nothing

[…] Pense por um momento no mundo em que vive um rato. É um mundo sem dúvida hostil. Se um rato passasse pela sua porta da frente neste minuto, o senhor o receberia com hostilidade? (do coronel alemão Hans Landa para o francês Perrier LaPadite, p. 11)

Minha fé não é poética, tampouco acaricio seres repugnantes. Percebo que há ratos e ratos, há espécies invasoras. E outras nem tanto. Escondo-me no assoalho de casa: para fugir não dos roedores, mas de mamíferos de caudas mais curtas e de focinhos arrebitados.

Sim, insisto: minha fé não é poética. Não quero ser recruta, apenas tomar vinho. Ter a sensação da embriaguez que me toca os lábios, mas não me anestesia a consciência. Só os tolos têm raiva da lucidez. Só as criaturas vis nos parecem nocivas; e quanto às outras?

É. Acho que sou garota de sorte, pois a insanidade que me assombra é a mesma leveza que me liberta.

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TARANTINO, Quentin. Batardos inglórios: o roteiro original do filme. Tradução Anna Lim. Barueri (SP): Manole, p. 11, 2009.

THINK

[…] Iedereen kijkt, maar niemand zegt wat hij denkt
Iedereen lijkt, maar niemand is wie je denkt.

[…] Todo mundo olha, mas ninguém diz o que pensa
Todo mundo olha, mas ninguém é o que você pensa.

(Stil In Mij by Van Dik Hout)

… cada dia que passa, a certeza aumenta: descubro que há um misantropo em mim. Riscos de tédio desenham meu humor. A mediocridade me apavora. O fingimento me assusta. E nada disso me surpreende. Fico irritada com a brutalidade que incide sobre a inocência. Com a culpa por ser o que se é. Escrevo porque me faltam palavras.

Vejo que não enxergo e sinto o que não percebo: não gosto de pessoas; gosto de gente. Sim, porque pessoas são seres entediantes. Gente é o esforço de não dar ao outro o que se tem de pior. Pessoas são seres pintados sem tinta nem cor. Gente é o preto e branco ilustrado. E não quero ser interpretada.

Minha voz não é o que ouço lá fora. Aqui dentro os sons são diferentes. A melodia envelhecida está sempre nova. Porque não me conformo com a agitação mentirosa. Ou com o silêncio sem sentido. Nem me adapto aos sorrisos gelados, ou às notas equivalentes. O que sou está no infinitivo. Isso já é o bastante.

A arquitetura da alma, nela não me calo nem me coloco de olhos fechados. Estendo os braços para ampliar minha construção: não quero ser superfície. Porque minhas fraturas seguem o fluxo da dor. Profunda e forte, intensa e suave, breve e demorada. É assim o meu caminho: particular e sem remendos. Inteiro, mesmo quando em pedaços.

LOWER CASE

… a tentativa de compreender o ponto de vista de todos muitas vezes mostra que nós mesmos estamos desinteressadamente em uma posição média ou superior, e que tentar harmonizar pontos de vista conflitantes em um consenso implica rejeição da verdade de que certos conflitos só podem ser resolvidos unilateralmente. (Literary Theory by Terry Eagleton)

pessoas são seres insuportáveis. fingem preferências artísticas quando as julgam símbolos de bom gosto, inteligência e fascínio… tudo não passa de estupidez. aliás, a arte é estúpida: ninguém a define. mas todos se sentem melhores quando dizem que a apreciam, não necessariamente porque a apreciam. garotas pin-up dos anos 1920.

pessoas são seres que me cansam. bem disse miguel: ah, “cansei das pessoas pelas quais não tenho admiração”. lábios broncos e sobrancelhas sem moldura. cospem no prato que compraram. acham-se donos daquilo por que pagaram. olham mas não enxergam. respiram mas não vivem. andam mas não saem do lugar. riem mas não entendem a piada. falta-lhes humor.

pessoas são seres vestidos. a nudez nem sempre lhes parece bela, porque há imperfeições. assimetrias não são bem-vindas. há os que rejeitam a perfeição, apenas de propósito. isso os faz parecer esquisitos. e ser estrangeiro parece “cult”. minha nudez não é para todos. mas não quero estar vestida todos os dias.

pessoas são seres nojentos. óbvios e previsíveis. incompatíveis com a beleza do universo. rimas entediantes, diálogos fúteis, ideias atrofiadas, imbecis em copos de preconceitos. timbres e batidas forçadas. porque pessoas não são sons de uma noite de inverno: são melodias sem apoio musical.

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EAGLETON, Terry. Teoria da Literatura: Uma Introdução. Tradução Waltensir Dutra. São Paulo: Martins Fontes, 2006, p. 10.

NO FRONTIERS

[…] Natureza, deusa do viver / A beleza pura do nascer / Uma flor brilhando à luz do sol / Pescador entre o mar e o anzol […] (Shimbalaiê, de Maria Gadú)

Repito: seremos sempre inúteis na tentativa de adivinhar a vida. Por mais que nos esforcemos, vez ou outra a gente descobre as fantasias que nos envergonham. Os palavrões ditos em voz baixa.

Também repito: ah, como é difícil lidar com a loucura que existe dentro de nós! São os nossos surtos de humanidade. Pequenas concessões desastrosas. É verdade: se ainda resta beleza em nós, o mundo deixará de nos parecer insípido.

… precisamos admitir: não há anjos entre nós.