meaning

Seja qual for o país, capitalista ou socialista, o homem foi em todo o lado arrasado pela tecnologia, alienado do seu próprio trabalho, feito prisioneiro, forçado a um estado de estupidez. (Simone de Beauvoir)

Pensar não entorpece a vida
Por Aline Menezes
Jornalista e professora 

A ausência de reflexão no homem é a atrofia dos lugares-comuns. Sempre explico para os meus alunos que, num texto dissertativo, por exemplo, precisamos evitar os clichês, aquelas expressões que, de tão utilizadas, servem para tudo, servem para argumentar ou tentar argumentar sobre qualquer coisa.

Sempre explico para os meus alunos que, num texto dissertativo, devemos ser objetivos, precisos na linguagem. Explico que devemos escolher a ordem direta das orações, assim como devemos nos manter claros, coesos, coerentes. Explico também que, num texto dissertativo, devemos defender uma ideia ou um ponto de vista… enfim, todas aquelas lições que os nossos professores de redação nos ensinaram (ou, pelo menos, deveriam…).

Além disso, procuro fazê-los ter curiosidade pelo estudo da gramática, não da maneira equivocada e entediante que muitos professores de português já fizeram… porque, para mim, mais importante do que qualquer regra gramatical é incentivar os alunos ao pensamento autônomo e independente.
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strange

[…] Procuro, não sei o que procuro. Procuro / um céu passado, a véspera extinta. Meu rosto / vai tão baixo, que antes nos céus ia posto! (trecho do poema A luz de ontem, de Lucian Blaga, poeta romeno)

Strange

Se existe um caminho, ainda não o encontrei. Porque tudo se torna confuso à medida que andamos, que buscamos, que nos entregamos a. Sinto que minha alma hoje está completamente nua, cheia de cortes, ferida, marcada, profunda. É um dia estranho não poder sentir. Não poder tocar. Não ser. De que adianta uma vida inteira pela frente, se. O chão é duro e difícil, perder já não faz diferença, já que ganhar tornou-se impossibilidade.

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everything

[…] porém minha melancolia / é sempre igual: torrões, andaimarias, blocos, / Arrabaldes, em tudo eu vejo alegoria, / Minhas lembranças são mais pesadas que socos. (trecho do poema Quadros parisienses, d’As flores do mal, de Baudelaire)

Everything

É esta insuficiência que parece tornar tudo tão belo. Perverti uma dor solitária, profunda, real. Sinto intensamente a sua presença. Tudo é tão incompleto, moldura de impedimentos e impossibilidades. Mas este sentimento aqui dentro é parte de minha existência, que respira, que pulsa, que vive. É como se todas as coisas belas, bonitas, honestas, íntegras e puras… como se todas elas fossem você. Há admiração mútua, comunhão de ideias, paixão pela vida, apesar de todas as nossas dores e angústias… Há desejos, há vontade de estar junto…

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crack

“A única experiência social possível de ser comparada à situação dos atuais viciados em crack não é a dos escravos em qualquer das sociedades nas quais eles existiram, já que mesmo esses escravos, geralmente considerados como ?coisas?, passíveis de serem comprados, vendidos, conquistados ou roubados, ainda nessas condições se mantiveram uma situação existencial de ter o corpo cativo, mas serem ainda donos de uma vontade manifesta ou latente que, ainda que frustrada em suas ações, era ?livre? em seu pensamento e desejo íntimos.”

Crack, corrosão da sociabilidade e inviabilização dos indivíduos
Por Edison Bariani
Sociólogo e professor universitário

De modo surpreendente, já estamos nos acostumando à terrível cena de hordas de indivíduos vagando solitários, perdidos, derrotados e vazios pelas ruas das cidades brasileiras. Os tais ?nóias?, ?zumbis?, ?andróides? ? ou algo do que o estupor popular os chame ? vasculham o lixo das ruas à procura de latas, vasculham o lixo social à procura de drogas e vasculham o fundo da alma à procura de algum sentido para suas vidas desperdiçadas.
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slutwalk

“Tomar para si o uso do termo “vadias” tem sido uma irreverente estratégia de deboche do preconceito. Parte da exigência de que os direitos das mulheres não podem ser violentados em nenhuma hipótese, seja lá quem ou como for a vítima.”

O deboche das vadias

Por Carla Rodrigues
Jornalista e professora da UFF

Não importa quem você é, onde trabalha, como se identifica ou o que veste. Ninguém tem o direito de tocar seu corpo sem seu consentimento. É o que reivindica a Marcha das Vadias, movimento internacional iniciado no Canadá depois de um policial de Toronto pedir às mulheres que não se vestissem como vadias para não serem estupradas. Desde o primeiro protesto, em abril de 2011, o que se vê em Nova York, Boston, Berlim, São Paulo e Rio é a revitalização da pauta feminista, historicamente mobilizada contra a violência. É verdade que as vadias estão nas ruas para pedir mais do mesmo: fim da discriminação contra as mulheres, da violência sexual e da violência doméstica, do tratamento das vítimas como culpadas pela percepção de que os crimes são “naturais” diante do comportamento – ou da altura das saias – daquelas que supostamente provocam os estupradores.

As imagens das marchas mostram jovens com corpos pintados e cartazes que transformaram em slogans divertidos uma agenda política que tem avançado lentamente. Se a pauta é antiga, onde estaria a revitalização?
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