Carta à jovem Malala

Carta à jovem Malala: moro num país tropical
por Aline Menezes

Comecei a frequentar a escola aos três anos de idade; aos cinco, aprendi a ler. De lá pra cá, passaram-se três décadas e continuo lendo, estudando, gostando de aprender e de conhecer mais – por exemplo – sobre a vida, as pessoas, o mundo e o universo literário. No entanto, moro num país onde nada disso parece importar muito. E, quando isso denota relevância, é apenas superficialmente, como se títulos e diplomas dessem às pessoas o direito de elas serem arrogantes e estúpidas com aquelas que não tiveram as mesmas chances e oportunidades que muitos de nós tivemos.

Até mesmo eu, que sou de origem pobre, consigo perceber o quanto fui relativamente privilegiada, no momento em que minhas tias me acolheram em Brasília, sem que eu precisasse pagar aluguel ou acordar às 4h da manhã para pegar ônibus lotado no início dos anos 2000, a fim de que eu tentasse uma vida melhor, após ter saído tão jovem do interior de Sergipe. Nem tudo tem sido mérito meu. Ao longo de minha vida, tive suporte e ainda posso contar com o apoio de muita gente…

Moro num país onde frequentemente somos orientados a omitir nos currículos nossas qualificações profissionais e acadêmicas, sob o risco de não sermos contratados porque supostamente as empresas não vão querer nos pagar “salários altos”. Se sou jornalista, tenho especialização em literatura brasileira, mestrado em crítica literária e faço doutorado em estudos literários comparados, tendo passado uma temporada na Universidade de Indiana, Estados Unidos, e se tenho experiência como professora, nada disso parece importar muito no Brasil de políticos como a maioria que está ocupando as cadeiras no Congresso Nacional.

Se trabalho desde os 15 anos de idade, isso parece não fazer muita diferença. Se aceito trabalhar por uma remuneração bem abaixo do piso salarial de minha categoria de jornalista, não contribuo para evitar os abusos da iniciativa privada, pelo contrário, apenas enfraqueço a nossa luta por condições de trabalho dignas e justas. Ou se aceito assumir uma sala de aula com 90 alunos, a ponto de isso me provocar disfonia, comprometendo minha saúde vocal, sou cúmplice da ação de as instituições educacionais transformarem pessoas em números, não se preocupando com a qualidade de ensino. Porém, se tenho interesse em concluir o doutorado e não recebo bolsa de estudos, mesmo estando numa universidade pública federal, significa que eu preciso me sustentar de algum modo, uma vez que não tenho pais ricos que possam bancar o meu “luxo de fazer doutorado”. Então, vou aceitar o que me oferecem.

Tudo isso porque moro num país tropical, mas que – convenhamos – não tem sido tão abençoado assim por Deus. Aliás, deveríamos deixar questões sagradas fora disso e exigir de nós mesmos e dos políticos que nos representam o compromisso e a responsabilidade pelo que enfrentamos no dia a dia do Brasil. Um dos problemas continua sendo a desvalorização e o desrespeito aos trabalhadores e às trabalhadoras de nosso país, assim como o problema de não admitirmos que, neste país tropical, malhar a bunda e turbinar o tórax são muito mais importantes do que aprender a ler na infância. Este país tropical é o mesmo em que há figuras públicas idiotas que manifestam ódio a uma jovem como você, Malala Yousafzai, que se tornou símbolo mundial de luta por educação.

No Brasil, não temos homens-bomba, mas todos os dias homens e mulheres levam tiros na cabeça, não porque estão indo à escola, mas porque são pobres, pretos ou, a exemplo de Marielle Franco, não se conformam com a realidade desigual e injusta deste país do Carnaval e resolvem denunciar e questionar o estado das coisas. Portanto, se eu gosto de estudar e de ler, o azar é todo e somente meu.

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