando-nos a compreender melhor a nós mesmos e a enriquecer-nos, despertando ecos que talvez não soubéssemos existir”.

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MAY, Rollo. O homem à procura de si mesmo. Rio de Janeiro: Editora Vozes, 1982, p. 129, 172 e 173.

Paul Sandow é o personagem interpretado por Paul Dano, no filme “The King” (2005), com Gael García Bernal, William Hurt e Pell James no elenco.

AGNES DE DEUS

A boa poesia é a música da matemática. Números que cantam. Olhem além das palavras para compreenderem os seus sentidos. (Dr. Fredericks, personagem do filme O bom pastor)

Desde a infância, tenho o hábito de guardar frases. De identificá-las nos livros, nas músicas, nas ruas e no cinema. Há sempre alguma frase que traduz perfeitamente a maneira como percebemos a vida. Como sentimos as pessoas. Como identificamos o nosso lugar no mundo. Haverá alguém que já disse o que gostaríamos de dizer. Que já pensou o que poderíamos pensar. Ou até mesmo o que nem pensaríamos. Ou nem diríamos. E nada me parece novo. Ainda que dito pela primeira vez.

A bondade humana é um mito. E somente alguém não-humano seria capaz de produzir tanta beleza na vida. De plantar no homem e extrair dele alguma coisa boa. Sim, chamem-me de incrédula. Mas é assim que é. Somos todos tolos. E pensamos que somos mais que isso. Pergunto-me: como sobrevivem as pessoas demasiadamente insensíveis? Não sei. Nada há de mais atraente do que a linguagem da alma perspicaz. Mesmo que ela nos pareça piegas. E eu rio de nossa capacidade fantasiosa e infantil de considerarmos o outro anjo.

O homem não me surpreende.

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O bom pastor (2006, EUA, The Good Shepherd) – filme dirigido por Robert De Niro, com Matt Damon (Edward Bell Wilson), Angelina Jolie (Clover/Margaret Ann Russell), Alec Baldwin (Sam Murach), William Hurt (Philip Allen), Billy Crudup (Arch Cummings), Joe Pesci (Joseph Palmi), John Turturro (Ray Brocco) e Michael Gambon (Dr. Fredericks) no elenco.