beauty

O alferes eliminou o homem. (Machado de Assis, “O espelho”)

Da beleza que nos ameaça todos os dias
Por Aline Menezes

Recuso o imperativo de que preciso ser bela. Rejeito qualquer tentativa de compra da ilusão de que meu corpo necessita de aprovação alheia para manter-se em paz com o cosmos. Abro mão das unhas pintadas diariamente porque isso me custa dinheiro, tempo e disciplina que não possuo, que não me pertence e que ainda não me interessei em conquistar, e tenho a desculpa de que unhas também precisam de respiração. Mas me mantenho regular em muitos outros cuidados. Entendo que a aparência física nos importa e que há outras questões no meio do caminho. Penso em tudo isso porque tenho o péssimo hábito de levar em consideração os detalhes, de querer combater solitariamente a brutalidade com que tudo em nossa volta é conduzido.

Eis que me flagro lendo sobre Andressa Urach, internada em estado grave, após submeter-se a procedimento de remoção de hidrogel na região das coxas (ou qualquer referência nesses termos ou em outros mais apropriados). Nos anos 1990, a notícia era sobre o coma da modelo Claudia Liz, que reagiu negativamente à lipoaspiração. De lá pra cá, tornar-se ainda mais bonita e ainda mais bonito não é mais ideal estético: é ideal de vida. Preocupada em não parecer hipócrita, preciso dizer que considero legítima a vontade de querermos “corrigir” nossas imperfeições. Há bundas feias, há narizes feios, há seios feios, há panturrilhas feias, há coxas feias, há cotovelos feios. Há muita coisa feia neste mundo! É legítimo querermos abandonar aquilo que não nos deixa bem. Mas a nossa percepção estética está sendo cada vez mais distorcida, condicionada e manipulada.

O problema, até então, não é o fato de apelarmos para intervenções cirúrgicas. Para mim, o problema é quando não sabemos exatamente o que nos motiva, bem lá no fundo, para essas mudanças. Até que ponto estamos seguros de nossas escolhas? Até que ponto não estamos absorvidos por uma percepção distorcida e ameaçadora sobre a vida, sobre a beleza, sobre a nossa condição feminina ou masculina? Do que precisamos? Quais as intervenções que precisam ser feitas dentro de nós? Como combinamos nossas questões internas com as externas?

Minha indisciplina depois dos 20 anos de idade não me permite mais fazer atividades físicas regulares. Se engordo com facilidade, não tenho facilidade em me esforçar para emagrecer. Neste ano, fui à academia e me matriculei num pacote de pagamento antecipado por seis meses. Vence agora em dezembro. Frequentei o ambiente dois dias, com intervalo de 20 dias entre uma ida e outra. Sou um fracasso quando o assunto é peito, bunda e coxas vendidas como mercado nas academias. Não é falta de tempo. É apenas o grave problema de não me incomodar com minha ausência de perfeição.

Posso fazer atividades físicas ao ar livre. Posso nadar na casa dos meus tios. Posso continuar dormindo bem. Posso manter-me lúcida e satisfeita com a bondade divina. Posso compreender que existem grandes diferenças entre saúde e estética. Entre o que realmente importa e é significativo e o que me obriga e me agride ao querer que eu seja como dizem que eu preciso ser.

Posso, portanto, reconhecer que estamos expostos ao lado mais sombrio da vida. E que a pior de todas as nossas imperfeições humanas é aquela que reside, disfarçadamente, onde ninguém vê.

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