borderline

A pólvora permaneceu tão inofensiva quanto areia, porque nenhum fogo chegou perto para fazê-la explodir. (Emily Brontë in O morro dos ventos uivantes)

Aqui não há roteiros, o que existe é a vida… e nada mais. É o que temos, mas não em possessão, pois a vida não se permite ser propriedade de ninguém. Apenas (e isso é tudo) está aí, disponível para todos. E pode desaparecer a qualquer instante. Com a ajuda da implacabilidade do tempo, a vida me parece algo raro demais para nos perdermos entre tantas veleidades. Ainda ontem eu era somente uma criança curiosa e tímida, ironicamente tímida. Ainda ontem… Ontem a distância entre a casa dos meus avós maternos e a casa dos meus pais me parecia longa, o que tornava tudo mais alegre e especial. Ir visitá-los, andar pelas ruas de uma cidade interiorana, ver as pessoas caminhando, crianças brincando, a pracinha da igreja, enfim, a vida também estava lá, fantasiada, mas estava. E era bela. Ontem eu era. Hoje estou. Porque “ser”, a gente já não sabe mais se “é”. E essa diferença poeticamente semântica, eu não saberia explicá-la em inglês.
Hoje estou: esse é o meu modo particular de sentir as experiências diárias, o cotidiano. Kierkegaard escreveu que “não ousar é perder-se”. Penso, às vezes, que já me encontrei o bastante, eis: estou explodindo, incontrolavelmente. Que angústia! Mas eu sei que a vida está aí, “disponível para todos”. Tão incerta! A estrada – para mim – será sempre demasiadamente comprida, assim como o advérbio. O que distingue a sensação de fazer um caminho maior, na infância, e a sensação de fazer um caminho mais longo agora? Quando menina, eu ainda não havia vivido o suficiente para ser tão exata nas percepções; adulta, já vivi muitas tristezas para me enganar com esperanças…

… onde eu estive entre a inocência e o desespero? […].

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