faith

A função da oração não é influenciar Deus, mas especialmente mudar a natureza daquele que ora. (S. Kierkegaard, filósofo dinamarquês)

É do silêncio absoluto e profundo que se ouve o barulho da dor e da angústia. É a nossa perplexidade que se movimenta solitária no chão de nossa experiência. Ainda não compreendemos a suspensão temporária da vida. Será sempre difícil constatar os nossos ferimentos e observar as cicatrizes que nos deixaram. Sentir as coisas, sentir as pessoas, sentir a rocha, sentir a água… isso esboça que ainda respiramos, mesmo quando tudo fica mais devagar e sôfrego, quase agonizante. Há momentos nos quais gostaríamos de apenas fechar os olhos, deixar a nossa pele impermeável às decepções e à agonia… Há momentos nos quais desejaríamos nos tornar nada, absolutamente.
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arriesgarte

Amurallar el propio sufrimiento es arriesgarte a que te devore desde el interior. (Frida Kahlo, pintora mexicana)

“A vida dura menos que um poema”, escreveu o poeta e jornalista baiano Damário da Cruz (1953-2010), em Gran finale, o último do autor de “Todo risco” (A possibilidade de arriscar / é que nos faz homens […]). Ambos os poemas evidenciam, para mim, a angústia própria de nossa condição humana. De suportar dores e sofrimentos no dia a dia de nossa vida. De enfrentar diariamente aquilo que nos impede de viver, as paredes e os muros de nossa existência tão cheia de pedaços (e cortes). Evidenciam, ainda, a brevidade da vida, que até pode nos parecer longa, mas o engano se desfaz cada vez que compreendemos que o agora não existe mais, posto que toda a nossa experiência já se estabeleceu como ontem.
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aloneness

[…] “aloneness as a human condition; as a greater, graver issue”... (Adrien Brody, em entrevista ao The Observer, sobre o filme Detachment)

Enquanto não consigo parar a minha vida a fim de passar horas e horas assistindo aos filmes que integram a minha lista particular cinematográfica, e isso inclui sessões das mais diversas nacionalidades (não gosto de coisas homogêneas), satisfaço-me lendo entrevistas concedidas pelos atores durante a divulgação de seus trabalhos. Para o jornal The Observer, vinculado ao britânico The Guardian, o vencedor do Oscar de melhor ator em 2002 pelo filme O pianista, Adrien Brody, conversou com a jornalista Alex Clark sobre a nova produção Detachment (2011), dirigida por Tony Kaye (você sabe quem é ele?). O título da matéria publicada recentemente é Adrien Brody: The quiet American, também disponível em português no site da revista CartaCapital. De tudo que li no texto, apenas uma frase quero destacar brevemente aqui: “a solidão como condição humana; como uma questão maior e mais grave”. 
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life

De tudo que existe, nada é tão estranho como as relações humanas, pensou ela, com suas mudanças, sua extraordinária irracionalidade. (Virginia Woolf, escritora inglesa)

Para não viver em vão
Por Ricardo Gondim*

Para não viver em vão é preciso oscilar entre as margens do bem e do mal, do ódio e do amor, da delicadeza e da estupidez. Por algum motivo, a sabedoria milenar acertou: a virtude pertence aos moderados. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra.

Para não viver em vão é preciso flutuar com leveza. Se necessário, encher os pulmões de nitrogênio e acompanhar o voo dos balões. E se o desejar ir às alturas for inevitável, não deixar  que o fascínio das nuvens roube o acocorar-se ao lado de quem está agrilhoado à crueldade da vida.

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farewell

There is so much hurt in this game of searching for a mate. And you realize suddenly that you forgot it was a game, and turn away in tears. (Sylvia Plath, escritora e poetisa americana)

Há um outro tipo de estrada que a espreita. O barulho de seus pensamentos a sufoca e a paralisa brutalmente. Não é possível habitar desta maneira! Mais do que em qualquer outro dia, ela sente que precisa ir. Houve uma lesão na alma, intensa, profunda. Acidental, mas ocorreu. Se ela não partir agora, será ainda mais amarfanhada. Aconteceu. “Ninguém decide sobre os passos que evitamos”… Viver assim, pensou, é doloroso, cruel, injusto. Existir assim, lamentou, é insuportável. Acabou, ela sabe disso. E agora é ela quem quer que seja dessa forma. O seu corpo, o seu espírito, a sua alma, os seus devaneios, as suas fantasias, tudo está desbaratado, destruído. Respira sofregamente, mas de cansaço, de agonia, de angústia, de dor. A pressa é pela morte, e não mais por ele, que partiu bruscamente, sem se despedir. Não precisa, não importa, é a vida. Cada um com os seus cortes, com as suas feridas, com o que ainda lhe resta de sangue.
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borderline

A pólvora permaneceu tão inofensiva quanto areia, porque nenhum fogo chegou perto para fazê-la explodir. (Emily Brontë in O morro dos ventos uivantes)

Aqui não há roteiros, o que existe é a vida… e nada mais. É o que temos, mas não em possessão, pois a vida não se permite ser propriedade de ninguém. Apenas (e isso é tudo) está aí, disponível para todos. E pode desaparecer a qualquer instante. Com a ajuda da implacabilidade do tempo, a vida me parece algo raro demais para nos perdermos entre tantas veleidades. Ainda ontem eu era somente uma criança curiosa e tímida, ironicamente tímida. Ainda ontem… Ontem a distância entre a casa dos meus avós maternos e a casa dos meus pais me parecia longa, o que tornava tudo mais alegre e especial. Ir visitá-los, andar pelas ruas de uma cidade interiorana, ver as pessoas caminhando, crianças brincando, a pracinha da igreja, enfim, a vida também estava lá, fantasiada, mas estava. E era bela. Ontem eu era. Hoje estou. Porque “ser”, a gente já não sabe mais se “é”. E essa diferença poeticamente semântica, eu não saberia explicá-la em inglês.
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short

A vida é muito curta para tomarmos às costas o fardo dos erros alheios. Cada um vive como quer e paga pelo que faz. Só é triste que muitas vezes se deva pagar por uma só falta. E a expiação não tem fim. Nos seus negócios com o homem, o destino nunca fecha a conta. (Oscar Wilde in O retrato de Dorian Gray, p. 153)

Porque a vida é breve
Por Ricardo Gondim*

Porque a vida é breve me deixo atrair pelo insólito. E com ele, desperto a coragem de correr riscos. Cito Rubem Alves: ?Os homens buscam a segurança para fugir da morte. Eles não sabem que a segurança é a morte em vida?. Noto os dias desaparecerem em nacos semanais. As semanas se diluem em meses. Os meses se esfarelam em anos. E os anos se acabam nas décadas. Inconformado com a ladeira do tempo, não permito que a vida despenque em direção ao nada. Se o relógio acelera na loucura do dia a dia, canto com Lenine:

?Enquanto o tempo
Acelera e pede pressa
Eu me recuso faço hora
Vou na valsa
A vida é tão rara?.?
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